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‘Flordelis, a pastora do Diabo’, livro que fecha a trilogia sobre mulheres assassinas, é lançado

Projeto do jornalista Ullisses Campbell sobre assassinas tem Suzane von Richthofen e Elize Matsunaga entre as biografadas

Foto do author Antonio Gonçalves Filho
Por Antonio Gonçalves Filho
Atualização:

Cantora gospel e deputada federal entre 2019 e 2021, a pastora carioca Flordelis dos Santos de Souza, conhecida como Flordelis, foi condenada em novembro passado a 50 anos de prisão pelo homicídio do marido, o também pastor Anderson do Carmo. Pouco antes de ser decretada a sentença, no dia 13, a Globoplay já tinha pronta uma série sobre o rumoroso crime, analisado agora no livro do jornalista paraense Ullisses Campbell, Flordelis, a Pastora do Diabo, que fecha com ele sua trilogia sobre mulheres assassinas (os best sellers Suzane: Assassina e Manipuladora e Elize Matsunaga: a Mulher Que Esquartejou o Marido, todos publicados pela editora paulistana Matrix).

O livro sobre Flordelis será lançado amanhã, 7, na Livraria Drummond do Conjunto Nacional. Em 304 páginas, Campbell faz mais do que simplesmente contar a história da polêmica figura que ficou conhecida por adotar crianças carentes no Rio de Janeiro e explorar sexualmente alguns de seus 50 filhos. Escancara o retrato do Brasil povoado de pastores bruxos, traficantes, criminosos, padres pedófilos e toda a sorte de proscritos.

Ela é perversa mesmo, uma pessoa má e sedutora, que se aproveitou dos filhos adotivos. Profecias e curas são quesitos fundamentais para pastores evangélicos

Ullisses Campbell

É uma biografia amparada em dados colhidos com cientistas sociais, jornalistas, psicoterapeutas, delegados e apoiada em conversas com procuradores e advogados. Com 25 anos de experiência no jornalismo investigativo, Campbell foi buscar na infância de Flordelis, em Jacarezinho, na zona norte do Rio, favela dominada por traficantes do Comando Vermelho, os primeiros sinais de sua atração pelo poder. Primeiro vem a história da mãe, Carmozina, “bruxa” que, em 1976, tinha tantos clientes que pediu a ajuda da filha Flordelis, então com 15 anos, para ser sua assistente em trabalhos espirituais.

Flordelis e seus 55 filhos adotivos, em registro compartilhado em uma rede social  Foto: Facebook/reprodução

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Com voz boa, ambiciosa, ela trocou os terreiros de candomblé pelos cultos da Assembleia de Deus, onde começou a cantar. Com a morte do marido, sua mãe Carmozina, segundo o biógrafo, “intensificou os serviços de cura e adivinhação oferecidos aos fiéis da Assembleia de Deus”, buscando nos templos evangélicos possíveis clientes. Mas não só. Muitos vizinhos e outras pessoas, atraídas pela fama da mãe de Flordelis, passaram a frequentar sua casa, ganhando conselhos e bendições em troca de comida ou donativos de pouco valor – a massa dos consulentes era constituída por gente pobre e desempregada.

Apesar do título de seu livro, Flordelis, a Pastora do Diabo, o autor Ullisses Campbell não acredita que ela seja uma bruxa de verdade ou uma satanista, mas uma charlatã que enganava as pessoas com feitiços inventados para ludibriar suas vítimas. “Ela mal sabe falar direito, enquanto os satanistas, de modo geral, são pessoas mais intelectualizadas”, observa. “Ela é perversa mesmo, uma pessoa má e sedutora, que se aproveitou dos filhos adotivos”, conclui Campbell.

Ela mal sabe falar direito, enquanto os satanistas, de modo geral, são pessoas mais intelectualizadas

Ullisses Campbell

No livro, ele descreve em várias passagens o assédio sexual de que foram vítimas alguns desses filhos que ela dizia ter arrancado das mãos de traficantes ou das ruas. Segundo o livro, eles eram dados a Flordelis por famílias pobres, dependentes químicos e moradores de rua. Por vezes adolescentes batiam à porta em busca de abrigo.

Santinho da ex-deputada federal Flordelis, condenada a mais de 50 anos de cadeia Foto: Editora Matrix

Ela, segundo Campbell, os acolhia, dava banho nos garotos e, se fossem atraentes, os convidava para sua cama. Um deles, Vitor, hoje com 43 anos e morando em Miami, descreve os frequentes abusos de Flordelis, que chegava a dar os colchões de seus protegidos para recém-chegados caso seu desempenho na cama fosse fraco.

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Com a entrada de Anderson na casa de Flordelis e a futura união do casal de evangélicos, as aventuras sexuais da dupla passaram a acontecer em motéis e em praias afastadas – com Anderson participando de relações com outros homens, inclusive, até um carro oficial da Vara da Infância e Juventude do Rio bater à porta e intimar Flordelis a provar que os filhos eram dela, ou iriam parar num abrigo.

Julgamento no Fórum de Niterói, do processo da ex-deputada Flordelis, acusada de assassinar o ex marido Anderson do Carmo Foto: PEDRO KIRILOS/ESTADÃO

Parte da história foi contada a Campbell pela própria mãe da pastora. “Desconfiava que a mãe mentia, como Flordelis, mas fui conferir nos jornais e confirmei”. Carmozina havia profetizado que a vida da filha acabaria em desgraça. E acabou mesmo. Anderson, morando na rua, cresceu e cultivou o hábito de leitura, boa oratória e liderança, segundo Campbell, o que ajudou Flordelis a alavancar sua carreira de pastora e cantora. Empenhado em transformar a companheira em estrela gospel, ele organizou várias participações da pastora em programas populares na TV, como o de Ana Maria Braga.

Filiada ao Partido Social Democrático (PSD) em 2018, ela foi eleita deputada federal e depois cassada. O resto da história é bastante conhecido – e acaba no presídio de Bangu. “Profecias e curas são quesitos fundamentais para pastores evangélicos”, diz Campell. A da mãe da “pastora do diabo”, no caso, foi certeira. conclui o biógrafo.

FLORDELIS, A PASTORA DO DIABO

ULLISSES CAMPBELL

MATRIX

304 PÁGINAS

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R$ 69

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