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IPCA deve ter deflação em julho por causa do corte do ICMS, preveem economistas

Estimativa do mercado é de que a inflação oficial do País pode ficar negativa neste mês, com a redução dos preços

Foto do author Cicero Cotrim
Por Daniela Amorim (Broadcast), Cicero Cotrim (Broadcast), Guilherme Bianchini e Marianna Gualter (Broadcast)
Atualização:

RIO E SÃO PAULO - Depois de acelerar em junho e registrar uma alta de 0,67% a inflação oficial do Brasil deve dar uma trégua neste mês de julho. A projeção de economistas do mercado financeiro é de que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deverá ter uma deflação de até 1%, influenciada pelas medidas do governo, com respaldo do Congresso, para reduzir a alíquota de ICMS sobre combustíveis, energia elétrica e telecomunicações.

A medida já começou a se refletir nos preços dos combustíveis e da energia elétrica, embora o IPCA de junho tenha captado somente alguns dias de redução do imposto, e apenas em São Paulo e Goiás. 

Projeção de economista é de que o IPCA deve ter uma deflação de até 1%, influenciada pelas medidas do governo Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

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Como o corte tributário influenciará de forma mais significativa a leitura de julho, o Itaú Unibanco prevê uma deflação próxima de 1%, enquanto a empresa de pesquisas LCA Consultores projeta redução de 0,51%. A gestora de recursos Garde Asset espera uma queda de preços na economia de 0,82%.

“O resultado depende da velocidade do repasse (da redução do ICMS) sobre combustíveis. Não se sabe o quão rápido o corte de impostos vai chegar na bomba, mas, a princípio, parece que vai ser rápido. Energia é um pouco mais claro que vai aparecer em julho”, afirmou o economista Luís Menon, da Garde Asset.

Apesar da perspectiva de uma deflação em julho, o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, alerta que existe uma dúvida à frente sobre como a alta do dólar pode pressionar os preços. Além disso, há a possibilidade de mais reajustes dos combustíveis até o fim do ano.

“É uma ajuda no curto prazo, às custas de uma piora fiscal significativa e de uma piora da inflação no ano que vem”, avaliou Vale. “Estamos caminhando para um IPCA próximo de 8,0% em 2022, mas com 5,4% no ano que vem, acima do teto da meta.”

As projeções preliminares da economista-chefe da ARX Investimentos, Elisa Machado, indicam uma deflação de 0,75% para o IPCA de julho, mas sob o alerta de que a incerteza em relação à estimativa é grande. 

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A ARX prevê um IPCA de 7,30% em 2022 e de 5,24% em 2023, com os impactos das medidas fiscais. Apesar do alívio tributário, há risco para o cenário inflacionário decorrente da PEC Kamikaze, que pode ser votada pela Câmara na semana que vem.

"No início do ano, quando tivemos o aumento do Auxílio Brasil para R$ 400, vimos claramente que isso impulsionou a inflação. Agora, essas medidas também são um risco altista", afirmou Machado, que calcula uma contribuição de 0,5 ponto porcentual da PEC para o IPCA de 2022 e 2023, já incorporada às projeções.

A economista-chefe da ARX considera mais provável que o Banco Central (BC) encerre o ciclo de aperto monetário em agosto, com uma alta de 0,5 ponto porcentual na taxa básica de juros, a Selic, para 13,75% ao ano, mas há risco de um ciclo mais longo. "Hoje, o grande desafio do BC (Banco Central) é controlar as expectativas", disse.

Em junho, o IPCA já apurou quedas nos preços da gasolina (-0,72%), etanol (-6,41%) e energia elétrica (-1,07%). Juntos os três itens ajudaram a conter a inflação em 0,15 ponto porcentual.

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Segundo Pedro Kislanov, gerente do Sistema de Índices de Preços do IBGE, o impacto da redução do ICMS aparecerá mais claramente em julho, uma vez que o período de referência da inflação de junho se encerrou no dia 29 do mês.

"A gente já tem uma série de estados que publicaram decretos reduzindo valor do ICMS. A partir de julho já começa a valer", disse Kislanov. Kislanov ressalta que ainda não é possível prever a magnitude do impacto da redução do ICMS sobre a inflação, porque os itens pesquisados podem sofrer influência de outros componentes.

“Provavelmente vai afetar a energia elétrica. Deve afetar também a parte de combustíveis. Vamos aguardar para ver como vai ser esse comportamento”, recomendou o pesquisador.

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No caso da tarifa de energia elétrica, além do ICMS, ainda há incidência de PIS/Cofins, contribuição para iluminação pública, reajuste de tarifas por concessionárias e incidência de bandeira tarifária. Quanto aos combustíveis, os preços são coletados diretamente nas bombas, com impacto também de eventuais reajustes nas refinarias.

"A gente já tem observado no dia-a-dia a redução no preço da bomba por causa da redução da alíquota", lembrou Kislanov.

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A taxa acumulada pelo IPCA em 12 meses subiu a 11,89% em junho, e já roda no patamar de dois dígitos pelo décimo mês consecutivo. A última vez que a inflação persistiu por tanto tempo acima dos 10% foi em 2003.

No mês de junho, os vilões da vez foram o plano de saúde (2,99%), o leite longa vida (10,72%) e as passagens aéreas (11,32%). Comer fora de casa ficou 1,26% mais caro, refletindo o aumento nos custos dos próprios alimentos, mas também o encarecimento da energia e combustíveis, por exemplo, além da retomada de uma demanda que andava reprimida por conta da pandemia de covid-19, enumerou Kislanov.

"Isso (retomada da demanda) está afetando não só a parte de alimentação fora de casa, mas outros serviços da economia, como a parte de manicure, cabeleireiro e barbeiro", frisou o gerente do IBGE.

Os serviços já acumulam uma alta de 8,73% em 12 meses, taxa mais elevada desde janeiro de 2015.

“Alguns componentes da inflação que estavam com uma demanda mais reprimida durante o período da pandemia, toda essa parte de manicure, cabeleireiro e barbeiro, alimentação fora, a parte de turismo (...) a gente tem observado uma alta maior, porque houve uma retomada na demanda por esses serviços. Isso tem pressionado os preços”, disse Kislanov.

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