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Plataformas visam eliminar desperdício de alimentos e combate à fome com tecnologia

Iniciativas usadas por empresas como Unilever e Nestlé redirecionam comida ainda própria para o consumo que iria para o lixo a entidades cadastradas; itens servem para complementar refeições

Foto do author Luis Filipe Santos
Por Luis Filipe Santos
Atualização:

Enquanto pessoas passam fome, toneladas de alimentos ainda aptos para o consumo são desperdiçadas. Para tentar evitar esse cenário, ONGs e empresas sociais têm buscado a tecnologia para levar comida a quem mais precisa dela.

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De acordo com o relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo”, divulgado pela Organização das Nações Unidas em julho do ano passado, 21 milhões de brasileiros não têm acesso a alimentos diariamente, e 70,3 milhões estão em situação de insegurança alimentar. O relatório também revela que há 10 milhões de pessoas desnutridas no País.

Por outro lado, estudo da Nestlé e da empresa de pesquisa digital Mindminers estima que, a cada ano, 60 quilos de alimentos perfeitos para o consumo são jogados fora para cada brasileiro. Outras 26,3 milhões de toneladas são desperdiçadas entre produção e transporte, antes mesmo de chegar à mesa, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento Social de 2016 (os mais recentes disponíveis).

O trabalho de algumas entidades que lidam com o tema tem sido organizado da seguinte forma: um supermercado, indústria ou outros estabelecimentos que trabalham com comida informam na plataforma que há alimentos que podem ser doados; a ONG mais próxima que fornece refeições e está cadastrada na base de dados é designada para recolhê-los e utilizá-los para complementar refeições. A quantidade e a qualidade são medidas na própria plataforma, por meio de informações que devem ser postadas pelas ONGs.

Alimentos doados pelo Grupo Pão de Açúcar por meio da Connecting Food Foto: Nubia Abe / Grupo Pão de Açúcar

As doações são permitidas pela lei 14.016/2020, aprovada durante a pandemia. A lei permite doações de estabelecimentos que trabalham com comida, estabelecendo como condições de que deve estar no prazo de validade e apto para o consumo, ainda que com danos à embalagem, e que devem ser encaminhados para pessoas necessitadas. Em caso de algum problema de saúde causado pelos alimentos, doador e intermediário são responsabilizados apenas se agirem com dolo (intenção).

Se a lei é criticada por ter poucas salvaguardas, também facilitou o trabalho de doação e deu mais segurança jurídica. Assim, organizações que já trabalhavam dessa forma tiveram a atuação facilitada. Um exemplo é a empresa social e “foodtech” Connecting Food, que iniciou os trabalhos em 2016.

Tendo conquistado os primeiros clientes em 2018, a Connecting Food é paga pelas empresas doadoras para redirecionar os alimentos. O modelo é parecido com o da ONG Infineat, que se define como uma filantech (uma entidade filantrópica tecnológica). As duas organizações têm a tecnologia como principal trunfo para redirecionar alimentos e complementar refeições ― modelo que difere de um banco de alimentos.

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A tecnologia facilita o recolhimento para que as entregas ocorram de forma rápida, o que evita perdas. Nesse modelo, é possível doar até mesmo produtos que se perderiam com rapidez, como carnes e produtos lácteos ― embora frutas e vegetais também componham grande parte do redirecionamento. A Infineat conta com a Unilever na carteira de clientes, enquanto a Connecting Food tem o Grupo Pão de Açúcar (GPA), Nestlé e Camil, entre outros.

Números

Em três anos de atuação, a Infineat calcula ter coletado e redistribuído mais de 3,2 mil toneladas de alimentos, que foram utilizados para complementar 5,42 milhões de refeições, atendendo a demanda de 120 instituições sem fins lucrativos. Como diferencial da atuação, o CEO da ONG, Alexandre Vasserman, cita o recebimento e utilização de dados.

“Toda a cadeia é muito metrificada. Nós conseguimos mensurar tudo, seja de uma loja ou de uma rede. Assim, é possível compreender o impacto específico e abrangente, chegamos num conhecimento sobre a operação que nem o parceiro ou o setor tinham”, diz Vasserman. Assim, para cada real investido na operação, R$15,60 é retornado em recursos redirecionados. A Infineat é paga por alguns clientes, mas também recebe doações em dinheiro de filantropos.

No trabalho de gestão, as organizações também fazem a gestão de processos para evitar perdas ainda na cadeia. “Com tecnologia e inteligência, processos, controles, conseguimos minimizar o impacto nas duas pontas, reduzir perdas e maximizar doações”, relata Alcione Silva, CEO da Connecting Food, que obtém recursos principalmente das empresas que doam os alimentos.

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Ambas as organizações contam que, para escolherem as ONGs que recebem os alimentos, é preciso selecionar bem, já que há muitas interessadas. A demanda cresceu com a pandemia, com as empresas buscando doar para fortalecer as políticas ESG (ambiental, social e de governança) por um lado, e ONGs tentando fortalecer o trabalho que realizam para atender as necessidades das pessoas, do outro.

