Crise da produção: veja quanto o Brasil precisa investir para retomar nível recorde dos anos 70

Produtividade do País era equivalente a 55% da dos Estados Unidos meio século atrás; atualmente, número gira em torno de 20%, segundo levantamento feito pela Fiesp

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Por Adriana Fernandes

BRASÍLIA - O Brasil precisa investir anualmente de forma sustentável R$ 456 bilhões na indústria de transformação, por um período de sete a dez anos, para retornar ao mesmo patamar de produtividade da década de 1970.

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O cálculo dos investimentos necessários para elevar o baixo padrão de produtividade do Brasil foi feito pela primeira vez pela Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) em estudo antecipado ao Estadão.

Nos anos 1970, a produtividade do País era equivalente a 55% da dos Estados Unidos — valor de referência para a economia brasileira. Foi o momento em que o Brasil ficou mais próximo da produtividade norte-americana.

Atualmente, a produtividade está em torno de 20%, e os investimentos na indústria de transformação representam apenas 2,6% do PIB, ante os 4,6% necessários para recuperar o tempo perdido.

A indústria de transformação é considerada estratégica para o desenvolvimento do País porque desempenha um papel de fortalecimento de todo o setor produtivo brasileiro, especialmente com seus investimentos em tecnologia e inovação.

Indústria brasileira perdeu investimento e está muito longe da fronteira tecnológica e de boa capacitação de mão de obra Foto: Wilton Junior/AE

Apesar do papel estratégico desse segmento industrial, os investimentos despencaram e chegaram ao piso de uma série histórica que começou em 1996. Em 2021, eles correspondiam a apenas 12,9% do total de investimento aplicados no Brasil. O valor mais alto ocorreu em 2007 e atingiu 21%.

Coordenador do estudo, o economista-chefe da Fiesp, Igor Rocha, diz que o quadro atual é grave. Só para cobrir a depreciação dos ativos dos investimentos feitos no passado, que ocorre com o passar dos anos, é necessário investir pelo menos 2,7% do PIB. Ou seja, o nível de investimento atual não é suficiente nem para recuperar o que já está depreciado.

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“Estamos lascados na infraestrutura e também na indústria”, diz Rocha. “É brutal a queda”, ressalta.

A inspiração para o estudo partiu de dados divulgados sempre pela Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), que mostram como está o investimento na infraestrutura e quanto teria de ser o investimento para suprir os gargalos nos mais diversos segmentos para cobrir a depreciação.

“O Josué (Gomes, presidente da Fiesp) gostou e pediu para fazer para a indústria de transformação. Não havia esse dado”, conta Rocha. O investimento está concentrado na produção de bens intermediários.

Segundo ele, um dos “achados” do estudo é como a evolução do setor de fabricação de derivados de petróleo e combustíveis acabou distorcendo os dados globais, sobretudo na época anterior a 2016, quando os investimentos eram maiores.

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“O cenário é ainda pior desconsiderando a fabricação de coque, de produtos derivados de petróleo e de biocombustíveis”, relata o economista-chefe da Fiesp. O coque é um combustível sólido obtido a partir da destilação do carvão mineral.

Para Rocha, esse ponto ajuda a mostrar ainda mais como a indústria de transformação em geral está “muito machucada”. O estudo também revela as mudanças que vêm ocorrendo a partir de 2017. Entre 1996 e 2000, por exemplo, o segmento de petróleo e combustível teve uma participação de 9,2%, valor que subiu para 32,2% nos anos de 2017 a 2021.

A indústria perdeu investimento e está muito longe da fronteira tecnológica e de boa capacitação de mão de obra, dois problemas crônicos do setor.

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O governo prometeu um plano de reindustrialização do País, batizado pelo presidente Lula e pelo vice Geraldo Alckmin de “neoindustrialização”, mas até agora ele não saiu do papel. A expectativa é que seja divulgado entre outubro e novembro com foco na agenda verde de transição ecológica e descarbonização do parque industrial do País.

O vice-presidente prometeu também lançar um programa de depreciação super acelerada, que é um tipo de incentivo para as empresas renovarem máquinas e equipamentos. Alckmin acenou com uma espécie de “Plano Safra” para a indústria, com linhas de crédito para o setor.

O que é indústria de transformação?

A indústria de transformação é um segmento de indústria que realiza a transformação de matéria-prima em um produto final ou intermediário que vai ser novamente modificado por outra indústria.

É considerada estratégica para o desenvolvimento do País porque desempenha um papel de fortalecimento de todo o setor produtivo brasileiro, especialmente com seus investimentos em tecnologia e inovação.

Os materiais, substâncias e componentes usados por ela são provenientes de produção agrícola, mineração, pesca, extração florestal e produtos de outras atividades industriais.

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