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Cachorro pode entrar em hospital para visitar o dono? Saiba regras e como pode ajudar na recuperação

Alguns Estados e municípios brasileiros permitem que animais de estimação ou terapêuticos encontrem pacientes, mas hospitais têm regras próprias; confira

Atualização:

Nada é mais devastador do que uma doença. Ainda mais terminal. Todos sofrem: o enfermo, seus familiares e amigos. Quando eu soube que a minha mãe seria internada às pressas por causa de complicações ocasionadas por um câncer de pulmão, com metástase no cérebro, minha maior preocupação não era os 1.200 quilômetros entre São Paulo (onde vivo) e Porto Alegre (onde ela estava), nem o que eu faria com a minha agenda lotada de prazos apertados e, sim, como eu entraria no hospital acompanhada da minha cachorra Ella. A partir desse momento, me deparei com um novo mundo e descobri que, hoje, os animais de estimação são vistos como parte da família em muitas instituições de saúde de todo o Brasil.

Na cidade de São Paulo, a lei 16.827 de fevereiro de 2018 diz que fica a critério do hospital permitir ou não a entrada de animais. Os hospitais Dom Alvarenga, Sírio Libanês e os da rede Americas permitem que os pacientes sejam visitados por seus animais de estimação, mediante laudos de saúde. O principal motivo dessa permissão está baseado justamente nos benefícios que um cachorro exerce na melhora do estado de saúde de um paciente, como cita José Emílio Duran Bueno, chief medical officer do United Health Group (UHG): “A visita de um animal de estimação pode diminuir a escala de dor de um paciente em até 60%”.

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De acordo com a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), diversos estudos comprovam os benefícios da chamada pet terapia ou Terapia Assistida por Animais (TAA). Em um deles, publicado na Revista de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), idosos que vivem em asilos foram submetidos à companhia de cachorros durante tratamento de pressão alta e tiveram resultados “extremamente positivos”, uma vez que o animal desencadeia a sensação de “bem-estar, saúde emocional, física, social e cognitiva”, funcionando como ponte de ligação entre o tratamento e o paciente.

Outro exemplo prático é uma pesquisa realizada em 2015 na Área de Pediatria da Santa Casa de Misericórdia, em São Paulo. Lá, foram adotados 50 cães durante o tratamento de crianças com câncer. Os resultados foram similares, comprovando a eficiência da Pet Terapia: a presença dos animais regulou a pressão arterial e os batimentos cardíacos, diminuindo a ansiedade tanto dos pacientes quanto das famílias que os acompanham.

Há três categorias de cães que vão a um hospital: os que fazem o trabalho de intervenção assistida por animais, os de suporte emocional e os de estimação. A grande diferença entre os dois primeiros para o terceiro é que eles são treinados, são cães sob controle que obedecem comandos e têm alto grau de sociabilidade com pessoas e outros animais.

Vivian Gobbato Neuls, paciente do Hospital São Lucas, em Porto Alegre, que recebeu visita de seu cachorro Luca: 'Com suas visitas, eu e ele ficamos bem' Foto: Cris Berger/Guia Pet Friendly

Porque os cães auxiliam na recuperação de pacientes?

A psicóloga Juliana Bastos, especializada em terapia cognitiva e comportamental e mestre em educação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), explica que o ambiente hospitalar é um local que ninguém deseja estar, o que já implica em uma atmosfera assustadora e de ansiedade para o paciente. Quando ele pode ter contato com um animal com o qual tenha vínculo, é “uma enxurrada de afetividade, a qual funciona como um refúgio emocional que se reverte em relaxamento em decorrência do contato físico”.

Segundo Juliana, a visita do animal representa uma mudança de foco para o doente, pois o paciente experimenta um momento de prazer em meio a tantas dores. “Ele substitui o sentimento de sofrimento pelo conforto e essa interação diminui o tempo de internação e fortalece o sistema imunológico”, explica.

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A presença do cão também pode ser vista como motivação para o paciente desejar estar em casa o mais rápido possível, fazendo com que o cumprimento de exames e tratamentos aconteça de forma mais efetiva. “A alegria é um fator que auxilia de forma expressiva na melhora dos pacientes”, afirma.

O pesquisador sul-africano J.S.J Odendaal mensurou os níveis hormonais de pessoas e cães depois de uma interação de qualidade e publicou seu estudo no Journal Of Psychosomatic Research, que é a principal referência quando se busca entender os benefícios fisiológicos da relação entre pessoas e animais.

Baseado nele, a psicóloga teoriza sua defesa: a interação entre humanos e animais de estimação libera hormônios e neurotransmissores no corpo. A prolactina, por exemplo, gera o desejo de vínculo social. Já a ocitocina é o hormônio anti-estresse e de afetividade. A endorfina atua como um anestésico natural, e a dopamina gera motivação. Além disso, há a redução do cortisol, que é o hormônio do estresse e, consequentemente, da ansiedade e da depressão. “Só o simples fato de você estar em contato com um animal já traz vários benefícios fisiológicos”, salienta.

