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Pintor obcecado por d. Pedro I e Bozo expõe contra-história visual da Independência do Brasil

Mostra 'Jaula' traz ícones da Primeira República reinterpretados

Por Matheus Lopes Quirino
Atualização:

Como figura central, o imperador d. Pedro I aparece proclamando a independência em uma pintura vertical de mais de dois metros. A releitura do quadro de Pedro Américo coloca em primeiro plano o carreiro, munido da espada e pintado de vermelho sangue. A escolha cromática do pintor Daniel Lannes coloca em evidência a questão do protagonismo no bicentenário da efeméride. Quem realmente sangrou para libertar o País. A mão de Lannes entra para bagunçar o Grito e descolonizar o olhar. 

“Esse é o retrato do que eu queria ter visto no passado, trago isso para o presente sem ter o compromisso histórico que tinham os pintores documentaristas da época”, diz Lannes, um homem alto de cabelos negros, inquieto, que sorri em meia lua ao ser parado por um visitante, durante a longa conversa que teve com o Estadão na exposição Jaula, em cartaz até 23 de outubro no Paço Imperial, Rio de Janeiro. 

Dramas e Abstrações, obra em que Daniel Lannes faz autorretrato (figura no chão) em 2016 Foto: PIPA PRIZE

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Para entender as escolhas do artista, é preciso voltar ao ano de 2011, quando Lannes expôs no MAM do Rio a pintura Pipo’s X CashBox, a partir de um trabalho não terminado de Jean Baptiste Debret (1768-1848), pintor francês da corte portuguesa. Naquela tela vertical de três metros de altura por oito de largura, ele recria d. Pedro I no meio de um baile funk: mistura ao aristocrático o que há de mais popular no Brasil de hoje, os bailes de favela, identidade que ressoa em outros trabalhos, com a figura do carioca típico em trajes de banho, óculos juliet e pesadas correntes, em festas, pancadões, etc. 

Essa atmosfera criada pelo artista elege o Rio de Janeiro como palco. A cidade mantém uma forte herança visual com apelo histórico (Lannes expõe no conservado Paço Imperial), a arquitetura francesa que remonta aos costumes europeus da belle-époque tropical do início do século 19, e, sobretudo, os códigos de conduta que fazem parte da vida de uma aristocracia metropolitana – hoje démodé. “No mundo da arte, ainda tem gente que acha a pintura sagrada”, conta. “Quero bagunçar essa ideia, cansei de ser um bom rapaz”. 

Tela de Daniel Lannes que ilustra capa do livro de Lilia Schwarcz, obra está exposta no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, até outubro. Foto: Paço Imperial

Lannes foi aprendiz do restaurador Cláudio Valério Teixeira (1949-2021), teve uma educação formal privilegiada. Foi aluno da Escola de Artes Visuais do Parque Lage e destaca o ano em que estudou no departamento de Fine Arts na Universidade do Estado de Nova York. Foi lá que aprendeu história da arte, durante dois semestres de uma bolsa sanduíche do curso de Publicidade na PUC-Rio. “Passei o Whitney [o museu] de cabo a rabo”, diz o pintor, que mostra apreço pela força das imagens de Tintoretto ao fascínio pelo expressionismo abstrato de Mark Rothko (1903 - 1970). 

Uma das composições do pintor Mark Rohtko, uma das influências de Lannes Foto: Google Arts

 

Por mais que aprecie o silêncio dos trabalhos de Rothko, as pinturas mais abstratas  de Lannes transmitem o caos do mundo contemporâneo. Ele usa encorpadas camadas de tinta em movimentos repentinos, pinceladas vastas e tomadas velozes com o auxílio de materiais pesados, como espátulas e trinchas. Para Lannes, a arte está acima do bem e do mal e não a serviço de grupos, sejam eles de qualquer espectro. “Lugar de fala na arte é uma tragédia! No campo simbólico, o artista pode tudo, a arte não tem que ser do bem”, diz o pintor, que traz uma metáfora cheia de provocação. Compara as artes plásticas com uma carola. “Acham que toda pintura é homenagem, mas eu posso pintar sobre o que não gosto, acho absurdo”.  

Lugar de fala na arte é uma tragédia! No campo simbólico, o artista pode tudo

Daniel Lannes, pintor

 

“[Jaula] Trata-se da ‘contra-história visual’ desse país que recriou seu passado sob o signo da concórdia e da harmonia. Uma monarquia tropical e depois uma república que escondia seus alicerces: a permanência do escravismo e depois a desigualdade", classificou a curadora Lilia Moritz Schwarcz. “Por isso, os pincéis de Lannes, borram, esfumaçam e confundem”, pondera a historiadora, que lança O Sequestro da Independência, estudo sobre o episódio que marcou o Brasil (a capa do livro é, justamente, a pintura de Lannes, que é contextualizada dentro do livro com outras obras do artista). 

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O pintor Daniel Lannes, que expõe 'Jaula' até outubro no Paço Imperial Foto: Denise Andrade/Estadão

 

Carioca de Niterói, Lannes construiu um repertório alicerçado em figuras imponentes da história e cultura brasileiras. Do Imperador ao palhaço Bozo, o pintor tem atração por personagens caricatos. “O grande talento é ter obsessão, esse vício é a poética do artista”. Sua pintura é marcada por vastas emoções e pensamentos imperfeitos (como na série de personagens que fez há alguns anos, em que retratou uma cultura de permissividade, com personagens nus, em motéis, bordéis, etc.), inquietação e fúria. Ele sabe que é uma pessoa expansiva e usa essa característica a seu favor "Hoje, mais do que nunca, é hora de aparecer, e as redes se tornaram mais do que essenciais”. 

A figura de d. Pedro I intriga o artista, que reinterpreta os bastiões da Independência Foto: Paço Imperial

 

SERVIÇO 

Jaula 

Paço Imperial – Rio de Janeiro

Praça 15 de Novembro, 48

Até 23 de outubro de 2022

Terça a sexta, 12 às 18 horas

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Finais de semana e feriados, 12 às 17 horas

Gratuito

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