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PIB cresce 1% no primeiro trimestre, puxado pelo setor de serviços

No período, os serviços tiveram alta de 1%, enquanto a indústria cresceu apenas 0,1% e a agropecuária recuou 0,9%

Por Daniela Amorim (Broadcast) e Vinicius Neder
Atualização:

RIO - A retomada mais forte das atividades presenciais, após o arrefecimento da pandemia, impulsionou o setor de serviços no primeiro trimestre. E foi esse setor, ajudado pelas atividades exportadoras, que fez o Produto Interno Bruto (PIB, a soma de todo o valor gerado na economia) subir 1% no primeiro trimestre, segundo dados divulgados nesta quinta-feira, 2, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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Com a normalização das atividades, o setor de serviços puxou a economia pelo lado da oferta, com avanço de 1% ante o quarto trimestre de 2021, enquanto a indústria cresceu 0,1% e a agropecuária caiu 0,9%.

O número veio abaixo do número esperado pelo mercado, de 1,2%, segundo levantamento do Projeções Broadcast. Mesmo assim, foi considerado como bastante positivo pelo mercado. Os economistas passaram a subir suas previsões para o ano, com muitos analistas já falando em um crescimento de 2%. Mas há dúvidas se é um ritmo de crescimento sustentável, especialmente levando-se em conta o aumento das taxas de juros, que tem o efeito de derrubar a atividade econômica para conter a inflação.

“Uma parte da explicação sobre 2022 é que 2021 não acabou. Não tínhamos conseguido reabrir toda a economia ano passado”, disse Silvia Matos, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) e coordenadora do Boletim Macro Ibre.

Do lado da demanda, a normalização do funcionamento dos negócios também permitiu ao consumo das famílias crescer 0,7% na comparação com os três últimos meses de 2021. A normalização favorece o consumo porque permite a satisfação da demanda reprimida por serviços como bares, restaurantes, turismo e lazer – os serviços respondem por boa parte do consumo, especialmente entre as famílias de maior poder aquisitivo.

No curto prazo, a normalização também vem impulsionando a melhora do mercado de trabalho, especialmente porque os serviços mais afetados pelas restrições ao contato social – como bares, restaurantes, hotéis, casas de show, cinemas e salões de beleza – geram muitos empregos. No trimestre móvel encerrado em abril, a taxa de desemprego caiu, embora as novas vagas de trabalho estejam pagando salários menores do que antes da pandemia. 

Garçom trabalha em restaurante;desempenho da áre de serviços impactou o resultado do PIB no primeiro trimestre Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Conforme Guilherme Mercês, chefe da Divisão de Economia e Inovação da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a melhora no mercado de trabalho também ajudou a sustentar o consumo das famílias. Embora os salários dos novos empregos estejam mais baixos do que antes da pandemia, com mais trabalhadores ocupados, há mais gente reforçando os orçamentos domésticos, impulsionando a demanda. O aumento das transferências de renda, com a introdução do Auxílio Brasil de R$ 400, e antecipações do 13º-salário para pensionistas também ajudam. “A retomada do emprego tem sido o principal fator de surpresa, para explicar os números de comércio e serviços. Isso acontece mesmo com o rendimento médio caindo”, afirmou Mercês. O crescimento parece ter se mantido neste segundo trimestre, mas as dúvidas sobre o ritmo da economia de meados do ano em diante se justificam por causa da inflação elevada e dos remédios amargos para enfrentá-la. Causada ainda pelos desequilíbrios associados à pandemia e agravada pela guerra na Ucrânia, a inflação – espalhada, com alta em torno de 12%, no acumulado em 12 meses – corrói os rendimentos das famílias, que tenderão a consumir menos. Para conter os reajustes de preços, o Banco Central (BC) age para esfriar a economia. Desde março do ano passado, a Selic, taxa básica de juro, saltou de 2,0% para 12,75% ao ano. “Está faltando um motor para a economia. A inflação é sinal de que está faltando ‘gasolina’ no motor”, afirmou Matos, do Ibre/FGV.

