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Cultura, comportamento, noite e gente em São Paulo

‘O acerto é pensar a comunidade negra como potência, não só como tragédia’, diz Rael

Músico falou sobre a militância negra, sua participação no show do Coldplay e saúde mental

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Por Marcela Paes

Rael teve um grande ano em 2023. Além de apresentar com Maju Coutinho, o Música Preta Brasileira, no Fantástico, o músico tocou com o Coldplay em uma das apresentações da banda por aqui. O programa teve boa repercussão e, no show, Rael viu o público cantar em uníssono uma de suas músicas. Agora, ele se preparar para lançar um disco ainda este ano e, talvez, fazer uma segunda temporada do programa sobre música negra. Leia abaixo a entrevista:

O músico Rael Foto: WYSSBRAZIL

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No passado você apresentou o Música Preta, em conjunto com Maju, no Fantástico. Fomentar e divulgar a música de artistas negros é um dos seus propósitos?

É um propósito não só meu, mas da comunidade negra como um todo. Acho que é a primeira vez na televisão brasileira que se tem um programa voltado para essa temática, nesse horário. A gente acaba tendo a perspectiva dos artistas que construíram e pavimentaram essa história da música brasileira. Pessoas que têm uma bagagem, que passaram por muitas coisas, passaram pela ditadura. Passaram por todas essas coisas sendo artistas negros, fazendo música no Brasil.

Você descobriu alguma coisa que não sabia?

Descobri na verdade que é uma responsabilidade muito grande e que eu ficava muito ansioso, muito nervoso. Tinha que fingir naturalidade na frente do Gilberto Gil. Ficava com medo de errar ou de perguntar alguma coisa que não tenha a ver, sabe? Tenho um respeito enorme por essas pessoas, eu me sentia do lado da realeza da música preta brasileira.Mas acabei entregando, acabou dando tudo certo.

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Já vi você comentando que faz música para impulsionar a comunidade preta.

Acho que vem muito da minha ancestralidade, tem essa vontade de tentar popularizar isso. É difícil você ver preto no pop, por exemplo. A gente tenta popularizar isso de alguma maneira, fazendo a nossa música, falando sobre essas coisas. Mas é um desafio muito grande porque envolve muitas questões. Se o Vinícius de Morais fala de orixá tudo bem, se um preto fala de orixá a galera já fala ‘ah, isso é macumba’. É muito difícil abrir esse diálogo no Brasil e aprofundar essa pauta, mas sempre tentamos trazer pelo modo de sobrevivência da nossa cultura, que sempre foi muito negada no País. Agora estão começando a abrir mais portas. Por exemplo, depois de 50 anos de Fantástico só agora tivemos um programa voltado para essa temática, o Música Preta Brasileira.

Na sua opinião, qual o maior erro e o maior acerto da militância negra?

O erro é o extremismo. Existe um extremismo na comunidade negra. Eu fui casado com uma mestiça, por exemplo. E eu fui cobrado por isso, um monte de gente ficou falando ‘ai, se você tivesse no farol essa menina não ia estar com você’. Sabe essa coisa assim? Meu pai era branco de olho verde, eu cresci misturado. Tinha primo branco, era aquela coisa misturada no quintal, todo mundo crescia assim. Isso é o Brasil, né? Inclusive, eu acho que tem muito artista preto que precisa assumir as mulheres brancas que eles têm e viver a realidade do Brasil. O acerto é pensar a comunidade negra como potência, não só como tragédia, sabe? Pegar as referências de pessoas que tiveram êxito, conseguir cavar espaços para possibilidades. Temos uma comunidade negra muito inteligente e muito talentosa, que precisa ser percebida. Eu compreendo que muita gente passou por coisas pesadas, mas às vezes atacar a própria negritude não agrega, só divide mais a gente. As pessoas têm direito de ficar com quem elas quiserem. Até hoje eu tenho dificuldade de me relacionar e até de mostrar com quem eu estou, se é de outra cor, para não ser alvejado e para a pessoa não ser alvejada também.

Quais artistas influenciaram na formação da sua identidade?

