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Fã de jiu-jítsu brasileiro e xadrez: quem comanda os negócios trilionários dos Emirados Árabes

Xeique Tahnoon bin Zayed Al Nahyan ganhou o controle do maior fundo soberano do país e passou a financiar bilhões de dólares em transações por meio de um império reforçado por instituições privadas e estatais

Por Ben Bartenstein , Abeer Abu Omar , Adveith Nair e Farah Elbahrawy

BLOOMBERG - Conforme a fortuna do petróleo do Golfo flui para todos os cantos do mundo – apoiando megafusões, sustentando economias e bagunçando o mundo do esporte –, as movimentações de um integrante importante da família que governa Abu Dhabi fizeram dele um dos negociadores mais influentes do mundo.

Nos últimos meses, o xeique Tahnoon bin Zayed Al Nahyan ganhou o controle do maior fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos, ampliando os ativos que ele controla para quase US$ 1,5 trilhão. Ele passou a financiar bilhões de dólares em transações por meio de um império reforçado por instituições privadas e estatais.

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Atraindo titãs das finanças como Rajeev Misra e o bilionário Ray Dalio, o xeique Tahnoon – uma das lideranças de Abu Dhabi, conselheiro de segurança nacional dos Emirados Árabes Unidos e irmão do presidente – vem tentando investir em tudo, de tecnologia a finanças, com graus diferentes de sucesso.

Conhecido por ser um fã do jiu-jítsu brasileiro, de ciclismo e de xadrez, o xeique Tahnoon agora comanda dois fundos soberanos, a empresa de investimento privado mais importante da região, o maior credor do país e sua maior empresa listada na bolsa.

Na prática, isso o transformou no chefe dos negócios da rica família Al Nahyan, com acesso às reservas aparentemente infinitas de dinheiro do terceiro maior produtor da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) – uma quantidade incomum de poder financeiro, até mesmo para o Golfo Pérsico, rico em petróleo.

Nascido no final da década de 1960 – alguns anos depois da descoberta de petróleo em Abu Dhabi e quando os Emirados Árabes Unidos ainda eram um fim de mundo povoado por menos de 250 mil pessoas, em comparação com o quase dez milhões de hoje –, o xeique Tahnoon está se tornando cada vez mais o rosto das aspirações globais de seu país.

Xeique Tahnoon tem sido um elemento central nos esforços de Abu Dhabi em alavancar sua crescente influência financeira para atrair mais bilionários Foto: Ryan Carter/UAE Presidential Court/Reuters

“A liderança dos Emirados Árabes Unidos reconheceu que sua fonte mais importante de diplomacia é financeira”, disse Karen Young, pesquisadora sênior do Centro de Política Energética Global da Universidade Columbia. “O país tem os meios econômicos para se proteger, demonstrar poder e moldar a política em torno dele de formas que nunca conseguiria apenas com seu tamanho pequeno ou poderio militar.”

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“O xeique Tahnoon agora é o estrategista por trás de diversas ferramentas de política econômica e da capacidade de usar meios econômicos para apoiar a política externa”, disse ela.

Os planos de comprar os bancos Standard Chartered e Lazard no início deste ano, embora não tenham dado certo no fim, destacam a dimensão de suas ambições. Outras ofertas importantes incluem um investimento na Bytedance, proprietária chinesa do TikTok, um fundo de US$ 10 bilhões com foco nas oportunidades em tecnologia, um acordo para financiar o novo veículo de US$ 6,8 bilhões da Misra e a aquisição da maior fabricante de alimentos da Colômbia em parceria com o banqueiro bilionário Jaime Gilinski.

Outra de suas principais instituições – a G42 – está formando uma parceria com a Cerebras Systems, que recentemente construiu o primeiro de nove supercomputadores de inteligência artificial como alternativa aos sistemas que usam a tecnologia Nvidia.

Apesar dos recursos financeiros enormes à sua disposição, as empresas do xeique Tahnoon às vezes têm tido dificuldades para fechar negócios internacionais, como o do Standard Chartered, devido às dificuldades em lidar com os regulamentos complexos de fusões e aquisições no exterior. É provável que mais desafios estejam a caminho.

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Banqueiros e advogados alertam que alguns dos veículos de investimento de Abu Dhabi podem ser freados pelas análises de segurança americanas, pois o Comitê de Investimento Estrangeiro dos Estados Unidos costuma realizar verificações mais rigorosas nas transações de investidores internacionais com laços comerciais com o governo chinês. Os Emirados Árabes Unidos também devem passar a integrar o BRICs, grupo com os principais mercados emergentes, aproximando-se mais da órbita de Pequim.

Os negócios nos EUA tornaram-se mais complexos para as empresas do Golfo, de acordo com Lynn Ammar, sócia do escritório de advocacia Cleary Gottlieb, com sede em Abu Dhabi. “É provável que o amplo escopo geográfico continue a chamar a atenção das autoridades de investimento estrangeiro direto, como o Comitê de Investimento Estrangeiro, que pode estar preocupado com o potencial fluxo de informações para a China”, disse ela.

Essas pressões extras surgem num momento em que os veículos de investimento do xeique Tahnoon demonstram uma afinidade particular com os mercados emergentes. O fundo de tecnologia G42 está formando equipes em cidades asiáticas, entre elas Xangai, para procurar oportunidades de investimento, segundo a Bloomberg. Entretanto, sua empresa de investimento privado, a Royal Group, valoriza há muito tempo a Índia, que os executivos da instituição chamam de possível motor de crescimento da próxima década, disseram pessoas familiarizadas com o tema.

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O G42 também participou de negociações para expandir seu projeto de genoma humano para países da África e da Ásia, de acordo com as fontes. Os EUA, a Europa e a América Latina são mercados adicionais de interesse da Royal Group.

