O desencanto de Günter Grass em "A Ratazana"

Lançado pela Record, com tradução de Lya Luft, romance do Nobel alemão escrito em 1986 reflete sobre o homem a partir do comportamento dos ratos

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Por Agencia Estado
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Na juventude, o alemão Günter Grass, prêmio Nobel de Literatura em 1999, estudou desenho e escultura. Dessa formação, provavelmente, se origina parte importante do senso de equilíbrio e de profundidade que norteiam seus relatos. Essas qualidades estão presentes também em A Ratazana (Record, 420 págs., R$ 42), com tradução de Lya Luft, romance em que ele mescla sua habitual imaginação barroca e dada a rompantes cômicos com um certo pessimismo e alguma filosofia. Para refletir sobre os homens, dessa vez Günter Grass foi buscar um contraste nos ratos. Quantas vezes nos comportamos como ratos, mesmo continuando a ser humanos? O que existe em nós do rato, esse repulsivo e desprezível animalzinho que circula pelas sarjetas e dormita no lixo - em nós, orgulhosos sujeitos pensantes? Grass parte dessas perguntas, que nós fazemos nas piores horas, para avançar ainda mais: ele escreveu A Ratazana empenhado em pensar aqueles aspectos, insuspeitos, em que os ratos podem ser, de fato, superiores à espécie humana. O rato costuma ser imediatamente associado à peste negra e, em conseqüência, à morte. É esfomeado, multiplica-se com incrível rapidez e tem hábitos noturnos e misteriosos. No célebre estudo O Homem dos Ratos, Freud mostrou como ele guarda conotações sujas (anais) e violentas (fálicas), que ajudam a compor uma imagem repulsiva; mas que também ligam seu nome à abundância e à prosperidade. Nas lendas cotidianas, o rato é visto como um ladrão incorrigível, que só pode ser contido com a degola nas ratoeiras; no entanto, muitas crianças gostam de criar doces ratinhos brancos e os enchem de mimos. Um animal, portanto, que guarda uma imagem cheia de feridas e de contradições. De feridas, Grass entende muito bem. Hoje beirando os 75 anos, ele sobreviveu a Adolf Hitler e isso não se apaga. Suas três primeiras grandes narrativas, entre as quais se destaca O Tambor, têm como tema a vida dos alemães em Danzig, cidade em que ele mesmo nasceu e onde passou a infância, mas que hoje não pertence mais à Alemanha, fica na Polônia e é conhecida como Gdansk. É com males não curados e forças invisíveis ou inexistentes que ele tem o hábito de trabalhar. Com esses mundos paralelos que, sobrevivendo pelos cantos, vêm desmentir o esplendor das verdades oficiais. Pelos cantos, como os ratos. Escritor engajado, Grass não faz, porém, uma literatura naturalista, embora a realidade seja um elemento crucial em sua escrita; não a pega, contudo, pelo que guarda de superficial e de nítido, mas sim pelo que tem de cômico, de grotesco, de inconcebível e absurdo. Não é por outro motivo que seu mais importante romance, O Tambor, é considerado pela crítica uma espécie de livro fundador da moderna literatura alemã, narrativa que veio retomar um laço com a vida, depois dos tempos perversos e corrosivos do nazismo. Oskar, o protagonista de O Tambor, é um menino que se recusa a crescer - e pára efetivamente de crescer. Passa a se comunicar com o mundo, unicamente, através de seu tambor de lata e é armado com ele que presencia a subida ao poder do nacional-socialismo. A literatura de Grass é uma luta contínua contra a covardia - representada, no caso, pela recusa de Oskar em se tornar adulto e responsável. Uma luta para se defrontar com a complexidade da realidade, que não cabe numa fotografia três por quatro, ou num cartão de visita. O engajamento de Grass é um aspecto fundador de sua obra: entre 1969 e 74, ele chegou a trabalhar como ghost writer do líder social-democrata Willy Brandt e depois disso, mesmo se afastando dos laços diretos com o poder, conservou o espírito de crítico duro do mundo capitalista, e sua fé, no hoje considerado um tanto fora de moda, engajamento. A Ratazana, romance de 1986, é desencantado e pessimista - embora Grass se declare um cético, sem esperança, na linha de Albert Camus, e não um pessimista. Se o homem pode vir a ser apenas um vulto na memória dos ratos, como sustentar a arrogância e o narcisismo com os quais, ainda hoje, nos concebemos em pleno vértice da criação? A história de A Ratazana se passa numa época em que a raça humana já não existe mais, em que o planeta foi ocupado pelos ratos - justamente por esses bichinhos que tanta repugnância despertam em nós. Nada somos - somos apenas seres sonhados por ratos! Pode haver destino pior? O romance de Grass mistura muitas histórias, e entre os ratos aparecem até personagens clássicos do próprio escritor, como Oskar Matzerath, de O Tambor; agora velho, ele se tornou um produtor de vídeos. Há um grupo que tenta salvar uma floresta da destruição - luta moderna, até pelo que guarda de inglório. Há os preparativos para uma festa de 106 anos, com tudo o que guarda de monótono. Pelas páginas de A Ratazana circulam, ainda, célebres criaturas de fábulas, como o flautista de Hamelin, entre personagens dos irmãos Grimm. Em sua cozinha, o caldo da cultura alemã ora ferve, ora azeda. Grass tem uma relação ambígua com a Alemanha e já foi, mais de uma vez, acusado de traí-la. Ele se declarou, desde o início, um inimigo da reunificação que, a seu ver - e parece que os fatos o amparam -, só poderia ser feita lentamente. Grass tem o gosto de deslocar os pontos de vista tradicionais. Já em O Tambor, ele deixou de lado a perspectiva dos heróis para adotar o olhar de um menino de 3 anos. Ao retorcer os pontos de vista, é a história e os valores de toda uma cultura que ele questiona, atitude que, muitas vezes, pode parecer não só intolerável, mas também repulsiva. Como os ratos, mais uma vez. Tal relação com a história se calca, em parte, em sua história pessoal. Aos 14 anos, contra sua vontade, Grass foi forçado a entrar para a juventude hitlerista. No Exército, viu seu batalhão ser dizimado durante um ataque militar. Foi ferido e depois capturado pelas forças americanas, que dele fizeram prisioneiro de guerra. Só depois de atravessar a esse inferno pessoal, começou a estudar desenho e escultura e, por fim, pôde dedicar-se à literatura. O que Grass enfrenta são os aspectos irracionais de nossa civilização, que parecem cada vez mais potentes e fora de controle; mas também os modelos "racionais" que, rígidos e insuficientes, deles não podem dar conta. Ele é discípulo declarado da tradição picaresca, que vem de Cervantes e, antes dele, dos árabes. Declara-se, ainda, inimigo das ilusões totalitárias e das utopias, de direita ou de esquerda, que cegam o homem e corrompem sua lucidez. Exibe sua fúria para todos os lados, o que gera rancor e incompreensão. O pessimismo de Grass em A Ratazana, livro escrito nos anos 80, é premonitório. Ele acredita que a queda do Muro de Berlim tornou o capitalismo ainda mais selvagem. A vida humana parece cada vez mais fora de controle, mais difícil e hostil, e em contraste com ela, de fato, a rotina dos ratos em suas sarjetas e subterrâneos, norteada apenas pelo relógio do instinto, toma uma aparência mansa e consoladora. Duas décadas depois, os vaticínios de Günter Grass só se assemelham mais e mais com a realidade, paralelo que, contra aqueles que acreditam numa arte descolada do mundo, vem apontar para a vitalidade da literatura.

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