“Fazemos uma análise de riscos de atuação, das políticas internas das empresas, jurídicas, que as empresas buscam cumprir, e da demanda e arcabouço para que possam receber alimentos. Tem uma grande busca por esse mercado de impacto social”, relata Alcione.

Ação da empresa Connecting Food com ONG Sim! Eu Sou do Meio, da Baixada Fluminense; ONG serve refeições prontas e permite que moradores de Belford Roxo levem frutas e vegetais para casa Foto: Filipe Acosta / Connecting Food

Segundo Vasserman, a certificação é apenas a primeira etapa para as ONGs que trabalham com a Infineat. “Vamos em busca de ONGs parceiras nos locais em que há lojas ou indústrias. Treinamos as duas partes, pela internet, sobre como tem que coletar, separar e pesar, e usar o app. Com os dados, podemos saber se estão doando tudo que podem ou não, qual o tipo de produto e a qualidade”, explica o CEO.

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Ao Estadão, a Unilever afirmou que o trabalho com a Infineat faz parte da estratégia ESG da companhia, capitaneado pela marca Hellmann’s e apoiada por outras, como Knorr, Arisco, Mãe Terra, Cremogema e Maizena. Segundo Rodrigo Visentini, líder da Unidade de Negócio Nutrição da Unilever para o Brasil, a partir da parceria foram estabelecidos controles rígidos sobre o desperdício em toda a cadeia. “Nossos indicadores de desperdício na fábrica e centros de distribuição caíram pela metade de 2020 a 2023 e são benchmark global da Unilever e da indústria”, afirma.

Parceiro da Connecting Food, o GPA menciona que a parceira está presente em todas as lojas Pão de Açúcar, Extra Mercado, Minuto Pão de Açúcar, Mini Extra e PA Fresh. A empresa social aprimorou o programa Parceria Contra o Desperdício, existente desde 1995, a partir de 2018.

“Nossa parceria com a Connecting permite que aprimoremos os processos que envolvem a redistribuição de alimentos, como o acompanhamento da destinação do que é doado até os beneficiários finais; a sensibilização sobre a importância do programa com lojas e organizações; e a mensuração do impacto social gerado pelo programa”, menciona Renata Amaral, Gerente do Instituto GPA. A estimativa é que 8 milhões de pessoas tenham sido impactadas por meio do redirecionamento entre 2019 e 2023, e 1,7 mil toneladas de alimentos tenham sido doadas.

Ação da empresa Connecting Food com ONG Sim! Eu Sou do Meio, da Baixada Fluminense; ONG serve refeições prontas e permite que moradores de Belford Roxo levem frutas e vegetais para casa Foto: Filipe Acosta / Connecting Food

Impacto

Reduzir o desperdício é suficiente para lidar com a fome no Brasil? Os líderes das ONGs demonstram confiança que a atuação pode gerar impactos positivos grandes, mas há dúvidas sobre a capacidade de causar, de fato, a diferença.

A pesquisadora do Grupo de Promoção de Saúde e Segurança Alimentar e Nutricional da Faculdade de Saúde Pública da USP e professora da PUC-PR Vanessa Daufenback afirma que a fome tem múltiplos fatores e, portanto, demanda soluções em diversos pontos da cadeia, desde a produção até o consumo de alimentos. “A doação de alimentos por meio da filantropia, mediada ou não pela tecnologia, representa uma parte deste enfrentamento no que diz respeito a ações de distribuição emergencial. Mas mesmo programas maiores declaram conseguir apenas complementar as necessidades diárias de seus beneficiários”, diz a doutora.

De acordo com Daufenback, o desperdício é apenas um dos problemas do modo de funcionamento do sistema alimentar, que também tem longas cadeias de produção e transporte que muitas vezes consomem recursos naturais e geram emissões de gases de efeito estufa pelo uso de combustíveis fósseis, uso excessivo de agrotóxicos, baixa remuneração de agricultores familiares e outros problemas.

Assim, a doação de alimentos, ainda é uma medida insuficiente para suprir necessidades em termos de qualidade e quantidade. “Ela funciona como complemento às refeições dos seus beneficiários, além de servir à empresas doadoras que lucram com dedução de impostos, boa imagem pública e economia no descarte de alimentos”, cita.

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Ainda assim, Vasserman e Alcione demonstram confiança em gerar o máximo de impacto. “Preciamos entender o quanto é poderoso usar um recurso que já existe para resolver e transformar o que seria desperdício em algo positivo. Conseguimos ter impacto absurdo na questão da segurança alimentar, e ajudar a transformar negócios sociais no Brasil”, diz Vasserman. Hoje, a Infineat atua em 18 Estados brasileiros, sendo que, em 13 deles, as operações foram iniciadas em 2023.

A Connecting Food, presente em todos os Estados e no Distrito Federal, segue por linha parecida, em acreditar que a indústria precisa de uma solução para o desperdício. “O Brasil tem potencial infinito de doação de alimentos. Podemos conseguir mais doadores de alimentos e na indústria, de uma forma geral, para que possamos continuar levando alimento para as pessoas”, cita.

