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Coluna semanal do historiador Leandro Karnal, com crônicas e textos sobre ética, religião, comportamento e atualidades

Opinião|Leandro Karnal indica obras novas e antigas para ler no verão

Estação do ano é a chance de ganhar mais conhecimento e a alegria de ser feliz consigo. Não perca a chance de (re)descobrir clássicos

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Atualização:

Mais horas de luz e perspectiva de férias para alguns. Intervalos de trabalho no fim do ano, em meio a festas e mais festas. Às horas mais abrasadoras, não convém estar agitando-se na rua. Chegou o momento de ler um pouco mais, com um chá gelado à mão.

Estudo muito teatro. É bom descobrir peças contemporâneas brasileiras bem-feitas. Assisti a Bata Antes de Entrar, de Paola Prestes, no teatro da Aliança Francesa. Agora, conheci a obra mais recente dela: Sábias Palavras de um Chihuahua (editora Reformatório). A linda capa foi criada pela autora. O conteúdo? A história de uma mulher, Melanie, entre o hospital e o condomínio. Tiradas de humor, frases para pensar e uma forte densidade de imagens sugeridas, que anunciam o texto para o palco e, quiçá, para o cinema. O livro é de ler e ver. Por exemplo, quando Melanie diz em off: “Nunca me importei com o fato de você ser velho. Mas confesso que pensei nisso quando te conheci. Uma noite, fomos jantar, e depois você me pediu uma carona. No dia seguinte, notei um fio de cabelo no banco do passageiro. Branco como gelo. Cabelo branco humano não é como o de um gato ou de um cachorro: é sinuoso, tem mais brilho... Deixei o fio de cabelo lá por uma semana, reluzindo feito prata sobre o veludo sintético. Toda vez que eu parava no sinal, olhava para aquele fio de cabelo e me perguntava: É isso mesmo que você quer? Quando você finalmente criou um pouco de juízo, vai se meter com um homem que tem direito à fila preferencial? Que tem pressão alta? Barriga? Eu tinha medo do seu corpo”. (p. 63-64).

Verão é período ideal para ler livros e ganhar conhecimento, segundo Leandro Karnal Foto: Filipe Araújo/Estadão

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O professor da PUC-SP Edin Sued Abumanssur lançou um pequeno livro chamado O Diabo (MyNews Explica! – Almedina Brasil) com uma análise sobre a ideia do demônio. “O diabo é mau. Mas como todo personagem que representa o mal, ele também é sedutor. Talvez o diabo seja o maior dos enigmas jamais produzidos pela cultura ocidental (...). O diabo não precisa existir para haver, já ensinava mestre Riobaldo em sua fórmula sertaneja de atualizar Santo Agostinho.” (p. 7). A leitura não é para teólogos. Interessa a quem deseje entender nosso imaginário sobre o erro e a liberdade.

Anne Carson é uma canadense que faz boa poesia e traduz grego para o inglês. Quando li Sobre Aquilo em Que Mais Penso (ed. 34), fiquei meio perdido quanto ao gênero. Eram ensaios, poesias, crônicas e narrativas com fluxo de consciência. Até agora não sei dizer, com precisão, em que setor da biblioteca o livro deve ser classificado, já que isso é parte da veia criativa dele. O capítulo 6, Toda Saída É uma Entrada, faz uma reflexão sobre o sono, com palavras capazes de tirar o nosso. Reconhecendo-se como uma pessoa que dorme mal, ela passa por Aristóteles, Hamlet, Homero e outros para avaliar o terço da vida no qual passamos em outro plano de consciência. Encare o desafio: Anne Carson vai inquietar suas certezas.

Já que eu estou no campo das mulheres inteligentes, que tal ler Arendt – Entre o Amor e o Mal: Uma Biografia (Ann Heberlein – Companhia das Letras). Como acontece com frequência, eu conheci a obra da intelectual bem antes da narrativa biográfica. Agora, seguindo passo a passo a jornada da pensadora, muita coisa fica explicada. A sueca Ann destaca a humanidade de Hannah Arendt e faz uma combinação elaborada entre pesquisa e narrativa.

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Maria Adelaide Amaral começou a escrever Luísa, em 1979. O quarto capítulo da obra se transformou em peça de teatro, em 1984: De Braços Abertos. Vendo o sucesso do trecho representado, a autora concluiu o romance em 1986. O livro foi relançado pela Instante. Luísa é construída pela memória de várias pessoas. Narrativa multifacetada e sutil, vai (in)definindo a face da protagonista, como indica Caio Fernando Abreu ao apresentar a obra. As colagens da capa revelam e ocultam o total daquela mulher. Como diz o trecho da memória, intitulado Sérgio: “Estávamos de tal modo cansados de mentir e dissimular para os outros e para nós, e tão tristemente condenados um ao outro, que nem sequer nos entregávamos aos costumeiros jogos de impiedade. Não havia mais jogos entre nós. Só o silêncio, terrível, depois do amor. E esse amor era feito de desespero”. (p. 98)

Em resumo, o verão é a chance de ganhar mais conhecimento. Indiquei obras novas e reedições de antigas. Não perca a chance de (re)descobrir clássicos também. Que tal ler o conto Adão e Eva, de Machado de Assis? Do mesmo autor, você vai gostar de To Be or Not To Be, do Bruxo do Cosme Velho. Claro, isso se você já leu O Alienista, indispensável para pensar nosso amado Brasil de hoje.

Quando finalmente, depois de ter saído para conversar com amigos, em alegrias regadas a cerveja e caipirinha, alguém sugerir uma nova baladinha, você recusar porque precisa ler, terá chegado ao paraíso da solitude satisfeita (que se difere da melancólica solidão) e à alegria indescritível de ser feliz consigo e com autores geniais. Leia! Leia! Leia! Tenho a esperança de um bom verão!

Opinião por Leandro Karnal

É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, colunista do Estadão desde 2016 e autor de 'A Coragem da Esperança', entre outros

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