Corte de juro nos EUA pode aproximar estrangeiro do País, mas preocupação com contas públicas afasta

Peso do Brasil em fundos globais melhorou, mas situação fiscal nacional deve continuar impedindo o investidor de apostar suas fichas com mais firmeza no País

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Por Aline Bronzati
Atualização:

NOVA YORK - Ainda que os economistas não esperem um repeteco da surpresa que foi o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2023, o País pode ficar mais interessante ao olhar estrangeiro com o esperado corte de juros nos Estados Unidos em 2024. Mas, enquanto o processo de relaxamento monetário na maior economia do mundo e a ausência de boas histórias para atrair esse capital no mundo servem de ímã, a situação fiscal do Brasil atrapalha e deve continuar afastando esse investidor de apostar suas fichas com mais firmeza no País.

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Ao longo de 2023, o Brasil aumentou a sua relevância em fundos globais. A participação do País no índice de ações MSCI Emerging Markets (MSCI EM), um dos principais referenciais internacionais para investidores, foi a 5,67% no fim de novembro contra 5,54% na versão anterior, na segunda melhora consecutiva do indicador.

Para o próximo ano, a materialização da queda de juros nos EUA pode beneficiar a entrada de recursos estrangeiros no Brasil. Com os juros dos Fed Funds na faixa de 5,25% a 5,5% ao ano, investidores preferem manter os seus recursos em títulos públicos da maior economia do mundo do que se arriscar em países emergentes como o Brasil.

A última reunião de política monetária do Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) aumentou a expectativa de corte nos juros, ao indicar a possibilidade de três reduções em 2024, fora o tom “dovish” (dando a indicar políticas que favorecem juros mais baixos) do discurso do presidente da BC americano, Jerome Powell, que afirmou que não vai esperar a inflação cair à meta de 2% ao ano para começar a reduzir as taxas. Como resultado, o mercado antecipou a expectativa de início do ciclo de corte nos juros de maio para março, segundo ferramenta do CME Group.

Caso esse cenário se concretize, o volume de investimento estrangeiro no Brasil poderia crescer mais no segundo semestre de 2024, prevê o diretor de Pesquisa Macroeconômica para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos. “Olha, está interessante, mas não vejo ninguém apaixonado. É um pouco aquele fim de festa, que não sobrou ninguém para dançar”, diz ele, que fica em Nova York.

No acumulado deste ano até a última sexta-feira, dia 22 de dezembro de 2023, o capital externo na B3 soma mais de R$ 43 bilhões. A cifra é menos da metade da registrada em 2022, quando o investidor estrangeiro aportou R$ 100,8 bilhões na bolsa brasileira, a maior cifra desde 2004.

Capital externo na B3 em 2023 foi menos da metade do registrado no ano anterior Foto: Daniel Teixeira/Estadão

“Seletivamente positivos”

E o peso do Brasil em fundos globais melhorou, mas segue bem longe do auge visto no passado. Em 2010, na sequência da icônica capa da revista britânica ‘The Economist’ com a imagem do Cristo decolando como um foguete, o Brasil chegou a ter peso de 17% do MSCI EM. Na época, além do grau de investimento, o País roubava a cena de seus pares no mundo emergente para o olhar estrangeiro.

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Para Ramos, do Goldman Sachs, o Brasil tem pontos positivos como o crescimento robusto, que começa a desacelerar, um superávit comercial enorme, um Banco Central credível, melhora da inflação, um mercado de trabalho resiliente e aceleração do crédito. Na ponta oposta, a questão fiscal pode minar todas as outras.

“O governo continua naquela toada de tributar e gastar, o que significa que as metas fiscais perderam toda a credibilidade”, diz Ramos, mencionando os ruídos gerados com o debate da mudança da meta de zerar o déficit primário até 2024 na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o fato de o novo arcabouço não estabilizar a dívida do País. “As coisas ruins não permitem ao Brasil ser uma história muito construtiva.”

A BlackRock, maior gestora do mundo, com US$ 9 trilhões em ativos, vê o Brasil com oportunidades, mas “seletividade positiva”. Sua visão para mercados emergentes é “neutra”, o que inclui o País, com preferência por dívida ante ações, uma mudança de tom frente ao otimismo apresentado em maio deste ano.

“Estamos seletivamente positivos em oportunidades de ações (no Brasil) relacionadas com megaforças (globais) como metais que se beneficiam da transição para baixo carbono ou alguns setores industriais ou produtores de alimentos beneficiados pela fragmentação geopolítica”, disse o estrategista-chefe de Investimentos da BlackRock para a América Latina, Axel Christensen, ao comentar o recém-publicado relatório da gestora sobre perspectivas 2024.

México como principal concorrente

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Diante deste quadro, o México deve seguir como principal concorrente do Brasil na disputa por recursos estrangeiros em 2024, segundo especialistas. Grandes emergentes como a Turquia, a Rússia, que mantém a guerra contra a Ucrânia, e a África do Sul ainda têm problemas para lidar, enquanto a China luta contra o fantasma da desaceleração e os atritos com os Estados Unidos.

O México, por sua vez, cresce em ritmo superior ao do Brasil neste ano, com inflação controlada e uma política fiscal expansionista, mas sua dívida representando menos de 50% do PIB. Já a do Brasil deve chegar a 75% neste ano, segundo projeção da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão vinculado ao Senado Federal.

Apesar da esperada queda de juros nos EUA, o temor de repique da inflação ainda preocupa nas economias desenvolvidas. “Olhando para frente, obviamente o ambiente pode se tornar menos acolhedor (para países emergentes) se as taxas de juro tiverem de permanecer elevadas ou voltarem a subir por razões inesperadas”, alerta o diretor do departamento econômico e monetário do Banco de Compensações Internacionais (BIS), uma espécie de banco central dos bancos centrais, Claudio Borio.

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Relatório trimestral do BIS chama a atenção para a possibilidade de o mundo estar entrando em uma nova era de liquidez como resultado do aperto monetário global para combater o salto da inflação nas economias. Neste cenário, os emergentes poderiam ser mais impactados. Apesar disso, Borio vê essas economias preparadas para enfrentar uma eventual mudança de vento à frente. Favorece a região, sobretudo, o fato de terem iniciado o processo de aperto monetário, em especial, a América Latina, antes das economias desenvolvidas.

Grau de investimento

O que beneficiaria de fato o Brasil na atração de recursos estrangeiros nos próximos anos seria a retomada do grau de investimento, perdido em 2015. Depois da Fitch Ratings em julho, foi a vez da S&P Global Ratings elevar a nota de crédito do Brasil neste mês, de ‘BB-’ para ‘BB’, com perspectiva estável, na semana passada. Agora, o País está dois níveis abaixo do selo de bom pagador, considerando a escala das três maiores agências de rating do mundo.

Segundo o diretor e analista líder da S&P Global Ratings para o para Brasil, Manuel Orozco, a capacidade do Brasil em arrumar as contas fiscais e entregar um crescimento econômico mais rápido poderia contribuir para alguma outra melhora do rating. “Mas, por enquanto, a tendência do rating do Brasil é estável”, disse.

Já a Fitch Ratings gostaria de ver a relação dívida/PIB do País estabilizando e eventualmente caindo para pensar em novas melhorias para o rating brasileiro, conforme contou, em recente entrevista, o codiretor de ratings soberanos para as Américas da agência, Todd Martinez. “O grau de investimento está bem longe. Não vale nem a pena discutir neste momento porque não é uma coisa plausível”, conclui Ramos, do Goldman Sachs.

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