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Coluna semanal do historiador Leandro Karnal, com crônicas e textos sobre ética, religião, comportamento e atualidades

Opinião|Leandro Karnal: Quando se acorda do coma de 20 anos num mundo totalmente diferente

Tudo tem seu tempo e sua hora e, mesmo a esperança, num dia, deve dar lugar a outras formas

Foto do author Leandro Karnal

Após um desmaio súbito, em 2003, Dona Antônia foi internada às pressas. Tinha 70 anos. O quadro parecia grave. Para os quatro filhos assustados, o médico informou que ela tinha entrado em coma. Teve um derrame, e o desenlace era previsto para pouco tempo. Lágrimas intensas na sala de espera... Dona Antônia era muito amada por amigos e parentes.

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O corpo humano é complexo, a medicina sabe algumas coisas e desconhece muitas, as orações foram fortes, o plano de saúde ainda mais robusto, e os dias vieram sem o passamento. O quadro comatoso se prolongou. Incríveis 20 verões iluminaram o corpo magro da imóvel senhora no leito. Um milagre!

Tão inexplicável foi a sobrevivência quanto o despertar surpreendente. Dois dias após completar 90 anos, a matriarca abriu os olhos e pediu água. Gritos no hospital! Família convocada. Como um rastilho de pólvora incendiada, o quarto foi enchendo-se de júbilo e de lágrimas.

Eram duas décadas de saudade! Passado o susto, lá estava dona Antônia, reinstalada na sala do Jardim América, em São Paulo. Alegria! Festas! Beijos e choro. Ninguém sabia nem queria a explicação. Bastava vovó estar consciente. Havia netos a conhecer, genros e noras novos, anos de notícias familiares. Os filhos estavam extasiados; os netos acharam a notícia interessante; os genros e noras classificaram como bizarra a história.

Pelo fato de ela ter “dormido” por duas décadas, não restara mais nenhuma amiga da sua geração. Também estava extinta a linhagem de irmãos. Ela ressuscitara solitária. Só havia dados novos à frente, nada para trás.

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Os primeiros dias foram de euforia. Velhas fotografias, brindes, narrativas pungentes e muitas, muitas lágrimas. Não havia intimidade ou histórias com os netos. Nenhum convivera com ela. Era uma estranha para os nascidos no século 21. Os filhos de dona Antônia tinham viva saudade da mãe. Conversaram muito e, depois dos diálogos, começaram a retornar a seus mundos. Todos tinham uma vida.

A velha casa dela estava ocupada pela primogênita, Dulce. Ela era a mais entusiasmada, mas reconhecia que não tinha como atender integralmente a veneranda figura ressurgida. Um a um, nas semanas seguintes, os filhos deram-se conta de que ninguém possuía estrutura bastante para o acolhimento permanente. Ela voltara, mas era uma nonagenária que precisaria de remédios e de cuidados. Havia sequelas.

A novidade tornou-se um fardo. Todos tinham perdido o hábito do convívio. Cada filho tinha seguido com a vida após uma espécie de luto com a mãe viva dos primeiros anos. Poucos a visitavam no hospital. Todos tinham filhos. Dulce já contava com dois netos. Dona Antônia era amada em coma, mas incomodava consciente. Como no livro Incidente em Antares, de Erico Verissimo, a volta dela pegara-os desprevenidos. Era um cadáver que andava, uma nova Quitéria Campolargo emergida das páginas do autor gaúcho.

Sensível, a velha senhora percebeu o clima ao redor. Sorriam quando ela entrava, ofereciam cadeira, traziam chás. Era como uma visita querida, que todos amavam, mas que quebrava o ritmo e a intimidade da casa que, num dia, fora dela. Irônica, ela se lembrou de ter ensinado aos filhos que os hóspedes “se assemelhavam aos peixes; depois de três dias, fediam de forma insuportável”. Viva, rediviva, dona Antônia estragava o olfato das conveniências.

Pessoas utilizando celulares Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Os murmúrios começaram. Os jovens reclamavam. Vovó não tinha celular, não era fã de Taylor Swift, não comia sushi e não conhecia nenhuma série. Era impossível conversar com ela! Os mais velhos repreendiam os infantes e falavam de genealogia: “Vocês não estariam vivos se ela não tivesse existido”. O mais cínico dos netos respondeu: “Ela existiu e, agora, poderia desexistir, né?” O neologismo ácido, “desexistir”, foi recebido com repreensões, porém não saiu da cabeça deles. Aquele velho tronco, germinado de novo, atrapalhava os brotos e flores exuberantes.

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O que fazer? Alguém citou o filme Parente É Serpente, mas foi apupado. Assassinada? Você está louco? Bem, não se pode matar alguém que, no fundo, tinha estado morta. E começava a hermenêutica jurídica.

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Dona Antônia sentia-se solitária na própria casa. Sua chegada interrompia as conversas. Os netos fugiam. Pensou em Eclesiastes 3: tudo teria seu tempo e sua hora... Há um tempo de nascer e um tempo de morrer. Ela quebrara a ordem e renascera depois de morrer. Sua existência violentava a ordem das coisas. Ela deveria ter falecido há tempo. A ciência a manteve, o acaso a ressuscitou, o tempo a tinha sepultado por completo. Camadas de memórias haviam sido submersas. Ela não deveria estar ali.

Dona Antônia ficou sem esperança. Resignada, pediu a um neto que chamasse aquele negócio... um tal de Uber. Entrou no táxi, voltou ao hospital. Foi recebida com festa, fora personagem silenciosa ali por duas décadas. Pediu para ver a cama onde estivera. Quis ficar sozinha e deitou-se lá, adormecendo profundamente e tranquila, morrendo uma segunda vez. Somos mortais. Tudo tem seu tempo e sua hora e, mesmo a esperança, num dia, deve dar lugar a outras formas. Ressurreição sim, desde que o ressuscitado suba logo ao céu, como fez Jesus.

Opinião por Leandro Karnal

É historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, colunista do Estadão desde 2016 e autor de 'A Coragem da Esperança', entre outros

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