Cenário mudou e entrada de dinheiro estrangeiro na B3 deve subir, diz estrategista-chefe do Inter

Gabriela Joubert afirma que desaceleração da inflação e redução da Selic deixam cenário brasileiro mais favorável; junta-se a isso o fim do ciclo de alta dos juros americanos

PUBLICIDADE

Por Caroline Aragaki e Maria Regina Silva
Atualização:
Foto: Inter/Divulgação
Entrevista comGabriela JoubertEstrategista-chefe do Inter

A mudança da “água para o vinho” no cenário externo e melhora na percepção do Brasil em relação a outros emergentes sustenta o apetite do investidor estrangeiro na B3, diz a estrategista-chefe do Inter, Gabriela Joubert. “A desaceleração da inflação e o ciclo de corte de juros tornam nosso cenário mais favorável que de outros emergentes. O ponto de interrogação mesmo fica por conta do fiscal, mas temos um cenário positivo para o Brasil”, detalha.

Depois de três meses de retirada de recursos, novembro já acumula aportes de quase R$ 16 bilhões. Daqui em diante, Joubert avalia que “o fluxo estrangeiro deve continuar melhorando”, a menos que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) volte a aumentar os juros em dezembro, o que provocaria uma correção do movimento de novembro. Leia abaixo os principais pontos da entrevista:

Vemos uma entrada massiva de capital externo na B3 neste mês. Novembro caminha para ser o melhor mês de 2023 nesse quesito. A que se deve esse fenômeno?

Sim, deve ser o melhor mês depois de um outubro muito difícil. Mas em novembro o cenário mudou completamente, da água para o vinho, principalmente no ambiente externo, e isso propiciou um alívio nos ativos domésticos. Com o retorno do apetite ao risco, vemos o Ibovespa e os mercados como um todo respondendo positivamente a esse cenário mais otimista que estamos vendo lá fora.

Estrategista-chefe do Inter, Gabriela Joubert Foto: Inter/Divulgação

O que contribuiu para essa melhora do cenário externo?

A leitura dos mercados de que o Federal Reserve e o Banco Central Europeu chegaram ao fim de seu ciclo altista nos juros. E agora o mercado trabalha não só com expectativa de fim de aperto monetário, mas com a possibilidade de que o corte de juros já comece a acontecer no primeiro semestre de 2024, talvez até no primeiro trimestre de 2024, e isso trouxe mais otimismo.

A expectativa de afrouxamento monetário nos EUA deve persistir apesar dos números conflitantes da economia americana, com alguns dados de atividade mais fracos, outros mais fortes e uma inflação resiliente?

O ciclo de alta de juros nos EUA já chegou ao fim. As decisões ficarão mais voltadas a dados macroeconômicos para vermos os efeitos dos juros. O ambiente ainda é de cautela, pois não precificamos a inflação americana na meta nem um cenário de recessão. Mas o cenário de soft landing (pouso suave) aumentou significativamente, está sendo precificado. Já o mercado de trabalho ainda está aquecido, os resultados da maioria das empresas no terceiro trimestre foram bons, embora as receitas não tenham crescido tanto assim. Aí que mora o perigo.

E em termos de Brasil, o que tivemos aqui que contribuiu?

A inflação veio bem comportada, então as expectativas estão sendo ancoradas. Tivemos desaceleração da atividade, o que acaba contribuindo para um projeto de inflação desacelerando.

E como fica a nossa política fiscal no meio dessa equação?

Do lado fiscal, o risco ficou muito maior desde que o presidente Lula falou que não ia cumprir a meta de déficit zero no ano que vem. Já um ponto favorável foi a não alteração da meta de déficit zero na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). Mas aqui estamos preocupados com o risco fiscal sim. Vimos um aumento nos gastos públicos ao longo deste ano e o que preocupa é serem gastos permanentes, o que pode gerar pressão adicional no fiscal.

Publicidade

Na sua avaliação, quais são as perspectivas para o fluxo estrangeiro na B3 daqui em diante? O Brasil ainda é atraente em relação a outros emergentes?

A situação do Brasil é bastante confortável. A desaceleração da inflação e o ciclo de corte de juros tornam nosso cenário mais favorável que outros emergentes. O ponto de interrogação mesmo fica por conta do fiscal, mas temos um cenário positivo para o Brasil. Então, o fluxo estrangeiro deve continuar melhorando, a não ser que o Fed contrarie as expectativas e volte a aumentar os juros em dezembro, o que geraria uma correção do movimento de novembro e pressionaria os aportes novamente.

Outro ponto importante para a nossa Bolsa são as commodities. Qual é a perspectiva do Inter para petróleo em 2024?

Por mais que tenhamos uma desaceleração global, o lado da oferta continua bastante delicado, então provavelmente continuaremos vendo commodities em patamares elevado. Por ora continuamos com a banda de US$ 80 a US$ 90 por barril para petróleo, pois vemos um movimento coordenado da Organização dos Países Produtores de Petróleo e aliados (Opep+) para mantê-lo nesse nível. Se o mercado precifica mais demanda, a Opep aumenta a produção, e vice-versa.

E a perspectiva para o minério de ferro?

Para o minério, estávamos mais pessimistas. Mas agora provavelmente a commodity deve ficar em torno de US$ 100 por tonelada na média de 2024, pois em termos de demanda está melhor, estamos vendo uma estabilização nesse mercado e um movimento especulativo de traders que induz alta.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.