Veículo elétrico deve superar modelo a gasolina antes de 2040 com alto custo humano e ambiental

Carros e ônibus movidos a eletricidade precisam de seis vezes mais minérios como cobalto, níquel, lítio e manganês para serem produzidos do que os convencionais

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Por Aaron Steckelberg , Hannah Dormido , Ruby Mellen , Steven Rich e Cate Brown

THE WASHINGTON POST - Embora os veículos elétricos sejam essenciais para reduzir as emissões de carbono, a produção deles pode exigir um custo humano e ambiental expressivo. Para funcionar, eles precisam de seis vezes mais minérios, em peso, do que os veículos convencionais.

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Esses minérios, entre eles cobalto, níquel, lítio e manganês, são recursos finitos. E o garimpo e o processamento deles podem ser prejudiciais para os trabalhadores, as comunidades e o meio ambiente.

Os veículos elétricos já garantiram um lugar de destaque nas nossas estradas: eles representam mais de 10% das vendas de veículos novos no mundo. A expectativa é que a legislação e os regulamentos recentes dos Estados Unidos aumentem ainda mais a demanda. As projeções mostram que as vendas globais de veículos elétricos vão ultrapassar as de modelos movidos a gasolina antes de 2040.

Espera-se que a tendência reduza consideravelmente as emissões dos transportes, que hoje representam 14% do total global a cada ano.

Mas conforme a demanda por veículos elétricos aumenta, o mesmo acontece com a dos minérios presentes nas baterias deles.

Seu modelo elétrico pode parecer um sedã ou SUV convencional por fora. Mas debaixo do piso de seu carro está uma bateria de aproximadamente 400 quilos contendo materiais extraídos do solo, transportados pelo mundo e submetidos a processos químicos complexos para poder fazer você ir do ponto A ao B.

Essa cadeia de suprimentos tem um preço humano e ambiental considerável.

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“Se você analisar qualquer fonte de energia, vai acabar sempre se deparando com alguns dilemas”, disse Sergey Paltsev, cientista e pesquisador sênior do MIT. “Não há solução mágica.”

Veículos elétricos podem ter lado negativo Foto: TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO

Uma das baterias mais comuns nas ruas, a NMC, usada por empresas como Volkswagen, Mercedes e Nissan, contém grandes quantidades de alumínio, níquel, cobalto, manganês e lítio.

No entanto, embora as baterias possam variar em composição, elas costumam depender do mesmo conjunto de materiais.

Onde estão os minerais

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Os cinco minérios mais cruciais para as baterias de veículos elétricos estão concentrados em apenas alguns países. Para esses locais, o boom dos veículos elétricos representa uma promessa econômica enorme, mas também desafios ambientais, sociais e no ambiente de trabalho que ainda não foram resolvidos.

A bauxita, uma rocha avermelhada processada para produzir alumínio, é extraída principalmente na Austrália, China e Guiné. O metal leve permite que os veículos elétricos tenham mais autonomia de bateria do que se elas fossem feitas de aço. O alumínio também é um dos minérios mais essenciais nas baterias.

Produção de ônibus elétricos da empresa chinesa BYD para a cidade de São José dos Campos Foto: DENNY CESARE / ESTADÃO

A Guiné, um dos países mais pobres do mundo, tem algumas das maiores reservas de bauxita do planeta. Até 2030, a demanda por alumínio aumentará cerca de 40%, para 119 milhões de toneladas anuais, segundo os analistas do setor. Mas esse boom está afetando as pessoas que vivem nesses lugares. O governo da Guiné disse que centenas de quilômetros quadrados outrora utilizados para a agricultura foram adquiridos por empresas de mineração para suas operações e conexões com estradas, ferrovias e portos. Os moradores receberam pouca ou nenhuma remuneração, de acordo com a população local e ativistas de direitos humanos.

A Indonésia é a maior produtora de níquel do mundo com uma margem ampla e, se as tendências continuarem, produzirá mais de dois terços da oferta global de níquel até 2030. A expectativa é que a demanda global por níquel aumente cerca de 20 vezes até 2040, e as autoridades indonésias aprovaram a construção de mais nove fundidoras de níquel numa tentativa de capitalizar em cima do boom — com tarifas e proibições de exportação para maximizar os lucros em casa.

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No entanto, as comunidades locais temem os efeitos da extração e do processamento na região.

Sessenta por cento das reservas de níquel no mundo estão concentradas em três países: Indonésia, Austrália e Brasil. A proximidade da China com os países ricos em níquel no Pacífico Sul atraiu investimentos estrangeiros que provavelmente vão impulsionar o crescimento, apesar dos problemas ambientais.

As minas da África do Sul produzem mais de um terço da oferta mundial de manganês, e os analistas preveem que a demanda global do setor de baterias aumentará nove vezes na próxima década, conforme os fornecedores de veículos elétricos utilizam manganês de alta pureza para aumentar a eficiência das baterias e reduzir a combustibilidade.

Os trabalhadores dessas minas dizem ter sofrido com perda de memória, disartria e outros comprometimentos físicos relacionados à ingestão da poeira fina do minério.