Entre os caminhos citados pela professora Vanessa Daufenback para lidar com o tema, além das doações, estão políticas públicas de acesso à alimentação saudável e adequada, com oferta de refeições e alimentos in natura e minimamente processados a baixo custo, principalmente em territórios empobrecidos; políticas de redistribuição de renda; incentivo ao trabalho formal; incentivo à agricultura familiar com reforma agrária, acesso à terra e assistência técnica; e ações específicas destinadas a comunidades vulneráveis urbanas e rurais.

Ação da "filantech" Infineat com a ONG Remar, que também age contra a fome Foto: Jorge Almeida / Remar

Histórias

Entre as ONGs que recebem os alimentos redirecionados, as doações são vistas como fundamentais para manter e expandir a atuação. Mais refeições podem ser oferecidas e com maior variedade; também permite que os recursos financeiros sejam usados para outras finalidades no atendimento.

Um exemplo é a ONG Sim! Eu sou do Meio, que atua em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Iniciada como uma cozinha solidária, serve refeições prontas porque muitos moradores não conseguem levar cesta básica por não ter como cozinhar em casa. A atuação começou durante a pandemia, com a fundadora, Débora Silva, muitas vezes pegando comida pronta do bandejão da UFRJ, onde estudava, até serem proibidos de levar.

A partir de então, com um fogão, começaram a coletar doações e preparar as refeições, até chegar a 2 mil servidas por mês atualmente. Silva conta que, após se inscreverem e mostrarem o trabalho para a Connecting Food, conseguiram fornecer mais e expandir a atuação ― hoje, por exemplo, conseguem dar cursos para geração de renda para mulheres, como de panificação e confeitaria, e fornecer algumas sacolas de verduras, frutas e legumes para famílias que precisam de alimentos nutritivos.

“Temos uma nutricionista há alguns anos, para que o alimento chegue com qualidade suficiente, e ajude a manter a saúde”, diz a gestora da Sim! Eu Sou do Meio. Ela destaca que a questão emocional e afetiva também interfere. “Vemos o olhar das crianças que recebem a refeição. Uma história que eu lembro foi a de um menino que, para avaliar a comida do dia, escolheu uma carinha feliz e desenhou uma fruta, porque o momento especial era o momento do lanche e tinha uma maçã gostosa”, relata.

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Em janeiro, com as inundações que atingiram a Baixada Fluminense, a ONG conseguiu fornecer 14 mil refeições.

Histórias parecidas também são relatadas pela Infineat. Uma das ONGs ajudadas, a Remar menciona que as doações obtidas por meio da plataforma tecnológica são fundamentais. “Dos kits de legumes servidos durante o dia, quase 100% são redirecionados dos supermercados onde a Infineat atua”, conta Eduardo Ferreira, gestor da Remar.

A ONG também atua na questão da fome, embora também faça outros trabalhos, como em casas de acolhimento para pessoas em situação de rua e dependentes químicos, ou de socorro em casos de desastres ambientais. “Organizamos as coletas para poder servir às pessoas vulneráveis”. Ele relata casos de pessoas que conseguiram ganhar 13 quilos em um mês, após serem acolhidos nas casas, ou de quem conseguiu economizar na refeição e teve dinheiro para comprar uma passagem de ônibus e chegar até uma entrevista de emprego.

Ação da "filantech" Infineat com a ONG Remar, que também age contra a fome Foto: Jorge Almeida / Remar

Oportunidade de negócio

Além da tentativa de redirecionar alimentos, também há quem veja como uma oportunidade de negócio. A startup Food To Save viu essa oportunidade ao reduzir o desperdício por meio da venda de sacolas “surpresa” com cerca de um quilo, compostas por itens salgados ou doces, vendidas por pequenos mercados e estabelecimentos para pessoas próximas por meio de um aplicativo criado por eles.

Normalmente, os produtos são disponibilizados perto da hora em que o estabelecimento fecharia as portas, embora também seja possível pegar em qualquer hora do dia. Assim, é possível obter vegetais, nas sacolas “salgadas”, ou um bolo que tenha sobrado numa padaria, nas doces. Também há opções de sacolas mistas. Contudo, o cliente só fica sabendo o que recebeu quando abre a sacola ― ele só pode escolher uma de alimentos doces, salgados, ou uma mista.

As sacolas são vendidas com cerca de 70% de desconto em relação ao preço que seria cobrado normalmente por cada item. Para o ponto de venda, não há custo em integrar o aplicativo, que fica com parte do lucro da venda, e há acompanhamento em relação à qualidade. “O estabelecimento gera uma receita em vez de perda, o usuário tem algo apto para consumo, e há impacto positivo para o meio ambiente”, conta Murilo Ambrogi, chefe de marketing da empresa.

O aplicativo já teve dois milhões de downloads e hoje está presente nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Curitiba. A intenção é expandir para outras cinco capitais do País ainda este ano.

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