PUBLICIDADE

Karim Aïnouz celebra presença em Cannes como marco para o cinema brasileiro: ‘Saindo da UTI’

Na manhã desta quinta-feira, dia 11, foi anunciado que o diretor cearense competirá pela Palma de Ouro pela segunda vez consecutiva no festival francês - e pela primeira vez com um filme gravado no Brasil; ‘Estadão’ entrevistou realizador

PUBLICIDADE

Foto do author Flávio Pinto
Por Flávio Pinto
Atualização:

É um momento de alegria para o cinema brasileiro — e especialmente o cearense. Na manhã desta quinta, 11, o Festival de Cannes anunciou a lista de filmes selecionados para todas as mostras na edição de 2024 e revelou que Motel Destino, novo trabalho de Karim Aïnouz (Madame Satã e o Céu de Suely), competirá pela prestigiosa Palma de Ouro.

Na disputa contra gigantes da Nova Hollywood, como Francis Ford Coppola e Paul Schrader, além de realizadores badalados e na crista da onda, como Yorgos Lanthimos e Andrea Arnold, o cineasta se vê pela sexta vez na famosa Croisette francesa.

O diretor e roteirista brasileiro Karim Ainouz, que concorre à Palma de Ouro, do Festival de Cannes, com o filme 'Motel Destino'. Foto: Joel Saget / AFP

PUBLICIDADE

Não antes sem um período de inquietação, já que o longa protagonizado por Fábio Assunção foi contemplado com um edital da Ancine de 2017, mas só pôde ser filmado em 2023.

Apesar do intervalo, o diretor comemora a menção no festival, que marca sua primeira participação na competição oficial com um filme gravado inteiramente no Ceará — sua participação anterior, em 2023, se deu com Firebrand, um drama histórico inglês estrelado pela vencedora do Oscar Alicia Vikander e por Jude Law.

Em uma entrevista por videoconferência ao Estadão, Aïnouz falou sobre o atual momento do cinema brasileiro em uma vitrine internacional, destacou a importância de políticas públicas e polos de formação de artes no nordeste, entre outros assuntos.

Qual é a primeira coisa que um diretor pensa quando recebe a notícia de que seu filme foi selecionado para o Festival de Cannes?

“Será que é verdade?” [risos]. Por que, assim, ele [Thierry Frémaux, diretor e curador do festival] me escreveu. Geralmente, quem participa do festival sabe antecipadamente, mas há um embargo de imprensa que nos impede de compartilhar a informação. Então, passei a noite inteira quase sem dormir, questionando-me: “Será que isso é real?” Por isso, decidi ficar acordado até tarde para evitar pensar que era apenas um sonho. Mesmo sabendo o que vai acontecer, vem aquela dúvida incessante. Escrevi para ele semana passada: “Thierry, é verdade? O e-mail que você me escreveu antes era uma brincadeira?” [risos]. Ele respondeu: ‘Não, imagina, é verdade’. Então, acho que até o momento da revelação oficial, estava ali, ouvindo, tentando assimilar tudo.

Publicidade

Em 2023, você competiu pela Palma de Ouro com Firebrand, um filme falado em inglês estrelado por Alicia Vikander. Desta vez, no entanto, você compete pela primeira vez com um filme nacional. Qual é a principal diferença na sensação de participar do Cannes agora comparado ao ano anterior?

Dá uma sensação de que podemos competir com tudo. A percepção de que o que realmente importa são as histórias que contamos. Este é um filme 100% brasileiro, com personagens cearenses e filmado no Ceará. Além disso, por se tratar de um filme cearense, em uma região onde a maior parte da produção audiovisual se concentra no eixo Rio de Janeiro e São Paulo, mostra que temos um potencial cinematográfico muito vasto. Isso me enche de alegria. É um filme falado com sotaque cearense. Por isso, quando soube da seleção, fiquei emocionado, porque meu coração está realmente transbordando de alegria, não apenas pelo filme em si, mas porque ele existe neste momento.

Você sente uma responsabilidade maior por ser o único diretor com um filme latino-americano em competição este ano? O que você pensa sobre essa falta de diversidade latina na seleção de Cannes 2024?

