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Coluna semanal do historiador Leandro Karnal, com crônicas e textos sobre ética, religião, comportamento e atualidades

Opinião|Leandro Karnal: O sábio aprendeu errando? Tenha sempre esperança e desconfie de conselhos

Não esperar reciprocidade liberta a gente de muita mágoa

Foto do author Leandro Karnal

Penso muito, sempre. Cada experiência positiva ou negativa produz uma pequena ou grande conclusão em mim. A vida é didática, pois erros (em particular os meus) vão moldando minha consciência. Não sei se é assim com você, querida leitora e estimado leitor. Quando vejo uma pessoa sábia, experiente e com fluxo de bons conselhos, sempre imagino: aprendeu errando. Quando dou um conselho sobre um caminho complexo a um motorista (e ele me questiona como tenho certeza da direção), respondo com a verdade: “Já entrei errado, porém aprendi”.

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Aqui escrevo quatro conclusões que nasceram dos meus erros. Vamos lá! A primeira delas: não espere reciprocidade das suas ações. Se telefonar para alguém no aniversário da pessoa ou der um presente especial, faça porque você deseja. Se receber pessoas na sua casa, jamais aguarde um convite do mesmo tipo. Não busque ou cobre reciprocidade, pois isso causa muita dor e ressentimento. Se uma pessoa presenteada e lembrada em um aniversário responder com completo silêncio no seu, aceite como parte da vida. Se for importante para você, decida não ligar no ano seguinte. Porém, ouça a advertência nascida dos meus erros: fazer, esperando gesto similar, leva à mágoa certa. Faça o que desejar, dentro da lei e da ética, mas deixe a mesma liberdade para a outra pessoa.

Se você tem mais de 15 anos de vida, já acumulou desafetos e até inimigos. Não é possível existir sem despertar raivas nos outros. Elas podem ser justas ou injustas, serão negativas em algumas pessoas. Aqui o segundo conselho de outono é duplo: aceite que alguns não gostarão de você. Tudo bem! Desdobramento deste: quem o odeia tem um motivo concreto ou abstrato e, talvez, a crítica seja verdadeira. Nossos inimigos possuem a clareza do menino que, sem afeto às convenções sociais, denuncia que o rei está nu. Quem nos ama açucara muito o olhar sobre nós. Seus adversários podem ter intuições muito ricas. Sei que é estranho, mas tente ver o motivo pelo qual você é considerado uma pessoa desagradável por X ou Y.

'Outono no Sena em Argenteuil', de Claude Monet Foto: Reprodução/Claude Monet

Terceira questão na qual errei muito – uma decisão importante e positiva deve ser comemorada. Vai parar de fumar? Começará a beber mais água? Reduzirá o consumo de álcool? Fará caminhadas? Vai dispor-se a leituras metódicas e diárias? Parabéns! A decisão foi boa; o primeiro dia de implementá-la será muito auspicioso. O entusiasmo se esgota logo. A única mudança efetiva vem da repetição, que nasce da disciplina. Não farei quando “tiver vontade” ou quando estiver “no clima”. Realizarei sempre, mesmo quando a decisão desbotar-se. Disciplina é a chave de tudo. A decisão é um espasmo de vida; a disciplina é a vida nova em si. Se você sente que não poderá manter a boa decisão, é melhor nem começar, porque o fracasso vai atacar sua autoestima. Apesar disso (claro!), você pode tudo que for importante e plausível. Assinale o primeiro dia, comemore o centésimo, passe a acreditar de verdade a partir do milésimo em que repetir o hábito decidido.

O último conselho é o mais subjetivo. Quase todos os adultos que conheço calçam entre 35 e 45, na numeração brasileira. Há exceções para baixo e para cima. Fiquemos com a média. No momento da sua vida adulta em que você atingir a numeração do seu sapato, 40 por exemplo, terá uma boa mostra de quase 50% da jornada cumprida. Vivemos, no Brasil, em média, 77 anos (as mulheres, um pouco mais). Assim, simbolicamente, a idade de 37, 38 ou 40 é um bom marco. Hora de avaliar: sem mudanças drásticas de rumo, o que você consegue com a idade do seu sapato (primeira metade da vida, com mais energia) será aproximadamente seu limite. Para conseguir mais, caso seja o seu desejo, precisará de ações distintas. Pode ser um novo curso superior, uma nova língua, um novo negócio ou um novo círculo de amigos. Se não mudar (e não é necessário que o faça), você irá repetir o limite atingido com a idade do sapato. Lembre-se: a maturidade causa sempre certo declínio de energia.

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Acho que preciso ser mais claro. Comendo do jeito que come e fazendo a quantidade de atividade física que você faz até chegar à idade do seu sapato, você atingiu um corpo específico. Se não mudar, seu físico ficará assim e vai decair, já que o metabolismo diminui. Para produzir uma mudança real, você precisará quebrar uma tradição sua à mesa, complementada com exercícios e treinos. Isso vale para dinheiro e conhecimento: o que você sabe ou tem não dará um salto expressivo se forem mantidas as atuais práticas. Em resumo, sem mudança estrutural, seus sapatos indicam um limite forte.

Não esperar reciprocidade liberta a gente de muita mágoa. Ouvir ideias dos nossos desafetos é um exercício duro de autoconhecimento. A disciplina é a única coisa que realmente muda a vida. Por fim, a idade do seu sapato é um termômetro, nunca um destino ou uma barreira. Tenha sempre esperança e desconfie de conselhos...

Opinião por Leandro Karnal

É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, colunista do Estadão desde 2016 e autor de 'A Coragem da Esperança', entre outros

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