Quando o visitante tem quatro patas

Em 2021, um paciente do hospital Dom Alvarenga, na zona sul de São Paulo, fez um pedido inusitado e, até então, inédito: ele queria receber a vista do seu cachorro. O serviço de controle de infecção hospitalar reuniu-se para avaliar e chegou à conclusão de que era seguro. Deste episódio em diante, os animais de estimação passaram a fazer parte do quadro de visitantes. Eles podem permanecer por cerca de 30 minutos e devem apresentar a carteira de vacinação, atestado de saúde e estarem limpos, de banho tomado.

Juliana Kessel com o pug Homer, que visitou sua mãe no hospital: 'É uma nostalgia boa' Foto: Tiago Queiroz/Estadão

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Não há restrição para os quartos semiprivativos, contanto que todos estejam de acordo. A dona de casa Esmerita Gregorio Kessel, então com 77 anos, foi um dos seis pacientes do hospital que usufruíram da possibilidade de ser visitado por seu cachorro, o pug Homer. Ela ficou quatro meses internada, boa parte do tempo na UTI, e acabou falecendo. Segundo sua filha, a administradora de empresas Juliana Kessel, no entanto, o momento da visita do cãozinho foi muito especial.

“Minha mãe recebeu a visita dos cães do Patas Therapeutas (instituição que leva animais a hospitais), ficou imensamente feliz e pediu para ver o Homer, que esteve o tempo todo em cima da cama enquanto ela arrumava o cobertor e sorria. Fico muito feliz em resgatar essa história, é uma nostalgia boa”, conta.

Outro hospital com um programa voltado ao bem-estar dos pacientes é o Samaritano Higienópolis, da rede Americas, que criou o What Matters to You (Projeto ComPaixão) para realizar os desejos dos pacientes. Ele segue um protocolo semelhante ao Dom Alvarenga e estipula a visita a 30 minutos - a exigência é que o animal esteja com a saúde em dia.

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No Hospital São Lucas da PUC de Porto Alegre, onde minha mãe ficou internada, o cão Luca, da raça lulu da pomerânia, tem livre entrada. Ele visita diariamente a empresária Vivian Gobbato Neuls, internada desde 28 abril, sem previsão de alta, em tratamento de uma doença autoimune. “Eu escolhi o hospital em que o Luca pode entrar. Quando não estou em casa, ele não quer comer, nem dormir, fica na porta me esperando. Eu fico preocupada em saber como ele está, o que não ajuda o meu tratamento. Com suas visitas, ele e eu ficamos bem”, revela Vivian, enquanto abraça seu cachorrinho.

Animais em hospitais: quais os riscos à saúde?

Muitas pessoas questionam se o ambiente de um hospital é local para um cachorro analisando pelo âmbito de higiene e transmissão de doenças. Realmente, as zoonoses que podem ser transmitidas de um cão para uma pessoa é um ponto importante a ser analisado e cuidado e, por isso, é tão importante os animais estarem vacinados contra a raiva e a leptospirose. A leishmaniose pode ser combatida com o uso de coleira repelente. Pulgas, carrapatos, vermes e sarnas, com antiparasitários.

O risco de transmissão e doenças é baixo desde que exista cuidado e acompanhamento dos animais que visitam estes pacientes. O acompanhamento do médico veterinário é imprescindível para evitar a transmissão de doenças e risco de contaminação com ectoparasitas e outros patógenos”, explica Sibele Konno, gerente técnica da rede de hospitais veterinários Pet Care.

A chance de um animal contrair uma doença no hospital é ainda menor, mas ele estar saudável também é importante para evitar que seja contaminado por uma bactéria mais resistente mediante a quebra de imunidade.

O diretor técnico Cesar Buchalla, do hospital Dom Alvarenga, explica que a chance de transmissão de uma doença de um cachorro para uma pessoa é muito menor do que entre humanos. Ou seja, a visita de um parente ou amigo é mais perigosa do que a do animal de estimação. Além disso, os benefícios em relação aos malefícios são muito superiores. Hoje, os cuidados individualizados estão em alta e o tratamento do paciente não é apenas baseado na medicina tradicional e medicações, mas no que emocionalmente faz bem para a pessoa.

O que são Animais de Intervenção Assistida (IAA)?

Mesmo quem não tem um animal de estimação pode se beneficiar da visita de um pet. A Patas Therapeutas é uma organização sem fins lucrativos que, desde 2012, faz o trabalho de Intervenção Assistida por Animais (IAA) em hospitais, asilos, abrigos de crianças e bases da polícia militar. Ela usa a presença de cães, gatos, coelhos, porquinhos da Índia, hamsters e furões para entregar os benefícios de bem-estar cientificamente comprovados.

Para um cachorro fazer parte da equipe de voluntários não há restrição de raça, tampouco idade, contanto que tenha o perfil certo e cumpra os protocolos de comportamento e saúde, que são baseados nas regras internacionais da IAHAIO, associação que define diretrizes para o bem-estar humano e animal. É básico que gostem de outras pessoas e animais, sejam castrados, tenham o adestramento básico, com o controle de impulsos e socializados. Além de não demonstrarem reatividade a barulhos, cheiros e movimentos.