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Na verdade, os efeitos de mais inflação e juros já se fizeram sentir no primeiro trimestre, segundo Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE. Na comparação com os três primeiros meses de 2021, a taxa de inflação praticamente dobrou, enquanto, na média, a Selic passou de 2,0% ao ano, no primeiro trimestre de 2021, para 10,1% em igual período deste ano. Entre os dois cenários, o consumo das famílias cresceu 2,2%. Mesmo assim, chegou ao primeiro trimestre deste ano 0,7% abaixo do nível do quarto trimestre de 2019, o último antes da pandemia, e 1,2% abaixo do máximo já registrado, no primeiro trimestre de 2014.

“Não fosse a inflação e a Selic (mais elevadas), o consumo poderia ter aumentando mais”, afirmou Palis. “E o mercado de trabalho está meio de lado ainda. Cresce a ocupação, mas com rendimento em queda. A massa salarial real está muito afetada pela inflação”, completou.

Para piorar, a falta de combustível no motor do crescimento poderá ser reforçada pelo excesso de endividamento, lembrou Mercês, da CNC. Segundo o economista, as sondagens de confiança da entidade mostram que oito em cada dez famílias têm dívidas a vencer. É o maior nível de endividamento em 12 anos. Ainda que esse item meça todo tipo de dívida, não apenas aquelas em atraso, isso sugere que os aumentos de juros feitos até agora pelo BC poderão ter um efeito ainda maior. Ao encarecer parcelas de financiamentos, principalmente das famílias que recorrem ao cartão de crédito, a alta dos juros deixará ainda menos recursos para o consumo nos orçamentos domésticos, disse Mercês. O economista ainda teme que, diante de uma inflação elevada e mais persistente, o BC seja obrigado a manter os juros em patamar alto por mais tempo. Isso porque há sinais de inflação generalizada, como a aceleração dos preços de serviços – que já acumulam alta em torno de 8,0% em 12 meses. Diferentemente dos preços de alimentos e combustíveis, que sobem por causa de choques, mas podem arrefecer em seguida, os preços de serviços são mais difíceis de ceder e só reagem a uma economia mais fria. 

A inflação elevada também ameaça outro motor do crescimento econômico do primeiro trimestre, a demanda externa. As exportações saltaram 5% ante o quarto trimestre de 2021, enquanto as importações caíram 4,6%, dando uma contribuição positiva para o crescimento. Essa demanda ajudou a impulsionar as atividades mais voltadas para as exportações, como a agropecuária, apesar do mau desempenho do setor no primeiro trimestre. Diante da quebra na safra de soja, afetada, principalmente, pela seca que atingiu a região Sul do País durante o verão, a agropecuária registrou queda de 0,9% ante os três últimos meses de 2021 e tombo de 8,0% sobre o primeiro trimestre do ano passado.

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Apesar da queda na produção, o que foi colhido foi direcionado para as exportações, explicou Palis, do IBGE. O mercado externo também é o destino de boa parte da produção de carne. Na comparação como o trimestre imediatamente anterior, a alta nas exportações é explicada, também, pelo fato de que, no fim do ano, não tem colheita da soja, a principal cultura agrícola nacional. Ou seja, mesmo que o desempenho da atual safra tenha sido pior do que a anterior, há impulso positivo nas exportações.

Daqui para a frente, esse motor do crescimento econômico do primeiro trimestre, a demanda externa. As exportações saltaram 5% ante o quarto trimestre de 2021, enquanto as importações caíram 4,6%. Essa demanda ajudou a impulsionar as atividades mais voltadas para as exportações, como a agropecuária, cujo desempenho costuma ser positivo em todos os primeiros trimestres, por causa da colheita da soja, uma das principais culturas nacionais. Esse motor do crescimento está ameaçado porque a carestia se espalha por praticamente todos os países. Em reação, o movimento de elevação dos juros é mundial. 

E, à medida que os bancos centrais forem subindo juros para combater a inflação, especialmente nos Estados Unidos, o crescimento da economia global também perderá ímpeto, freando essa demanda externa. Além de menos compras de matérias-primas produzidas pelo Brasil, a freada tende a provocar desvalorização nas cotações internacionais desses produtos, o que tende a reduzir o fluxo de dólares para o mercado brasileiro, desvalorizando o real e aumentando o risco-País. Para piorar, a agropecuária, um dos setores mais beneficiados pela demanda externa, ainda enfrenta uma elevação de custos nunca vista, na esteira do choque causado pela guerra na Ucrânia.

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