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Coluna semanal do antropólogo Roberto DaMatta com reflexões sobre o Brasil

Opinião|Os ‘poderes’ são idealizações propostas para sublimar interesses particulares

Num continente de tiranos e caudilhos, todos são zelosos dos seus poderes, os quais, em democracias, infelizmente não são monocráticos, mas interdependentes e complementares

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Até sair de casa, fui governado pelo meu pai, que, pouco falante, comandava monocraticamente a família - mulher, irmã, seis filhos, a empregada doméstica - e gerenciava secretamente as finanças. A casa, porém, era administrada e, às vezes, governada, por mamãe e pela “empregada,” ao lado da marginal atuação das “crianças”. Naquele tempo, não tinham vontade!

Presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (direita) ao lado do presidente do STF, Luís Roberto Barroso. 'Para qualquer latino-americano, é compreensível essa crise entre o Senado e o Supremo.' Foto: Andre Borges/EFE

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Claro que o mandão supremo era o Pai. Mas quem comandava o cardápio, compras de comida, a higiene, as boas maneiras e o bem-estar geral era a Mãe, que, ademais, nos encantava com o seu piano. Ilma do Nascimento, a empregada cuja memória eu reverencio com o sentimento moldado por uma irreparável história de opressão escravocrata, figurava como o lado externo da casa. Tal gradação de governanças surgia no direito ao uso de espaços e objetos, especialmente banheiro, vitrola e TV.

O Pai era Executivo e claramente Judiciário; a Mãe, filhos e empregada, o Legislativo - o “povo” e o eleitorado.

Até constituir o meu regime, vivi num sistema monocrático, testemunhando as vergonhosas e reiterativas crises entre os três eixos institucionais constitutivos do republicanismo.

Para qualquer latino-americano, é compreensível essa crise entre o Senado e o Supremo. Num continente de tiranos e caudilhos, todos são zelosos dos seus poderes, os quais, em democracias, infelizmente não são monocráticos, mas interdependentes e complementares. Não deveriam ser competitivos, como entendem alguns dos seus titulares.

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A crise, todavia, desmascara nosso desconforto com a ausência de um supremo mandão. De um chefe absoluto, capaz de reunir a dominação patrimonial com a carismática numa estrutura jurídica onipresente, totalmente fiel não apenas às suas infindáveis leis, mas aos que delas abusam. A repartição dos poderes é, para nós, latinos, forjada na Contrarreforma, na Inquisição e nos mandonismos monocráticos, mais que um problema. É um dilema.

Revela a dificuldade de atuar impessoalmente, institucionalmente ou, para usar um chavão fácil de escrever, mas duro de honrar, democraticamente. Seguindo regras resistentes ao personalíssimo que reduz a dinâmica democrática voltada para o todo, à politicagem privada.

Os “poderes” são idealizações propostas para sublimar interesses particulares. Eles exigem que seus membros honrem o princípio do “sine ira et studio” (sem rancor ou paixão), que é, exatamente, a nossa questão...

PS: Veremos até onde o fogo da política vai cozinhar a crueza de um Milei candidato, num cozido de um Milei eleito.

Opinião por Roberto DaMatta

É antropólogo social, escritor e autor de 'Fila e Democracia'

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