‘Não é a Israel que Meus Pais Prometeram’, HQ final do cult e cético Harvey Pekar, chega ao Brasil

Trabalho póstumo do autor de ‘American Splendor’, que foi interpretado por Paul Giamatti em filme, reflete sobre o que é ser judeu e sobre Israel a partir de perspectiva masculina judaico-americana

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Por Gabriel Zorzetto
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Harvey Pekar (1939-2010) é um ícone dos quadrinhos. Sua revolucionária série autobiográfica de graphic novels, American Splendor, fruto da parceria com Robert Crumb, foi publicada entre 1976 e 2008. A coleção que explorava temas cotidianos da vida de Pekar em Cleveland (EUA), onde ele nasceu e viveu, serviu de base para o filme Anti-Herói Americano (2003), indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, com Paul Giamatti no papel de Pekar.

Mesmo 14 anos após sua morte, a obra do cartunista continua relevante e atual. Não é a Israel que Meus Pais Prometeram, trabalho derradeiro do autor, coproduzido com o ilustrador JT Waldman e publicado de forma póstuma em 2012, está ganhando uma edição inédita no Brasil pela editora Veneta, com lançamento em 22 de abril.

“Me diverti muito trabalhando com Harvey. Sempre fui fascinado por seu senso de identidade. Ele simplesmente sabia quem ele era com pura convicção e refletiu essa confiança para mim. Nos conhecemos em 2005 e começamos a trabalhar juntos no que se tornaria Não é a Israel que Meus Pais Prometeram em 2008 até sua morte em julho de 2010. Eu não sabia da gravidade de seu declínio de saúde enquanto trabalhava com ele. Ele sempre quis apenas manter as coisas andando”, conta JT Waldman, que também é personagem da HQ, ao Estadão.

O cartunista Harvey Pekar em ilustração da HQ 'Não é a Israel que meus Pais Prometeram' Foto: Harvey Pekar/JT Waldman - Divulgação

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Em tempos marcados pelo conflito entre Israel e Hamas, que ganha novos capítulos a cada dia, o livro de Pekar não poderia ser mais apropriado. Nele, o autor analisa o que significa ser judeu e o que Israel representa para os judeus. Seus pais eram sionistas fervorosos e ele cresceu como um firme defensor do Estado de Israel, mas mudou de opinião com o tempo.

Por meio da narrativa de 182 páginas, Pekar relembra a infância e exibe um vasto conhecimento em seu habitual estilo cético e rabugento. Ao longo de um único dia, ele conduz Waldman por Cleveland enquanto o presenteia com uma história abrangente sobre os judeus e a Terra Santa desde os tempos bíblicos até o presente, amparado por desenhos que combinam elementos de mitologia e fantasia.

“É uma perspectiva masculina judaico-americana. Se você quiser uma perspectiva diferente, experimente Palestina (de Joe Sacco, 1993), ou faça com que um adolescente israelense leia Good Girls Go To Hell (de Tohar Sherman-Friedman, 2023). Harvey sempre disse que os quadrinhos podem ser usados para explicar até as coisas mais complexas, e acho que ele ainda está certo. Uma coisa que trabalhar neste livro reafirmou para mim é que a violência e a esperança estão incorporadas nesta terra e já estão há muito tempo. Deveríamos fazer uma promessa às crianças que tentam sobreviver em Israel e na Palestina de nos esforçarmos mais por algo diferente”, analisa o autor.

O livro ainda inclui um epílogo escrito por Joyce Brabner, viúva de Pekar, que relembra a morte do quadrinista. “Enterramos Harvey ao lado do Eliot Ness [agente do FBI que capturou Al Capone] e aí fizemos um piquenique. E já se falava ali em erguer algum tipo de estátua para o Harvey. Mas não pode ser pela fama dele, e sim para celebrar o trabalho que ele realizou: quadrinhos sobre a vida real”, conta a artista, que depois conseguiria levantar fundos para erguer um monumento em homenagem ao ex-marido na biblioteca pública de Cleveland Heights.

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Capa de 'Não é a Israel que meus Pais Prometeram' Foto: Editora Veneta / Reprodução

Não é a Israel que Meus Pais Prometeram

  • Autores: Harvey Pekar e JT Waldman
  • Tradução: Cris Siqueira
  • Editora: Veneta (182 páginas; R$ 49,90)
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