Não acredito que esta seleção esteja carente de representatividade. Muitos filmes deste ano me emocionaram profundamente quando foram anunciados pelo Thierry Frémaux durante a coletiva. Ao observar a lista da mostra Certain Regard, por exemplo, percebe-se uma grande participação do Sul Global. Filmes da Arábia Saudita, Somália e de outros países do estão presentes. Portanto, acredito que também fazemos parte desse grupo. Embora ainda haja outros filmes a serem anunciados nas próximas semanas, a seleção ainda não está completa. Mas é motivo de celebração mesmo assim, não é? Olhando para esta seleção, vemos nomes como [Francis Ford] Coppola, [Paolo] Sorrentino, Andrea Arnold, que já são muito renomados. Embora fosse bom ter mais representação da América Latina, acredito que isso pode acontecer em futuras seleções. Ser o único representante latino-americano é uma grande responsabilidade, mas também é motivo de alegria.

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

Como você acredita que a menção na competição oficial de Cannes 2024 impactará na recepção de Motel Destino no mercado brasileiro?

Ajudará muito a dar a ele uma vida mais robusta, especialmente em relação ao seu lançamento no Brasil. Antes de mais nada, a visibilidade que você tem quando está no festival permite que seu projeto seja visto e que outras pessoas saibam sobre ele. Isso é ainda mais crucial considerando que não se trata de uma produção de estúdio, ao contrário de muitos outros filmes brasileiros que contam com grandes investimentos em publicidade e uma cadeia de distribuição maior. Felizmente, o festival de Cannes não é tão focado no mundo anglófono; é incrivelmente diversificado. Assim, ele nos coloca em um patamar de qualidade comparável aos grandes nomes de uma indústria que, em sua essência, é predominantemente anglófona.

Motel Destino surgiu de uma parceria entre você e o Laboratório de Roteiro do Porto Iracema das Artes, uma escola de formação técnica e criativa para alunos da rede pública de ensino em Fortaleza. Quais oportunidades você acredita que podem surgir para o cinema cearense após a participação em Cannes e para outros programas de formação em cinema?

Publicidade

Isso me faz lembrar muito do famoso lema do [ex-presidente dos Estados Unidos] Barack Obama, “yes we can” (“sim, nós podemos”), que também ressoa conosco. O que mais me emociona nesta seleção, hoje, é que Motel Destino não é apenas um filme meu. É um projeto co-escrito com Wislan Esmeraldo, também cearense, e uma equipe inteiramente composta por talentos do Ceará. Isso eleva a nossa autoestima a um patamar merecido, nos mostrando que podemos sonhar e tornar esses sonhos realidade. Espero que essa notícia consiga estimular e dar u a toda uma geração que anseia contar suas próprias histórias, especialmente vinda de um cenário periférico no universo audiovisual. Há 30 anos, quando comecei no cinema, era necessário sair do país para estudar. Espero que esse filme e sua seleção abram portas para mais produções que expressem a nossa realidade, que falem de nós e de um lugar que ainda é visto como “periférico” no cinema brasileiro.

Como você percebe o atual momento do cinema brasileiro em termos de exposição internacional, especialmente considerando nossa crescente participação em festivais como o de Berlim, Toronto e até mesmo Cannes?

Sinto que estamos com um tesão represado, sabe? O Brasil possui uma cinematografia incrivelmente rica e políticas audiovisuais que eram realmente notáveis. Pessoalmente, eu não estaria tendo essa conversa com você se não fossem as políticas de apoio ao audiovisual implementadas durante os governos Lula e Dilma. Motel Destino é um exemplo de um filme que surgiu a partir de projetos de políticas públicas, nascido em uma escola de artes no Ceará. Mas, assim como qualquer forma de expressão cultural, o cinema precisa de um mercado. Estamos experimentando esse retorno após quatro anos sob um governo fascista, representado por uma figura monstruosa que congelou verbas para a cultura. Motel Destino foi agraciado com um edital da Agência Nacional do Cinema (Ancine), em 2017, mas não conseguimos acessá-lo na época. O que está acontecendo agora é uma sensação de poder respirar novamente. Estamos começando a sair da UTI, entende? Pois eu realmente acredito que o Brasil estava numa UTI. Estamos começando a deixar para trás o suporte de oxigênio e a retomar a vida nas ruas.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.