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Ah, minha família. Meu pai era multi-instrumentista. Ele tocava bandolim e acordeão, o forte dele era forró. O meu primeiro instrumento, inclusive, foi zabumba, ele me levava pra tocar nas rodas de forró com os amigos. Aí veio Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga e, da minha mãe, que canta na igreja, veio Alcione, Clara Nunes, Agepê. O rap só veio depois. Quando eu tinha oito anos, comecei a dançar break. Meu apelido era faísca, o do meu irmão era fumaça. Pararam de nos levar para dançar, mas o que tocava ficou. Thaíde, Racionais… Depois eu comecei a fazer cover de Racionais MCs na escola, e aí foi um caminho sem volta.

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Esse lado musical dos seus pais foi algo que foi fundamental para você ter se tornado um artista?

Totalmente. Porque dentro do rap não tinha muito MC que cantava, e eu já trazia essa coisa da música popular de meu pai, além de melodias de música popular para dentro do rap, que antes não tinha. Eu lembro de ir cantar em algumas quebradas e um olhava pro outro, cutucava e falava, ‘isso aí não é rap não, esse neguinho com voz de mulher aí’. Eu tenho a voz aguda, e no rap estava todo mundo acostumado com Mano Brown. A coisa de tocar violão também, eu tocava violão na época que ninguém tocava dentro do rap, hoje em dia tem poesia acústica. Eu cantava na época que ninguém cantava, hoje todo mundo quer usar autotune para ter a voz mais fina. Hoje, artistas de outros gêneros me chamam pra cantar.

Em 2018 você foi diagnosticado com depressão. Como faz para se manter bem mentalmente?

Atividade física. Eu me tornei meio maratonista. Em 2001, tive tuberculose e perdi meio pulmão. O médico falou ‘olha, você vai ter dificuldade pra fazer atividade física e pra cantar’. Aí eu me tornei meio maratonista e ganhei o prêmio da música brasileira como melhor cantor. Tem uma voz interior que a gente precisa escutar. O trabalho com música é muito mental. Tem hora que desgasta e aí eu faço muita atividade física.

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Você tocou com o Coldplay em um dos shows da banda no Brasil. Como foi o convite?

Eles fizeram um jantar e convidaram alguns artistas. Eu só conheço algumas músicas do Coldplay, não é uma coisa que eu coloco na minha casa pra ouvir diariamente, mas resolvi ir. O Seu Jorge passou e me apresentou e falou para o Chris (Martin) ‘olha, o Rael também é um grande cantor e tal’... Aí o Chris veio e começamos a conversar. Ele perguntou o que poderíamos cantar juntos e eu propus alguma coisa do Jorge Ben Jor. Ele me disse que deveríamos cantar algo meu. Aí eu falei para ele me mandar mensagem para combinarmos e na hora em que eu estava indo embora eu pensei: ‘deveria já ter acertado agora, porque ele não vai me procurar’, mas ele me procurou.

E a experiência?

Foi uma experiência muito louca, confesso que na hora não assimilei porque estava com o fone e não ouvi o público cantando junto, eu só me ouvia. Só depois, no vídeo, que eu vi todo mundo cantando junto, aí eu me arrepiei. Foi uma experiência muito doida. O Mano Brown me ligou no outro dia e perguntou ‘e aí, como é que é o estádio inteiro cantando e tal?’ Eu falei, mano, ainda bem que eu não ouvi eles cantando, senão eu ia errar na hora (risos). O Chris Martin é uma pessoa bem legal, me surpreendeu bastante. Ele estava bem focado no show e queria flertar musicalmente com os artistas daqui. Fez um monte de coisa legal, levou morador de rua, levou a galera da USP lá também pra tocar. Eu achei que elevou o nível de artista gringo quando vem pra cá.

O próximo trabalho de Rael está sendo produzido pelo Laboratório Fantasma, gravadora, editora, produtora, estúdio, gestora de moda, marcas e licenciamentos, com foco na cultura Hip Hop e na valorização da diversidade, inclusão e pluralidade. A empresa também faz a gestão das carreiras de artistas como Drik Barbosa, Dona Jacira, Emicida e Fióti.

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