Nova pesquisa levanta preocupações sobre covid longa em crianças

A doença é menos prevalente nelas do que em adultos, mas os sintomas podem atrapalhar a rotina escolar e vida social; confira os sintomas mais importantes

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Por Dana G. Smith e Dani Blum

THE NEW YORK TIMES – Uma ampla análise publicada recentemente na revista Pediatrics ressalta o impacto que a covid pode ter sobre as crianças, em alguns casos causando sintomas neurológicos, gastrointestinais, cardiovasculares e comportamentais nos meses após uma infecção aguda.

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“A covid longa em adultos e crianças é um problema sério nos Estados Unidos”, disse Ziyad Al-Aly, chefe de pesquisa e desenvolvimento do VA St. em St. Louis, que estuda a doença, mas não participou do novo relatório. Ele disse que o artigo, que se baseou em vários estudos sobre covid longa em crianças, é “importante” e demonstra que o problema pode afetar vários sistemas orgânicos.

A nova revisão sugeriu que 10% a 20% das crianças que tiveram covid nos Estados Unidos desenvolveram covid longa. No entanto, Suchitra Rao, especialista em doenças infecciosas pediátricas do Hospital Infantil do Colorado e coautora do artigo, disse que há “muitas ressalvas” quanto às estimativas de prevalência usadas para se chegar a esse número.

Por exemplo, alguns dos estudos incluídos analisaram apenas uma porcentagem muito pequena de crianças que foram hospitalizadas por covid. Tal como os adultos, as crianças que tiveram casos mais graves de covid apresentam maior risco de desenvolver sintomas persistentes ou novas complicações.

Dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças sugerem que a prevalência de covid longa está mais próxima de 1% a 2% das crianças que tiveram covid. Al-Aly disse que, em adultos, o número provavelmente também estaria na casa de um dígito.

De modo geral, as famílias não devem se preocupar com o risco de seus filhos desenvolverem covid longa, disse Stephen Freedman, professor de pediatria e medicina de emergência da Faculdade de Medicina Cumming da Universidade de Calgary. “Quase nunca me perguntam: ‘Meu filho agora corre o risco de desenvolver covid longa?’ quando dou um diagnóstico de infecção aguda”, disse ele. “E acho que é uma reação adequada”.

Como é a covid longa em crianças?

É difícil estudar a covid longa porque é difícil diagnosticá-la, uma vez que os sintomas são muito variados. Fazer o diagnóstico em crianças é ainda mais complicado, porque os sintomas podem ser diferentes daqueles observados nos adultos. Além disso, as crianças pequenas muitas vezes não conseguem descrever o que estão sentindo, por isso os pesquisadores aconselham as famílias a prestar atenção em mudanças de comportamento. Fadiga, confusão mental e dores de cabeça estão entre os sintomas de covid longa mais relatados em crianças.

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Fadiga, confusão mental e dores de cabeça estão entre os sintomas de covid longa mais relatados em crianças. Para ajudar no diagnóstico, é importante que os pais fiquem de olho em mudanças de comportamento dos filhos. Foto: Anatoliy Karlyuk/Adobe Stock

Embora esses problemas às vezes sejam moderados, podem impedir que as crianças participem plenamente de atividades escolares ou recreativas. As crianças pequenas também podem apresentar problemas de comportamento, frustradas por não conseguirem fazer o que costumavam fazer. A maioria dos sintomas melhora dentro de um ano, dizem os especialistas, mas em algumas crianças eles podem persistir por mais tempo.

Ainda não está claro qual pode ser o impacto desses sintomas prolongados no desenvolvimento das crianças a longo prazo, disse Laura Malone, diretora da Clínica de Reabilitação Pediátrica Pós-Covid-19 do Instituto Kennedy Krieger, em Baltimore.

Em casos graves, algumas crianças apresentam problemas respiratórios e cardiovasculares persistentes – até mesmo miocardite cardíaca. Diabetes e outras doenças autoimunes também podem surgir depois de uma infeção por covid, embora “tendam a ser muito, muito menos prevalentes em crianças” do que os sintomas mais moderados, observou Al-Aly.

Sintomas persistentes e graves podem surgir mesmo em crianças com infecções leves, disse Sindhu Mohandas, especialista em doenças infecciosas do Hospital Infantil de Los Angeles.

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Foi o caso de Lucas Denault, cujo contato inicial com a covid em 2021 não causou muito mais que nariz entupido. Lucas, então com 15 anos, se recuperou e voltou à escola, aos treinos esportivos e às reuniões do conselho estudantil. Mas, meses depois, começou a ter dificuldade para andar pelos corredores de sua escola em Littlestown, Pensilvânia. A cabeça e o peito doíam. Ele se sentia tonto e enjoado.

“Foi uma queda muito rápida”, disse sua mãe, Karin Denault. Nem Lucas nem a mãe imaginaram que os problemas pudessem estar ligados ao breve quadro de covid. Mas, por recomendação de um parente, ele foi fazer uma avaliação na clínica Kennedy Krieger, em Baltimore. Então foi diagnosticado com covid longa e com síndrome de taquicardia postural ortostática, um conjunto de sintomas que leva à fadiga extrema e pode ocorrer em pessoas com covid longa.

Quais são os tratamentos disponíveis?

Não existem medicamentos aprovados para tratar covid longa, por isso os médicos se concentram em controlar os sintomas e ajudar os pacientes a funcionar bem no dia a dia. Alguns médicos prescrevem medicamentos para tratar problemas como dores de cabeça e musculares.

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Mohandas, que também participou da pesquisa, disse que muito do trabalho que ela e outros médicos realizam gira em torno da validação das experiências desses jovens pacientes. Muitos “eram bastante saudáveis antes da covid, por isso as pessoas tendem a duvidar dos seus sintomas”, disse ela.

Malone disse que as escolas deveriam fazer adaptações para as crianças com dificuldades, como intervalos durante o dia e tempo extra para testes e provas.

Pequenas mudanças ajudaram Lucas. Ele tinha dificuldade para sair da cama, por exemplo, então começou a dormir mais sentado para facilitar. Por sugestão do médico, ele às vezes balançava os pés para fora da cama e soletrava seu nome com os dedos dos pés para melhorar o fluxo sanguíneo. Seu médico também prescreveu vários medicamentos, como um remédio para pressão arterial, para ajudar a controlar sintomas como fadiga e confusão mental.

Hoje, Lucas está no primeiro ano da faculdade em Princeton e a maioria dos sintomas melhorou. Quando ele estava visitando faculdades para escolher onde se inscrever, sua mãe muitas vezes tinha de empurrá-lo em uma cadeira de rodas. Semanas atrás, ela veio ao campus para vê-lo jogar basquete.

Este artigo foi originalmente publicado no New York Times. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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