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Opinião|Taiguara - Onde Andará Teu Sabiá?

Foto do author Luiz Zanin Oricchio
 Foto: Estadão

Brega, romântico, político? Talvez tudo ao mesmo tempo e concentrado no mesmo artista. Falamos de Taiguara Chalar da Silva (1945-1996), hoje relativamente esquecido e que ressurge no documentário Taiguara - Onde Andará teu Sabiá, do crítico Carlos Alberto Mattos. O filme - que o diretor, modestamente, chama de videomontagem - está disponível, de forma gratuita, na plataforma Vimeo (link no final deste texto).

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Montado através de pesquisa na internet, o documentário foca as diversas fases da carreira do artista. E o faz através de entrevistas concedidas ao longo da vida (curta, de apenas 50 anos). Boa parte desse material vem de uma entrevista ao jornalista paranaense Aramis Millarch em 1984. Mas há também cenas das muitas apresentações em shows e festivais, e também dos filmes de que participou, como Crônica da Cidade Amada. 

Não se buscam especialistas para interpretar ou contextualizar a obra. De certa forma, ela, a obra, fala (ou canta) por si. Os breves comentários off são feitos através de cartelas, que pontuam a linha do tempo de uma vida. Além do mais, o próprio Taiguara se encarrega de comentar a própria obra, e o faz longamente. Aliás, ele, em companhia de Gonzaguinha, acabou com fama de falastrão - de falar mais do que de cantar em seus show. Podemos vê-lo interagir com a plateia e prometer aos fãs falar menos e cantar mais. 

Mas o Taiguara que vemos no filme é mesmo um verbalizador incansável e vocacional. Tem a febre (e o dom) da palavra e mostra-se uma figura rara de artista com plena consciência do seu papel histórico. Nascido no Uruguai, criado em Porto Alegre, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde viveu entre Santa Tereza e a Lapa. O destino o colocou no desvão histórico da ditadura militar brasileira, que ele, como artista, combateu quanto pôde. Surgiu para a cena artística em São Paulo e daí para os festivais e espetáculos foi um pulo. 

Dono de sucessos como Helena, Helena, Helena, Hoje e O Universo do Teu Corpo, Taiguara foi um sucesso popular, mas também um dos artistas mais perseguidos da ditadura. Ele próprio diz que teve mais de 60 canções vetadas pela censura dos anos de chumbo. Sem espaço no Brasil, mudou-se para o exterior. Perambulou por vários países da Europa e da África. Anos depois, participou ativamente da campanha pelas Diretas-Já, a pá de cal na ditadura. Esteve nos palanques das maiores manifestações pela volta da democracia no país.  

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Vendo-se (e ouvindo-se) o documentário aprende-se muita coisa. Por exemplo, o instrumentista sofisticado e a carga de emoção que punha em suas obras. Segundo, mesmo quem não o tinha como um ídolo em seu tempo, sabe de cor suas canções mais populares. Basta que ele comece a interpretar uma delas para que a memória assinale sua marca indelével. Taiguara fazia parte do imaginário do seu tempo e marcou a paisagem cultural daquela época difícil com seu talento, apelo popular e posições políticas firmes. 

Neste momento, em que acabamos de atravessar mais um transe político, vale muito a pena relembrá-lo. 

https://vimeo.com/726331864

  

 

Opinião por Luiz Zanin Oricchio

É jornalista, psicanalista e crítico de cinema

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