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Airbus aumenta previsão de entrega de aviões e se distancia ainda mais da Boeing

Enquanto rival norte-americana enfrenta crise de segurança, fabricante europeu amplia liderança no negócio de jatos comerciais; desafio é produzir os milhares de aeronaves em uma escala mais rápida

Por Liz Alderman

THE NEW YORK TIMES - A Airbus disse nesta quinta-feira, 15, que aumentará as entregas neste ano de algumas das aeronaves mais procuradas do mundo. O anúncio reforça sua posição de maior fabricante de aviões e a deixa ainda mais à frente da Boeing. Sua rival norte-americana se concentra nas consequências de uma grande crise de segurança envolvendo sua linha de aviões 737 Max.

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Gigante aeroespacial europeia, a empresa planeja entregar cerca de 800 jatos aos clientes este ano, incluindo o popular A320neo de corredor único, seu principal concorrente do 737 Max. A empresa entregou 735 aviões no ano passado, mais do que havia planejado inicialmente. O impulso deste ano visa atender ao que Guillaume Faury, CEO da fabricante de aviões, disse ser uma recuperação acentuada na demanda por viagens aéreas após os bloqueios causados pela pandemia.

A Airbus obteve um recorde de 2.094 pedidos de aeronaves comerciais no ano passado, em parte devido a um aumento na demanda por jatos de fuselagem estreita e de médio porte da Índia e de outros países em rápido crescimento. Isso se somou à extensa carteira de pedidos da empresa de 8.598 aeronaves comerciais no final de 2023. Em contrapartida, a Boeing entregou 528 aviões comerciais e registrou 1.576 pedidos líquidos.

O CEO da Airbus, Guillaume Faury, a diretora de sustentabilidade e comunicações, Julie Kitcher, e o diretor financeiro, Thomas Toepfer, durante apresentação de resultados Foto: Fred Scheiber/AP

A companhia também começou a trabalhar na preparação de um sucessor para o A320neo mais vendido, anunciou Faury. O novo avião seria mais econômico em termos de combustível e chegaria aos céus em meados ou no final da década de 2030. O desenvolvimento desse avião, conhecido como Next Generation Single Aisle, colocaria a Airbus na dianteira em relação à Boeing em termos de aeronaves com tecnologia de ponta.

A intenção é que o avião gaste cerca de 20% menos combustível por assento e seja feito inteiramente com materiais sustentáveis ou sintéticos. Os analistas disseram que a Boeing pode não ter o capital necessário para avançar no desenvolvimento de novos aviões, já que prioriza a resolução de sua crise de controle de qualidade.

A Airbus divulgou lucros ajustados de € 5,8 bilhões (US$ 6,2 bilhões) em 2023, um pequeno aumento em relação ao ano anterior, sobre uma receita de mais de € 65 bilhões. A empresa acrescentou um dividendo especial, além de seu pagamento habitual, já que seu caixa líquido ultrapassou € 10 bilhões. O lucro da empresa foi prejudicado por uma grande baixa contábil em seu negócio espacial, que Faury disse que a Airbus estava trabalhando para reverter.

Mas em seu principal negócio, o de jatos comerciais, no qual a Airbus e a Boeing fabricam a maioria dos aviões do mundo, o fabricante europeu está ampliando sua liderança.

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A Airbus enfrenta o desafio de produzir os milhares de jatos que seus clientes encomendaram em uma escala mais rápida. Faury disse que viu um interesse significativo das companhias aéreas de todo o mundo. Mas os problemas da cadeia de suprimentos tornaram mais difícil acompanhar a demanda, um dilema para a empresa, já que os erros da Boeing abriram novas oportunidades.

Para tanto, Faury disse que a Airbus estava mantendo os planos de elevar a produção do A320neo para 75 jatos por mês em 2026, embora provavelmente não mais do que isso nos anos seguintes.

Airbus A321 da Lufthansa decola de Lisboa; empresa afirma que planeja entregar mais aeronaves aos clientes em 2024 Foto: Armando Franca/AP

A Boeing havia planejado aumentar a produção de seu modelo 737 para 50 aviões por mês por volta de 2025. No entanto, a empresa norte-americana suspendeu suas previsões no mês passado, pois está lidando com problemas de controle de qualidade destacados por um incidente no início de janeiro, no qual um painel de porta explodiu em um avião 737 Max 9 da Alaska Airlines logo após a decolagem.

O episódio abalou a principal rival da Airbus, provocando uma investigação federal nos EUA e forçando o CEO da Boeing, Dave Calhoun, a se concentrar em tranquilizar os clientes, os órgãos reguladores e o público de que a empresa está priorizando a segurança em detrimento dos lucros.

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A crise reduziu a capacidade da Boeing de produzir mais de seus jatos 737 Max. A Administração Federal de Aviação anunciou que limitaria a capacidade da Boeing de aumentar a produção de todos os aviões 737 Max até que a empresa provasse que havia resolvido seus problemas de controle de qualidade. O complexo da sede da Airbus nos arredores de Toulouse, no sudoeste da França, é uma prova da rapidez com que a empresa continua a crescer.

A Airbus abriu uma nova linha de montagem em Toulouse no verão passado para dar suporte ao desenvolvimento do A321neo. E, recentemente, cortou a fita em um novo e elegante centro de boas-vindas para seus clientes, para se preparar para uma onda de entregas nos próximos anos.

Na quarta-feira, enquanto Faury e os executivos da Airbus davam os últimos retoques no anúncio dos lucros da empresa, dois jatos A320neo recém-acabados da Air India, com suas caudas estampadas com o logotipo do sol amarelo da companhia aérea, estavam estacionados no novo centro de entregas. Outros aviões, destinados à IndiGo e à British Airways, também estavam prontos para entrega.

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“Estamos entregando mais e continuaremos a entregar mais”, disse Jill Lawrie, chefe da equipe de experiência do cliente da Airbus, falando no terraço panorâmico do novo prédio, onde um hangar cavernoso que costumava fabricar o gigantesco superjumbo A380 foi convertido para fabricar o A321neo. “Estamos crescendo e precisamos ser mais eficientes e criar maior capacidade para entregar nossos aviões.”

Em uma entrevista à imprensa nesta quinta-feira, Faury enfatizou a necessidade de priorizar a qualidade e a segurança em detrimento da quantidade, mesmo em um momento em que a empresa está trabalhando para aumentar a produção.

“Não pode ser a quantidade em detrimento da qualidade”, disse Faury. “Não queremos entregar um número de aviões, queremos entregar um número de aviões que sejam de alta qualidade e seguros”, disse ele.

Faury enfatizou que a empresa tinha uma forte cultura de gerenciamento de risco que incluía programas de treinamento extensivos para funcionários e pessoas que vinham “não apenas para aprender fatos e números”, mas também segurança. Os analistas apontaram as políticas da época da pandemia como um apoio a essa cultura.

Quando a pandemia causou uma profunda desaceleração no setor aeroespacial, a Airbus manteve a maioria de seus funcionários em licença parcialmente remunerada, refletindo uma política adotada em toda a Europa para evitar o aumento do desemprego e ajudar as empresas a manter funcionários experientes e de longa data em vez de perdê-los.

Em contrapartida, a Boeing demitiu funcionários e trabalhou para recontratá-los assim que as condições comerciais melhorassem. Para manter os controles de qualidade e segurança, “a maneira de fazer isso é desafiar-se constantemente”, disse Faury, “ter medo do que pode acontecer e pensar sempre no que pode dar errado”.

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