A África do Sul também tem algumas das maiores reservas de manganês do mundo. A Ucrânia tem a quarta maior reserva conhecida do minério. Uma bacia de manganês está no sul do país, que a Rússia continua a bombardear durante sua invasão.

Produção de carros elétricos pode levar a problemas ambientais na mineração dos metais necessários Foto: FELIPE RAU / ESTADÃO

A reatividade e a leveza do lítio permitem aos veículos elétricos gerar a mesma energia e velocidade daqueles movidos a gasolina. Espera-se que a demanda por lítio aumente 40 vezes até 2040, com 80% dessa demanda provocada pelos veículos elétricos, de acordo com o Natural Resources Defense Council. Austrália, Chile e China lideram a mineração de lítio.

Três das maiores reservas atuais estão concentradas na região conhecida como “triângulo do lítio” da América do Sul, onde as salinas áridas da Argentina, da Bolívia e do Chile facilitam a extração de lítio simplesmente evaporando a água salgada das bacias. O aumento da demanda por lítio ameaça esgotar a oferta limitada de água da região, provocando a mudança de comunidades indígenas e prejudicando a natureza frágil.

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Em breve talvez surja outro fornecedor. O Afeganistão tem reservas inexploradas de lítio que podem rivalizar com as maiores do mundo. A China manifestou interesse em trabalhar com o governo Taleban para explorar essas reservas.

A demanda por cobalto deve aumentar 20 vezes até 2040.

Setenta por cento do cobalto do mundo é extraído na República Democrática do Congo. As mineradoras estatais da China dominam o setor. Entretanto, 15% das operações de mineração do Congo são informais, com mais de 200 mil pessoas trabalhando em minas não regulamentadas e mal ventiladas.

O Departamento de Trabalho dos EUA estima que entre 5 mil e 35 mil crianças, algumas com apenas seis anos, trabalhem nessas operações não regulamentadas.

O Congo também tem algumas das maiores reservas do mundo de cobalto. Conforme a demanda por cobalto aumenta, os ativistas pedem por uma fiscalização e regulamentação melhores.

“Qualquer resposta verdadeiramente ética a esse problema não apoiaria a retirada do (Congo) ou envolveria boicotes ao seu cobalto”, escreveu Mark Dummet, chefe do departamento de empresas e direitos humanos da Anistia Internacional. “Em vez disso, o que nós, como ativistas, consumidores, montadoras, mineradoras e governos precisamos fazer é pressionar por soluções práticas que coloquem os direitos humanos no centro da transição energética.”

O controle da China sobre a cadeia de suprimentos

Extrair os minerais do solo é apenas o primeiro passo. Eles quase nunca são puros e precisam ser refinados, ou processados, para se tornarem aqueles usados nas baterias.

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Quando o assunto é processamento, há uma figura central: a China, que lida com mais da metade dos minérios cruciais para as baterias de veículos elétricos. Esses componentes não são usados apenas para fazer os veículos elétricos funcionarem, eles também podem ser encontrados em quase tudo, desde materiais de construção até brinquedos. Mas, à medida que a demanda por peças de veículos elétricos aumenta, o mesmo pode acontecer com a dependência da infraestrutura de refino da China.

Os EUA estão tentando expandir sua cadeia de suprimentos. A Lei de Redução da Inflação de 2022 oferece um crédito fiscal de até US$ 7.500 para consumidores abaixo de uma determinada renda que compram modelos elétricos elegíveis. Mas a partir de 2025, um veículo elétrico que contenha qualquer minério proveniente ou processado na China não será aceito para o crédito total. Isso representa um problema para os consumidores que não querem gastar mais, pois Pequim controla a maior parte da infraestrutura de processamento do mundo e 75% da capacidade mundial de produção de baterias, de acordo com a Agência Internacional de Energia.

No curto prazo, os compradores de veículos elétricos podem ter problemas para garantir os créditos fiscais destinados a incentivar uma transição para a energia limpa. Mas, com o tempo, essas políticas poderiam ajudar a diversificar a cadeia de suprimentos dos veículos elétricos.

“Ainda vamos depender da China por muitos e muitos anos”, disse Paltsev.

O preço secreto dos carros menos poluentes

Como a demanda global por carros elétricos começa a superar a de modelos movidos a gasolina, os repórteres do Washington Post decidiram investigar as consequências não intencionais de um boom global desse tipo de veículo. Esta série explora o impacto nas comunidades locais, nos trabalhadores e no ambiente para conseguir os minérios necessários ao desenvolvimento e funcionamento dos veículos elétricos.

Metodologia

Os repórteres do The Washington Post coletaram e analisaram dados do Serviço Geológico dos EUA, da Agência Internacional de Energia, da Bloomberg, do Laboratório Zero Lab da Universidade Princeton e da Federação Europeia de Transportes e Meio Ambiente para estabelecer uma visão abrangente da oferta dos minérios cruciais no mundo e das demandas do mercado de veículos elétricos.

Com base nesses dados, os repórteres conversaram com garimpeiros, advogados, especialistas do setor e ativistas locais em alguns dos países mais afetados para entender melhor como a demanda por minérios vai afetar o meio ambiente e a vida das pessoas.

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