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Crédito de carbono do mangue e capa para fruta: projetos do ensino médio brasileiro competem nos EUA

Sustentabilidade e biodiversidade são temas recorrentes entre os nove finalistas brasileiros que irão para competição internacional na Califórnia

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Por Isabela Moya
Atualização:

A iniciação científica não é só para universitários e é isso que mostram alunos do ensino médio finalistas da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), um programa de talentos que estimula a inovação. Os nove finalistas da feira brasileira vão agora competir internacionalmente, na Califórnia, Estados Unidos.

Dentre os diferentes temas pesquisados, apareceram com frequência aqueles relacionados à sustentabilidade e à biodiversidade do País.

  • Grande parte dos trabalhos finalistas da feira estava alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e busca soluções para problemas complexos que afligem o planeta e as comunidades em que os estudantes estão inseridos.

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Gabriel Ruediger, aluno do Colégio Visconde de Porto Seguro, na capital paulista, escolheu desenvolver uma iniciativa para preservar os manguezais brasileiros, identificando uma oportunidade de gerar o que chamou de “lucro sustentável” por meio do mercado de carbono azul, isto é, o carbono sequestrado e armazenado pelos ecossistemas costeiros e marinhos.

O seu projeto intitulado Calcula-Mangue é um protocolo para avaliar o estoque de carbono em manguezais, tomando como referência a Reserva Biológica Estadual de Guaratiba, no Estado do Rio de Janeiro.

Projeto intitulado Calcula-Mangue é um protocolo para avaliar o estoque de carbono em manguezais Foto: Taba Benedicto/Estadão

Como resultado, o estudante confirmou a sua hipótese de que há como converter o carbono armazenado nos mangues em uma fonte de renda sustentável. “Estimei o lucro sustentável da região alcançando quase R$ 3 milhões com carbono azul”, conta, enfatizando a importância de preservar os mangues brasileiros.

“Observei que há um novo ambiente que está sendo criado que é o mercado de carbono, em que se tem uma indústria que está emitindo CO2 e quer compensar aquilo de forma que não afete sua produtividade. Então ela investe através de crédito de carbono em regiões que preservam o meio ambiente simplesmente por fazer fotossíntese e sequestrar e armazenar esse carbono na terra”, explica Gabriel.

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Ele decidiu focar em outro ecossistema que não a Amazônia: “Quando você pensa em desmatamento, você pensa em Amazônia, mas não lembra que tem uma composição tão complexa quanto os manguezais nacionais, e o Brasil é o segundo país com maior abundância desse ecossistema no mundo inteiro”.

Para isso, o estudante precisou ir muito além dos conhecimentos e habilidades adquiridos em sala de aula, aprendendo cálculos que não são ensinados no ensino médio e usando imagens de satélite e habilidades de programação para construir um algoritmo próprio.

O estudante desenvolveu ainda uma cartilha de informações que pretende distribuir de forma gratuita para ONGs, museus e embaixadas.

Estudante precisou ir muito além dos conhecimentos e habilidades adquiridos em sala de aula, aprendendo cálculos que não são ensinados no ensino médio Foto: Taba Benedicto/Estadão

Frutas

Durante o terceiro ano do ensino médio na Escola Estadual Luiz Girão, em Maranguape, no Ceará, Gabrielle Rodrigues realizou uma pesquisa comprovando que é possível produzir um revestimento comestível à base de mandacaru e cera de carnaúba para aumentar o “tempo de prateleira” de frutas e hortaliças.

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A escolha pelo mandacaru e pela cera de carnaúba se deu em função de serem espécies em abundância no Ceará, e a mistura dos dois resultou em um conservante saudável, biodegradável, sustentável e que mantém as características dos frutos, como a cor, o sabor, a textura e o odor – diferente dos revestimentos comuns no mercado, geralmente feitos de parafina, que “fazem mal à saúde”, segundo a estudante.

A motivação de Gabrielle veio pelo interesse na questão do desperdício de alimentos e do combate à fome. “30% dos alimentos produzidos no mundo são desperdiçados. Então, eu decidi criar esse revestimento como alternativa para minimizar esses problemas na cadeia produtiva de alimentos, principalmente de frutas e de hortaliças”, conta.

Gabrielle Rodrigues criou um revestimento feito com cera de carnaúba e mandacaru para aumentar o tempo de prateleira de frutas e hortaliças Foto: Febrace

A história de Gabrielle se assemelha com a de Ana Rebeka Monteiro, também aluna de uma escola estadual no Ceará, a Escola Marconi Coelho Reis, na cidade de Cascavel. As duas estudantes desenvolveram suas pesquisas no laboratório de escolas estaduais e faziam um contraturno após as aulas para estudar e desenvolver seus trabalhos.

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Ana Rebeka também teve a ideia de desenvolver um revestimento, mas o seu foi feito com a casca da beterraba. “Lemos em alguns artigos que as cascas de beterraba são pouco utilizadas, porém são ricas e compostos bioativos”, conta.

“Então fiz a coleta de casca de beterraba e retirei um extrato, que usei para produzir o meu polímero. Depois que o meu polímero fermentou, triturei ele com o resíduo do extrato da casca da beterraba. E isso dá origem ao meu revestimento”, completa. O conservante custa apenas 28 centavos a cada 200 gramas.

A estudante queria produzir um composto que substituísse agroquímicos e que fosse de baixo custo para ser usado pelos agricultores familiares de sua região.

“A maioria dos pais dos alunos da minha escola trabalham com agricultura, então a gente fez uma visita a esses agricultores nas hortas e apresentou o projeto. Fizemos um workshop ensinando como produzir esse revestimento, já que é tão simples. Foi um contato muito legal porque fomos capazes de impactar a vida desses agricultores socialmente, que era o objetivo desde o início”, diz Ana Rebeka.

Ana Rebeka Monteiro apresentou seu projeto sobre um conservante à base de casca de beterraba na Febrace 2024 Foto: Febrace

As duas pesquisas feitas pelas alunas impactaram em suas escolhas de profissão. Ambas escolheram cursar Engenharia de Alimentos.

“Eu gostei muito do tema de conservação de alimentos e para levar essa pesquisa para a universidade eu teria que entrar em um curso de Engenharia de Alimentos, então foi isso que eu fiz. Estudei, fiz o vestibular e entrei na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Vou ingressar no segundo semestre deste ano e estou muito animada para continuar com a minha pesquisa”, relata Gabrielle.

“Eu tive um contato direto com os laboratórios da universidade e vi que realmente o que eu queria trabalhar no futuro e o que eu realmente gostava de fazer era a área da pesquisa”, diz Ana Rebeka.

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Agora, Gabrielle, Ana Rebeka e Gabriel se preparam para representar o Brasil e competir com mais de 1.600 projetos de diversos países na International Science and Engineering Fair (ISEF), a feira internacional de ciências e engenharia, que acontece no próximo mês. Os finalistas da ISEF concorrem a quase US$ 9 milhões em prêmios e bolsas de estudo.

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