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Coluna quinzenal do jornalista e escritor Sérgio Augusto sobre literatura

Opinião|O livro de 224 páginas sem parágrafos, com cada capítulo apenas de frases iniciadas por uma letra

Sheila Heti submeteu seus diários a uma condicionante tão desafiadora quanto as praticadas pelos vanguardistas do movimento Oulipo, nos anos 1960, que se autoimpunham regras restritivas para curtir mais ludicamente os labirintos que para si construíam

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Atualização:

Encarei a folia carnavalesca com uma extravagância literária nas mãos: os Diários Alfabéticos de Sheila Heti, na língua em que foram escritos pela ficcionista canadense mais em evidência atualmente no hemisfério norte por este e outros livros, só um deles (Maternidade) publicado aqui até agora.

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Anotados ao longo de pouco mais de uma década, sem qualquer afetação formalista nem muito claras intenções autobiográficas, também sem tramas, protagonistas e conflitos, os diários de Heti totalizavam, originalmente, 500.000 palavras. Falavam de frivolidades, inquietações, relacionamentos amorosos, solidão, medos, mas também do fazer literário.

Era (e ainda é) um mix dos diários de Virginia Woolf, Anaïs Nin, Sylvia Plath e Susan Sontag com as inânias existenciais de Candace Bushnell (Sex and the City). Seu Mr. Big tem nomes europeizados, como Lars e Pavel.

Para fugir ao convencional, Heti submeteu os diários a uma condicionante tão desafiadora quanto as praticadas pelos vanguardistas do movimento Oulipo, nos anos 1960. Os inventivos oulipianos se autoimpunham regras restritivas para curtir mais ludicamente os labirintos que para si construíam.

Georges Perec perpetrou um romance, O Sumiço, sem usar a letra E. No início deste século, o poeta canadense Christian Bök publicou Eunoia, com cada capítulo estruturado a partir de uma vogal diferente. Heti não foi além desse patamar, mas, com a inestimável ajuda do editor de planilha Excel e a função A/Z, subiu seu sarrafo.

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Sheila Heti já participou da Flip falando sobre 'Maternidade: Um Romance' Foto: Flip/Divulgação

Pense num romance de 55.000 palavras impressas em razoáveis 224 páginas, sem parágrafos. Até aí, nada demais. As coisas só se complicam porque seus 26 capítulos se sucedem não em ordem cronológica, como é praxe em diários, mas em ordem alfabética (a,b,c, d... até z), com a primeira palavra de cada frase se iniciando com a letra que designa o respectivo capítulo. Não invejo seu futuro tradutor para o português ou qualquer outra língua.

“A book about how difficult...” enuncia a primeira frase do primeiro capítulo. Tradução literal: “Um livro sobre como é difícil (a gente mudar)...”. Teoricamente, na última flor do Lácio, em vez de abrir o capítulo A, abriria o capítulo U, o vigésimo primeiro do livro. Cheia de armadilhas (ora artigo, ora preposição, ora conjunção, advérbio: “and”, “after”, “actuallly”. etc.), a letra A é apenas o início de uma ínvia travessia translinguística.

A autoficção é o barato de Heti. Ela já romanceou a desintegração de seu casamento (How Should a Person Be?), sua tormentosa dúvida sobre ter ou não um filho (Maternidade) e a morte do pai (Pure Colour). Seus diários, com passagens enfadonhas em meio a observações divertidas e inesperadas justaposições, saíram em parte no The New York Times, há dois anos. Bridget Jones não teve esse privilégio, e isso é um consolo.

Opinião por Sérgio Augusto

É jornalista, escritor e autor de 'Esse Mundo é um Pandeiro', entre outros

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