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Opinião|Aruanda 2023 (1): Uma bela abertura com filme clássico e o Clube da Esquina

Foto do author Luiz Zanin Oricchio
 

JOÃO PESSOA - Virando a chave, já deixei São Miguel do Gostoso e estou em João Pessoa, capital da Paraíba, agora para mais um Fest Aruanda. Aliás, é a 18ª edição de um festival que, assim, chega à maioridade. 

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A abertura foi na sala nobre do conjunto Cinépolis, no Manaíra Shopping, tela enorme e tecnicamente perfeita que o festival tem utilizado. A cerimônia, como todas, foi demorada, porque tiveram de falar autoridades (até o governador da Paraíba, João Azevêdo, esteve lá) e vários patrocinadores do evento. 

Mas houve também a bela homenagem a uma dupla de ator e atriz naturais que, faz 60 anos, participaram do clássico documental Aruanda, de Linduarte Noronha, obra que se tornou referência na historiografia do cinema brasileiro. Junto com outro curta, Arraial do Cabo, de Paulo César Saraceni, Aruanda forneceu bases estéticas do que seria um cinema autenticamente nacional, como se preconizava naquele início da década de 1960. Glauber Rocha, em pessoa, então um jovem crítico e diretor de apenas dois curtas-metragens experimentais, admitiu esse caráter precursor dos filmes de Linduarte e Saraceni. 

Antonia Carneiro dos Santos, a Neusa, e Erico Paulino Carneiro, o Eric, receberam o Troféu Aruanda por sua participação no filme que dá nome ao festival, e foi exibido após as homenagens. Eram, 60 anos atrás, duas crianças daquela comunidade quilombola, que vivia da fabricação de potes de barro. Ela e ele, agora idosos, se emocionaram com o reconhecimento, e nós nos emocionamos com eles. E também com o tema musical de Aruanda, a cantiga do folclore "Ó mana deixa eu ir, ó mana deixa eu vou só, ó mana deixa eu ir, para o sertão do Caicó", entoada pela cantora Nathalia Bellar, acompanhada apenas por uma violoncelista. 

Por coincidência, essa linda cantiga chegou a ser gravada na voz inimitável de Milton Nascimento. E Milton tem tudo a ver com o que se seguiu, a exibição do documentário Nada será como antes - a música do Clube da Esquina, de Ana Rieper. O filme propõe traçar o perfil de um coletivo de músicos que acabou revolucionando a música brasileira no começo dos anos 1970 com o álbum duplo Clube da Esquina, assinado por dois deles, Milton Nascimento e Lô Borges. 

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Mas o fato é que esse trabalho era bastante coletivo, através de uma base de amizade sólida de então rapazes muito jovens, que, além de Milton e Lô, se tornaram muito conhecidos do público como Toninho Horta, Fernando Brant, Flávio Venturini, Nivaldo Ornellas, Wagner Tiso, Márcio Borges, Robertinho Silva e outros. 

Fazer um perfil coletivo é muito complicado, mas é um desafio enriquecedor. E que não se furta de esboçar o conjunto de influências que iria redundar nesse disco e em carreiras que depois tomaram outros rumos mas que marcaram para sempre a música brasileira. Esses meninos ouviam bossa nova, mas também jazz, os clássicos e, por fim, os Beatles, que fizeram a cabeça de muitos deles. Misturado a esse coquetel sonoro vinha algo meio místico como uma certa religiosidade mineira e mesmo uma superposição rítmica talvez inspirada nas cadeias de montanhas de Minas Gerais, uma das quais circunda a capital, Belo Horizonte, onde viviam aqueles meninos cheios de talento. 

Além do mais, para sorte do filme, boa parte deles é muito articulada, como ocorre com os irmãos Borges, Lô em particular. Com muito humor e inteligência, evocam o passado para entender sua própria formação e identidade. Além disso, o filme tem também muita música, tocada "ao vivo" durante as gravações. Produz no espectador uma sensação de euforia, algo como a alegria da juventude que pode ter ficado no passado, mas se renova a cada vez que se ouve essa música. O filme foi muito aplaudido no final. 

Abaixo, os longas da competição principal, que começa hoje à noite: 

 

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LONGAS DA MOSTRA COMPETITIVA NACIONAL

 

  • "Levante", de Lillah Halla (Ficção). São Paulo/SP (2023).

 

  • "Ana", de Marcus Faustini (Ficção). Rio de Janeiro/RJ (2023).

 

  • "Othelo, o Grande", de Lucas H. Rossi dos Santos (Documentário). Rio de Janeiro/RJ (2023).

 

  • "Saudosa Maloca", de Pedro Serrano (Ficção). São Paulo/SP (2023).

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  • "Peréio, Eu Te Odeio", de Tasso Dourado e Allan Sieber (Documentário). Rio de Janeiro/RJ e São Paulo/SP (2023).

 

  • "Citroloxix", de Julia Zakia (Ficção). São Paulo/SP (2023)

 

Opinião por Luiz Zanin Oricchio

É jornalista, psicanalista e crítico de cinema

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