Caso Mantega na Vale renova temor de investidor estrangeiro sobre ingerência política na economia

A volta do ‘capitalismo de Estado’ e da ‘política industrial ativista’ no governo Lula é preocupação apontada por investidores

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Por Aline Bronzati

NOVA YORK - O imbróglio envolvendo a tentativa do governo de indicar o ex-ministro Guido Mantega ao comando da Vale elevou o temor de investidores estrangeiros quanto aos riscos de interferência política na economia durante o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Além da preocupação com a influência em empresas controladas ou com participação estatal, pesam ainda sinais de que sua gestão está repetindo um filme visto no passado, no qual o “capitalismo de Estado” foi implementado e não deu certo, na visão de especialistas.

Imbróglio envolvendo a tentativa do governo de indicar o ex-ministro Guido Mantega ao comando da Vale elevou o temor de investidores estrangeiros quanto aos riscos de interferência política na economia Foto: Ed Ferreira/Estadão

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A ingerência política foi o principal questionamento de investidores e analistas estrangeiros durante evento da Petrobras, realizado em Nova York, nesta semana. O tema foi desdobrado em questões sobre a convivência da petroleira com o governo, com os espectadores em busca de detalhes de como funciona essa relação e se a estatal recebe ordem direta do governo ou não, conforme contou o presidente da companhia, Jean Paul Prates, em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast.

Preocupações com a interferência estatal do governo Lula também apareceram em um debate sobre as perspectivas econômicas e políticas do Brasil, organizado pela Confederação de Comércio Brasil-Estados Unidos, em Nova York, na terça-feira, 30. Da plateia, o interesse era saber a opinião de especialistas do Brasil e dos EUA sobre a “política industrial ativista” e desdobramentos inflacionários futuros.

“Lula está empenhado em trazer de volta o Estado. Ele está insatisfeito com a ideia do empreendedor individual. Ele quer voltar ao modelo antigo e está comprometido com isso”, respondeu o economista e professor emérito das universidades de Columbia e da Califórnia, em Berkeley, Albert Fishlow, também colunista do Estadão.

Prates, que já foi senador e hoje comanda a maior empresa do País, vê o tema com “naturalidade” e afirma que não enxerga exagero na intervenção estatal no governo Lula. “É natural que as pessoas pensem que essas estatais, não só a Petrobras, são espécies de ‘longa manus’, tentáculos do Estado”, disse. “Agora, também é preciso entender que, do outro lado, tem gestores e pessoas que têm de argumentar o contrário.”

Bandeira

Em relatório intitulado “a nova política industrial de Lula é uma bandeira vermelha”, a consultoria internacional GlobalData. TS Lombard avalia que o presidente Lula contribui para a incerteza econômica ao interferir em empresas listadas em bolsa. A ofensiva em relação a Mantega é prova disso, diz.

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, defendeu, contudo, que não houve uma imposição em colocar o ex-ministro na Vale. Na sua visão, a participação do governo na discussão de sucessão da mineradora é legítima, uma vez que detém dois assentos no Conselho de Administração por meio da Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil.

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“Nós não faremos nada que possa desrespeitar a governança da empresa. Nós não fazemos isso com a Petrobras, em que somos controladores”, afirmou Silveira, em entrevista ao Estadão/Broadcast, mês passado durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.

Ainda que não tenha se concretizado, a movimentação para colocar Mantega na Vale voltou a acender a luz amarela entre os investidores estrangeiros. “Esse tipo de intromissão apenas confirma os temores dos investidores em relação ao governo Lula e pesa nos ativos locais”, alerta a diretora para Brasil e o economista da GlobalData. TS Lombard, Elizabeth Johnson.

Foi inclusive tema de uma matéria de uma página no britânico Financial Times, que discorreu sobre a volta do capitalismo de Estado no Brasil. Com a imagem da refinaria Abreu e Lima, cujas obras foram retomadas depois de anos, o texto traz os esforços do presidente Lula para fortalecer o papel do Estado brasileiro.

Para o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, esse é um modelo que não funcionou historicamente. “A ideia de que, repetindo as mesmas coisas do passado, você vai ter um resultado diferente, causa certa ansiedade entre os investidores. O filme foi visto, não deu certo e está se repetindo. Essa é uma preocupação”, disse, em entrevista ao Estadão/Broadcast.

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De acordo com ele, o foco em terminar obras que já tinham sido iniciadas faz muito mais sentido do que começar do zero. “Mas uma maior influência do Estado na economia é algo que normalmente não é bem visto pelo setor privado internacional”, alertou.

Também pode dificultar a retomada do Brasil pelo grau de investimento, perdido em 2015. No ano passado, a Fitch Ratings e a S&P Global Ratings elevaram a nota de crédito do Brasil, que passou de ‘BB-’ para ‘BB’. Pela Moody’s, o País tem ‘Ba2′. Assim, está a dois níveis de distância de recuperar o selo de bom pagador, considerando a escala das três maiores agências de rating do mundo.

“Tudo vai depender do impacto fiscal (da ação estatal do governo)”, diz uma pessoa ligada a uma grande agência de classificação de risco, na condição de anonimato. “Os principais pontos negativos ainda são o fiscal e o crescimento.”

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Para Albert Fishlow, no fim das contas, o Brasil é como um quebra-cabeça difícil de ser montado. “A população não acredita mais no governo, as decisões são baseadas no mês seguinte em vez de ações pensando no longo prazo”, disse. “E estamos vendo isso de novo.”

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