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Henfil: relembre a obra do cartunista no Estadão

Humorista mineiro foi colaborador do jornal nos anos 1980; as aventuras da ‘Graúna’ eram publicadas no Caderno2

Foto do author Liz Batista
Por Liz Batista

Com suas tirinhas críticas e de humor sarcástico e deliciosamente impróprio, o cartunista Henfil desafiou a censura da ditadura militar , denunciou a corrupção, a desigualdade, a miséria e a fome (principalmente no Nordeste), com charges que fizeram história. Seus personagens diziam o que muitos, por medo ou conveniência, calavam.

O cartunista, jornalista e escritor Henfil, 6/8/1986. Foto: Claudine Petroli/ Estadão

Graúna no Estadão

Tirinhas de Henfil no Estadão 

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De seus traços e de sua mente nasceram cartuns como Os Fradinhos, Ubaldo, o paranóico, Comprido e Baixim, Bode Orelana, o nordestino Zeferino e Graúna, que é a estrela do documentário Voltando a Ler Graúna (2024) , que estreou na sexta-feira (05), na plataforma Disney+ .

A graça do desenhista mineiro, não poupava nada e ninguém. Nem mesmo ele, na sua condição de soropositivo. Foi com uma brincadeira com sua doença, uma crítica política e social e com seu inconfundível sarcasmo que o artista estreou sua coluna no Estadão, em 6 de abril de 1986:

Estadão- 6/4/1986

Estreia de Henfil no Estadão em 06/4/1986. Foto: Acervo Estadão

”Positivo. Eu tenho de ser positivo. Prometi a mim mesmo ser apaixonadamente positivo Eu tenho de ser positivo. Prometi a mim mesmo ser apaixonadamente positivo. Senão vejamos. Claro.

Podemos ter surtos de poliomielite. A volta da febre amarela. Temos aí meningite, tuberculose, hepatite, chagas, esquistossomose, sífilis, gastroenterite, sarampo, brucelose e Aids... Mas o que os eternos derrotistas não enxergam é que já conseguimos erradicar o Ministério da Saúde!”

Estadão - 6/4/1986

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Estreia de Henfil no Estadão em 06/4/1986. Foto: Acervo Estadão

As colunas eram publicada aos domingos, quartas e sextas. Quatro meses depois, suas ilustrações foram para a página de quadrinhos, que acabara de ser reformulada.

Henfil no Estadão 
Tirinhas de Henfil no Estadão 

As tirinhas deixaram de ser publicadas em 30 de dezembro de 1986, durante o tempo em que ficou internado após uma cirurgia, e voltaram a ser publicadas em fevereiro do ano seguinte.

No Caderno2 de 6/1/1988 cartunistas dedicaram suas tirinhas ao Henfil. Foto: Acervo Estadão

Foram publicadas até 5 de janeiro de 1988, um dia após sua morte. Em 6 de janeiro, o espaço foi reservado às homenagens. Diversos cartunistas que publicavam no Estadão fizeram tiras dedicadas ao talentoso chargista.

Estadão - 6/01/1988

Estadão - 06/01/1988 

Carreira e ativismo

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Com uma extensa obra de charges - são mais de 30 personagens - e textos - para jornais, teatro, cinema e TV- Henrique de Souza Filho, o Henfil, estreou como cartunista na revista Alterosa em 1964. No ano seguinte, tornou-se colaborador do Diário de Minas, o primeiro de uma lista de grandes publicações onde atuou, como as revistas Visão, O Cruzeiro, Realidade, Visão, Isto é e Placar.

No Rio, teve trabalhos publicados no Jornal do Brasil, no O Pasquim e no O Globo. Em São Paulo, foi cartunista do Caderno 2, do Estadão.

Hemofílico, assim como seus irmãos, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, e o músico Francisco Mário Souza, Henfil também foi contaminado pelo vírus HIV durante uma transfusão de sangue. Seu drama, um reflexo da negligência governamental na área da Saúde e da falta de controle nos bancos de sangue durante a década de 80, ganhou a mídia e mobilizou a sociedade numa campanha de conscientização sobre a Aids.

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Henfil perdeu sua luta contra a doença em 1988. Após dois anos de constantes internações, faleceu em 4 de janeiro daquele ano.

Estadão - 13/01/1996

 

Graúna de luto

A capa do Caderno2 de 06/1/1988 foi uma homenagem póstuma ao cartunista, trouxe a Graúna em lágrimas e trecho do prefácio que Henfil escreveu para o livro Anjos de Barro (1986), do jornalista José Maria Mayrink. Confira:

Estadão - 06/01/1988

Estadão - 06/01/1988 Foto: Acervo Estadão

" (…) A morte para nós é uma figura de retórica, andamos com ela de mãos dadas, ela é real, palpável. Viver comandado pela dignidade, aliada à raiva e à eterna vigilância. Não relaxar, nunca relaxar. Tensão permanente. Ou fantasia à solta. Enfim, só aprendi que não vim ao mundo a passeio, mas a negócios ...

Vejo meu irmão Francisco Mário, um tremen-do músico, tocando um violão espantoso nos seus discos independentes. E o outro, o Betinho, que tanto tretou, tanto relou, que acabou exilado como elemento perigosíssimo para a ditadura militar brasileira. Realmente nosso sangue não coagula!

Mais que a hemofilia, vivi a experiência de preconceitos piores e mais dolorosos. Fui discriminado como ‘cucaracha’ (barata) nos Estados Unidos. Como árabe na França e como turco na Alemanha. Já tive de provar que não era um maldito ‘intelectual’ para militantes operários, provar para escritores que um cartunista pode ser escritor, provar que um escritor pode trabalhar na TV e, agora, tenho de provar que um homem de TV pode fazer cinema.

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Minha barba precocemente branca é um insulto para a sociedade dos sempre-jovens. Pinta! Pinta! Corri perigo de vida nestes 20 anos (...) E pro fim deixo o sufoco maior: cometi a heresia de namorar e casar com uma moça 20 anos mais nova que eu... Hemofilia? Bah!”

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