A International Holding Company (IHC) do xeique Tahnoon está investigando com entusiasmo as oportunidades em mercados emergentes, disse o CEO do conglomerado de Abu Dhabi, Syed Basar Shueb, em comentários escritos como respostas às perguntas da Bloomberg. Shueb, um dos principais assessores da realeza, disse que a adesão ao BRICS permitiria ao país fortalecer suas parcerias globais.

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Os representantes da Royal Group, do G42, da assessoria de comunicação do governo dos Emirados Árabes Unidos e do Ministério das Relações Exteriores não responderam aos pedidos de posicionamento.

O xeique Tahnoon recebeu o controle do fundo Abu Dhabi Investment Authority (ADIA) após uma reestruturação em março. Dias depois, o presidente dos Emirados Árabes Unidos, xeique Mohammed bin Zayed – conhecido como MBZ – nomeou seu filho mais velho, xeique Khaled bin Mohammed, como príncipe herdeiro e, portanto, seu sucessor, após ter mantido o cargo em aberto durante um ano.

O fundo ADIA de US$ 993 bilhões está entre os maiores fundos soberanos do mundo e desde 2022 ocupa a segunda posição entre aqueles que mais gastam com negócios na região – ficando atrás apenas do Public Investment Fund, o fundo soberano da Arábia Saudita, de acordo com dados da Global SWF.

Os outros veículos do xeique Tahnoon, inclusive a discreta Royal Group, gastaram mais bilhões. Os fundos soberanos do Oriente Médio aumentaram suas reservas à medida que os preços do petróleo dispararam depois da invasão da Ucrânia pela Rússia. Contudo, o peso financeiro de Abu Dhabi nem sempre foi suficiente. O First Abu Dhabi Bank, o credor controlado pelo xeique Tahnoon que avaliou uma proposta pelo Standard Chartered, comprou a unidade egípcia do Bank Audi em 2021. Mas um ano depois, desistiu da oferta de US$ 1,2 bilhão pelo banco de investimento egípcio EFG-Hermes depois de enfrentar atrasos regulatórios longos, informou a Bloomberg.

No caso do Standard Chartered, conseguir um acordo de verdade era uma jogada ambiciosa, dadas as diferenças de tamanho dos dois bancos. As aprovações regulatórias e a conformidade com as normas também eram obstáculos para o êxito do negócio.

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No entanto, Abu Dhabi continua sendo um polo para acordos e o xeique Tahnoon tem sido um elemento central nos esforços da cidade em alavancar sua crescente influência financeira para atrair mais bilionários. O fundador da Bridgewater Associates, Dalio, está criando uma filial do escritório da família em Abu Dhabi e formando parcerias com o xeique Tahnoon, como publicado pela Bloomberg.

Como solucionador de problemas diplomáticos para o irmão, o presidente, o xeique Tahnoon também ajudou seu país a entrar em mercados geopoliticamente importantes pelo mundo. Os Emirados Árabes Unidos assinaram uma série de acordos para investir em economias asiáticas e africanas, inclusive na Indonésia, onde o G42 e Dalio discutiram parcerias para ajudar a construir a nova capital. Na região, a realeza tem estado à frente de investimentos no Egito e, mais recentemente, na Turquia – onde o país do Golfo se comprometeu a investir mais de US$ 50 bilhões.

“Sem dúvidas há um aspecto geoestratégico para alguns dos investimentos no exterior de Abu Dhabi”, disse Steffen Hertog, professor da London School of Economics. “Dada a experiência do xeique Tahnoon com segurança e no papel de emissário de alto escalão principalmente no Oriente Médio e no norte da África, era de se esperar que os fundos sob seu controle incluíssem tais aspectos.”

A influência do xeique Tahnoon também foi sentida localmente, é claro. Uma parte fundamental de seu império é a IHC, que passou de uma desconhecida empresa de piscicultura para uma gigante de US$ 240 bilhões em apenas alguns anos. Agora ela tem o dobro do tamanho do Goldman Sachs e da Blackstone, mas não tem atraído muitos investidores internacionais, nem é acompanhada pelos analistas seguidos pela Bloomberg.

“O compromisso da IHC com a transparência é evidente em suas atividades diárias, que incluem a consolidação de ativos imobiliários e a formação de colaborações estratégicas que geram sinergias e valor”, disse o CEO Shueb nos comentários enviados. “Essas atividades permitem a ela revelar novas oportunidades e maximizar o potencial de seus ativos tanto local como internacionalmente.”

O aumento do preço das ações da empresa ajudou a apoiar a bolsa local, que subiu 92% desde o início de 2020. Em um período no qual investidores fugiram dos mercados emergentes – o índice de referência MSCI caiu cerca de 11% –, a bolsa de Abu Dhabi, de propriedade da ADQ, adicionou mais de US$ 600 bilhões ao seu valor de mercado, que era de cerca de US$ 750 bilhões no final da semana passada.

Algumas dessas conquistas são resultado de acordos envolvendo bens particulares da realeza e os fundos soberanos controlados pelo xeique Tahnoon. O exemplo mais recente, que envolveu a ADQ e a IHC, criou uma potência imobiliária de US$ 12 bilhões. No início deste ano, as duas empresas também firmaram uma parceria com a gigante de private equity General Atlantic, avaliada em US$ 73 bilhões, para criar um novo empreendimento e investir em ativos alternativos.

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Os “veículos financeiros do xeique Tahnoon também servem para criar novas empresas que gerem riqueza para a próxima geração da família no poder e para garantir o domínio das instituições relacionadas ao Estado dentro de um sistema de mercado mais amplo”, disse Karen, da Universidade Columbia./Tradução de Romina Cácia

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