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Macron defende novo acordo Mercosul-UE que inclua pauta climática: ‘é péssimo como está’

Em fórum econômico na Fiesp, presidente francês criticou os termos atuais da negociação e pediu por nova redação que trate de redução de emissões e biodiversidade

Foto do author Carolina Marins
Foto do author Felipe Frazão
Por Carolina Marins e Felipe Frazão
Atualização:

SÃO PAULO - O presidente da França, Emmanuel Macron, defendeu nesta quarta-feira, 27, a redação de um novo acordo Mercosul-União Europeia que inclua a pauta climática. Em encontro com empresários na Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), o francês criticou os termos do acordo atual, citando falta de reciprocidade e demonstrou preocupação de que empresas que “não se preocupam com redução das emissões” entrem na França.

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“O acordo Mercosul-UE como está sendo negociado agora é um péssimo acordo. Foi negociado há 20 anos”, afirmou no discurso de fechamento do Fórum Econômico Brasil-França, em São Paulo, sua terceira parada na visita de Estado que faz ao Brasil. “Acho que tem que se considerar [no acordo] a biodiversidade e o clima, e isso não está, por isso não dá para defender, eu não defendo.”

Como antecipou o Estadão, o presidente francês pretendia evitar o acordo, que é motivo de divergências entre Brasil e França, e focar na “agenda comum” para os dois países, mas sabia que o livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia não poderia ser contornado.

Presidente da França Emmanuel Macron participa do "Fórum Econômico Brasil-França - Transição para Energia Verde" na sede da FIESP em São Paulo Foto: Daniel Teixeira/ ESTADAO

As discussões não estavam previstas na agenda oficial do francês ao Brasil. O tema, porém, foi trazido por empresários brasileiros durante reunião a portas fechadas. Em nota antes do discurso, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) disse que defenderia na reunião privada do francês com empresários brasileiros o avanço do acordo.

“Então precisamos deixar de lado noções de algo construído 20 anos atrás e buscar um novo acordo, construído com base em novos objetivos, que tenha o a luta contra o desmatamento, as mudanças climáticas e a luta pela biodiversidade no centro das prioridades”, continuou Macron.

O Itamaraty reconhece que houve uma “pausa” na evolução das negociações, por objeção política de Macron e por causa do calendário de eleições para o Parlamento Europeu, previstas para junho. Ao encontrar Lula em Brasília, sua última parada na viagem, Macron deve reiterar sua contrariedade e dizer claramente que “não está pronto” para assinar o acordo.

Presidente da França Emmanuel Macron chega ao Fórum Econômico Brasil-França e é recebido pelo Vice-presidente da República Geraldo Alckmin e presidente da FIESP Josué Gomes. Foto: Daniel Teixeira/ ESTADAO

Macron participou do evento junto com o vice-presidente Geraldo Alckmin, ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, que defendeu as conversações entre os dois blocos. “O Mercosul ampliou mais um país este ano, que é a Bolívia. Fizemos um acordo com Cingapura e houve conversas com a União Europeia. O presidente Lula sempre fala que tem que haver reciprocidade. É o ganha-ganha. Nós conquistamos mercado, nós abrimos o mercado”, afirmou em discurso anterior ao de Macron.

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Antes, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que tem esperanças de ver o acordo avançar em breve. “Não devemos desistir desse acordo. Se foi possível aprovar a reforma tributária depois de 40 anos, por que não, depois de 20 aprovar um bom acordo União Europeia e o Mercosul”, disse.

Lula optou por não participar da viagem a São Paulo depois de encontrar Macron em Belém e Itaguaí. No Rio, Lula e Macron lançaram ao mar o Submarino “Tonelero” (S42), batizado pela primeira-dama, Janja Lula da Silva. Desde o ano passado, os dois governos discutem aumentar o escopo da cooperação em Defesa, que permitiu o lançamento do programa PROSUB pela Marinha do Brasil.

Os dois se reunirão novamente amanhã em Brasília. Com Macron estiveram na capital paulista: Stéphane Sejourné, ministro da Europa e dos Assuntos Exteriores, e Chrysoula Zacharopoulou, secretária de Estado para o Desenvolvimento e Parcerias, além de uma delegação de mais de 140 representantes de empresas francesas, em que ⅔ seriam pequenas e médias empresas, segundo o Palácio do Eliseu.

A passagem por São Paulo compreende um dos quatro eixos temáticos da visita de Estado do francês. Na capital paulista, o foco foi atrair mais investidores brasileiros para a França. Um tema que Macron se queixou por considerar que há uma falta de reciprocidade nos negócios entre França e Brasil. Diplomatas franceses reclamam do baixo nível de investimento originário do Brasil e do desequilíbrio no fluxo de investimentos diretos por controlador final.

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Segundo dados da embaixada, os investimentos franceses no Brasil seriam da ordem de 40 milhões de euros, enquanto os recursos brasileiros aplicados na França seriam cerca de 2 milhões de euros. Um integrante do Ministério das Relações Exteriores da França afirma que o governo Macron busca “investimentos produtivos” e que comprar “vinhos e imóveis não geram sinergia nem emprego industrial”.

“As empresas francesas acreditam no Brasil, eu acredito que elas têm razão. Acho que as empresas brasileiras deveriam acreditar mais na França e na Europa”, disse, citando que o fluxo comercial entre os dois países voltou a ritmos anteriores à pandemia de covid-19.

“Por que as empresas brasileiras devem acreditar mais na França? Os investidores brasileiros no nosso país não tem o mesmo nível que os investimentos franceses no Brasil”. Macron cita números econômicos da França ao justificar que seu país é “o país mais atraente da Europa”. “Nada pode justificar esse número [de investimentos brasileiros na França]. É preciso fazer mais, ao fazerem isso a França será a porta de entrada para o mercado europeu.”

O francês ainda destacou uma agenda em temas “ambiciosos” que ambos os países buscam alcançar, entre eles: um projeto para um instituto de pesquisa franco-brasileiro na Amazônia, que deve permitir um investimento por meio de uma rede das universidades da região; um projeto de hub de empresas, para investir em pesquisa e desenvolvimento e ampliar as tecnologias de ponta na bioeconomia; uma parceria financeira com bancos públicos brasileiros, que deve nos permitir investir pelo menos 1 bilhão de euros em bioeconomia no Brasil nos próximos quatro anos.

Da Fiesp, Macron se dirigiu à Universidade de São Paulo (USP), onde inaugurou o Instituto Pasteur. De lá seguiu para o Liceu Pausteur, onde se reúne com o instituidor da Fundação Gol de Letra, Raí Oliveira, e membros da comunidade francesa em SP. A noite termina com um jantar com artistas e esportistas nos arredores da Avenida Paulista, onde havia a expectativa do francês fazer uma caminhada noturna, apesar da chuva.

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