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A relação de bem-estar único que envolve paciente, animal e tutor é levado em conta para que a experiência seja boa para todos. Os atendimentos, conforme as regras de cada hospital, acontecem no quarto, salas especiais ou UTIs. E um termo de responsabilidade é assinado por ambas as partes.

“Temos casos maravilhosos de crianças deprimidas que melhoraram com a visita do animal. Na UTI, presenciamos casos de pessoas que não abriam os olhos, nem se comunicavam e, em contato com os animais, voltaram a conversar. Visitei pacientes terminais que pediram para ter contato com um animal nos seus últimos momentos”, relata Silvana Prado, criadora do Patas Therapeutas.

Em boa companhia

Os cães de suporte emocional surgiram na Inglaterra, no final da Primeira Guerra Mundial para dar suporte aos soldados que estavam feridos ou com transtornos psicológicos, com grande sucesso no tratamento e recuperação. Nas décadas seguintes, eles começaram a ser utilizados em diversas esferas e auxiliam pessoas que possuem doenças físicas, emocionais e mentais.

Fotos de Syr Martins Filho, que recebeu a visita da cachorra Ella durante sua internação no Hospital São Lucas, em Porto Alegre Foto: Cris Berger/Guia Pet Friendly

A Ella é minha cachorra de suporte emocional e esteve comigo durante 20 dias em turno integral, no Hospital São Lucas da PUC, em Porto Alegre. Na ocasião, percebi o quanto a sua presença permitiu que o insuportável fosse encarado com mais leveza. A minha mãe era um paciente oncológico terminal, estávamos ali dando amor e a Ella deixou os dias mais brandos.

Os médicos e enfermeiros que entravam no quarto ficavam encantados com a presença dela. O bem-estar geral foi tão grande que ela até ganhou do hospital um jaleco e crachá com sua foto e nome. A Ella mostrou o quanto um cachorro, com o devido treino e sociabilidade, pode impactar positivamente um ambiente hospitalar.

Seis meses depois, voltamos ao hospital São Lucas para acompanhar meu pai, Syr Martins Filho, que ficou 15 dias na UTI - Ella e eu estivemos presentes em sete deles. Depois que foi para o quarto, seguimos com as visitas e não tenho dúvidas de que a presença da Ella, mais uma vez, foi extremamente benéfica na evolução do seu quadro de saúde. Assim como na minha capacidade de suportar um momento de dor e incerteza.

Perguntei a ele como tinha sido a experiência - já que minha mãe sempre foi “cachorreira”, mas ele não. Como estamos em cidades diferentes e sua saúde ainda demanda cuidados, ele me escreveu. “Os antecedentes da Ella no hospital foram muito fortes, pois todos a conheciam e queiram revê-la. A presença dela não foi boa só para nós, mas para toda a equipe de médicos e enfermeiros, que não deixavam de perguntar por ela. Isso foi muito importante, muito especial. A Ella fez história, trouxe novos cachorros para o hospital, não ficou nela, deu sequência.”

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Em São Paulo, no hospital Sírio Libanês do Itaim, novamente minha cachorra esteve presente, dessa vez durante o meu preparo do exame de endoscopia e colonoscopia. Eu havia desmarcado quatro vezes o procedimento pela dificuldade no preparo em casa e, por isso, optei pelo hospitalar, que leva 6 horas. Quando a presença da Ella foi permitida, tive finalmente a disciplina de cumprir a dieta alimentar e percebi o quanto algo que costuma ser queixoso para a maioria das pessoas tornou-se agradável justamente por tê-la ao meu lado.

Atualmente, os Estados do Acre, Rondônia, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro e os municípios de Belo Horizonte, Campinas, Chapecó, Paranaguá e Sorocaba possuem leis amparando as pessoas que necessitam de cães de assistência. Porém, há um projeto de lei, o 10.286/2018, que está em tramitação para que seja aprovada uma legislação em âmbito federal.

Meu cachorro pode me visitar no hospital?

As regras de visitação de animais em hospitais podem variar de acordo com o hospital ou a cidade - alguns lugares, por exemplo, podem restringir o benefício a pacientes com mais tempo de internação. Conheça as diretrizes mais comuns:

  • Espécies: além de cachorros, gatos, pássaros, coelhos, hamsters e furões podem ser permitidos. É importante verificar com o hospital previamente as restrições;
  • Autorização: o médico pode ter que fazer um laudo autorização a visitação;
  • Laudo veterinário: os hospitais exigem que um laudo ateste a boa saúde do animal. Carteira de vacinação atualizada é outra exigência;
  • Higiene: os animais devem estar de banho tomado e livres de parasitas;
  • Transporte: dependendo do porte do animal, caixa de transporte e guia são exigidos;
  • Local: a visita pode ocorrer ser dentro do quarto, na UTI ou em uma área determinada; tudo vai depender da determinação do hospital.
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