Como Bonito, paraíso do ecoturismo, ajuda a frear o aquecimento global

Cidade de Mato Grosso do Sul atingiu o carbono neutro com novas práticas sustentáveis

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Por João Ker

Com pouco mais de 22 mil habitantes e a quase 300 quilômetros da capital Campo Grande, o município de Bonito se tornou no final de 2022 o primeiro destino de ecoturismo de Mato Grosso do Sul e do Brasil a receber o selo de carbono neutro, um certificado da empresa Green Initiative, credenciada pela Organização das Nações Unidas (ONU). Com destinos paradisíacos entre o Cerrado e a Mata Atlântica do Centro-Oeste, a cidade agora tem se esforçado para manter a certificação e transmitir esse conhecimento aos turistas, que quase dobraram desde que as iniciativas sustentáveis se tornaram mais presentes.

O passo inicial para que Bonito atingisse o carbono neutro foi dado oficialmente pelo próprio Mato Grosso do Sul quando, ainda em 2014, o governo publicou uma lei que prevê o mesmo objetivo para todo o Estado até 2030, antecipando em duas décadas os termos firmados no Acordo de Paris. Ainda assim, o mérito da cidade também se deve a um trabalho construído muito antes.

Total de turistas que visitam Bonito saltou em 2023 de uma média de 210 mil por ano para 330 mil, um recorde histórico Foto: SECTUR BONITO-MS

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“Bonito já tem um trabalho de turismo sustentável em áreas naturais há mais de 30 anos. Ano a ano, a gente vem implementando o trabalho de organização do turismo por capacidade e carga dos atrativos, como o voucher único”, conta Juliane Salvadori, secretária do Turismo de Bonito.

Foi em 2021 que a busca pelo certificado começou oficialmente. No ano seguinte, a administração municipal contratou a consultoria da Green Initiative para fazer uma avaliação dos pontos fracos, fortes e oportunidades de melhoria em Bonito. “Enviamos ofícios a todos os postos de gasolina, solicitando os dados referentes à venda de combustível, e para as distribuidoras de gás; fizemos um levantamento de toda a quantidade dos resíduos gerados pelo município, da energia elétrica…”, detalha Juliane.

Ao final de 2022, a prefeitura de Bonito fez a compensação do saldo negativo comprando créditos de carbono, neutralizando assim as emissões referentes ao ano anterior. “Essa foi a primeira etapa. Agora estamos continuando o projeto, elaborando o plano de mitigação para toda a cidade”, explica Juliane. “Já temos uma referência das emissões, então queremos fazer uma projeção até 2030 para diminuir as nossas emissões.”

Um dos avanços palpáveis da sustentabilidade no Estado é que, nessa primeira etapa, os créditos de carbono comprados por Bonito vieram de uma área protegida na Índia. Hoje, é possível colocar em prática o mesmo processo através de outros municípios sul-mato-grossenses já credenciados.

“Foi um trabalho bacana, mas bem desafiador. É um assunto novo para todo mundo e também estamos aprendendo muito com isso”, diz Juliane. “Ainda precisamos ter uma persistência muito grande para conseguir levantar os dados. Na minha avaliação, o mais importante é continuar o esforço e ver que algumas empresas têm feito sua própria certificação de carbono zero.”

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Bonito encanta por reunir belezas naturais entre o Cerrado e a Mata Atlântica do Centro-Oeste Foto: SECTUR BONITO-MS

Corrente do bem

Além do reconhecimento do próprio município, Bonito recebeu por tabela um segundo certificado pela Estância Mimosa, considerado o primeiro destino turístico do mundo “Climate Positive”, quando o sistema utilizado absorve mais do que o carbono emitido pelas atividades desenvolvidas. Localizado em uma reserva particular de patrimônio natural com mais de 420 hectares, dos quais apenas 35 são explorados para o turismo, o local guarda trilhas, cachoeiras e florestas paradisíacas que o transformaram em um dos destinos mais procurados da região.

Inaugurada para o turismo em 1999, a Estância é hoje um local de carbono positivo, mas ainda assim tem implementado novas formas de aumentar as práticas sustentáveis em todo o seu território. Além da compostagem, redução de resíduos sólidos e utilização da energia solar como fonte primária, agora tenta aumentar a área de floresta para produzir alimentos orgânicos.

O trabalho de formiguinha começou há 25 anos, mas tem dado resultados positivos que se espalham pela região. A máquina de café expresso foi aposentada e agora a Estância só tem grãos moídos na hora; os processados deram lugar aos alimentos orgânicos de produtores locais; os refrigerantes em lata ou garrafa de plástico foram trocados por versões retornáveis ou sucos naturais; até o papel higiênico jogado no lixo dos banheiros é usado para a compostagem, segundo Eduardo Coelho, proprietário da Estância.

Mas um dos maiores orgulhos de Coelho é a forma como ele ajudou a recuperar o Rio Mimoso e o Rio Prata, resgatando nos últimos dois anos a mata ciliar para que o curso de água não morresse em épocas de seca e tentando expandir a mesma conscientização para os vizinhos.

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“Não adianta cuidar muito bem da fazenda e ter vários outros com práticas inadequadas. É um trabalho difícil, o proprietário tem que permitir você entrar e mostrar como fazer diferente”, conta. “A gente faz muita força pra ser exemplo e inspirar melhores práticas nas pessoas.”

Esse é o mesmo objetivo de Silvia Schmidt, sócia-proprietária do Hotel Paraíso das Águas, no centro de Bonito e o primeiro do Estado a receber o certificado de lixo zero. “Nós iniciamos nosso processo junto com a cidade. Fazendo a gestão correta do lixo, diminui muito a emissão de carbono. Não é só ter, é manter o certificado. Requer um trabalho de todos ao longo do tempo, uma certa constância.”

“Para nós foi importante e para a cidade auxilia, mostrando às outras empresas que é possível estarmos juntos nisso”, continua Silvia, que desbanca a ideia de que ser sustentável é caro e dói no bolso. “O nosso trabalho não tem aumento de custo, você reduz muito quando organiza a sua atividade e começa a descobrir que tem desperdício e joga muita coisa fora.”

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Para além dos colegas empreendedores e comerciantes, ela tenta passar essa mesma ideia de consciência ambiental aos turistas. “Estamos fazendo a parte da educação ambiental. O turista é ator parte da história.”

No ano passado, o total de turistas que visitam a cidade saltou de uma média de 200-210 mil para 330 mil, um recorde histórico para o município. Mas, Bonito não pensa em parar por aqui e já faz planos para o futuro, como transformar toda a frota de automóveis em carros elétricos, segundo Juliane. “É um reflexo da essência do que é Bonito. É mais um passo que Bonito dá nessa direção do cuidado com a natureza.”

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