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Reconstrução da Educação: Apoio a municípios deve ser prioridade para melhorar alfabetização

Série do ‘Estadão’ debate cenário da educação brasileira e aponta caminhos para melhorar o ensino

Por Raisa Toledo
Atualização:

A alfabetização, tanto na idade certa quanto na recomposição de aprendizagem de alunos mais velhos, deve ser prioridade na reconstrução da educação do Brasil nos próximos anos. Oferecer apoio técnico às prefeituras é uma das estratégias necessárias para melhorar os resultados nessa área.

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Gestores e especialistas em educação infantil e alfabetização participaram nesta quinta-feira, 18, de painel sobre tema, parte da série de eventos Reconstrução da Educação, promovida pelo Estadão.

O bate-papo foi mediado por Renata Cafardo, repórter especial e colunista do Estadão. Teve participação de Alan Resende Porto, secretário da Educação de Mato Grosso; Patrícia Botelho, especialista em alfabetização e doutora em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie; Beatriz Abuchaim, especialista em educação infantil e gerente de Conhecimento Aplicado na Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal; e Paula Trevizolli, secretária de Educação de Ferraz de Vasconcelos (SP).

O ponto de partida do debate foi o resultado da avaliação internacional Progress in International Reading Literacy Study (Pirls), que mede habilidades de leitura de estudantes com 10 anos. O Brasil participou do exame pela 1ª vez em 2021 e teve desempenho inferior a 58 do total de 65 países e regiões participantes — ficou atrás de nações como Uzbequistão.

Para Patrícia Botelho, o resultado reforça que há urgência. “No último Saeb (avaliação de ensino do Ministério da Educação), comparando 2019 com 2021, há porcentagem menor de crianças dentro do considerado adequado nesse pós-pandemia”, diz. “Os resultados comprovam que a alfabetização precisa ser foco de políticas públicas do governo com relação à educação”, afirma.

Uma das preocupações é que o período pandêmico impactou especialmente as crianças em idade de alfabetização, o que reverbera na trajetória escolar em “efeito cascata”, diz Beatriz Abuchaim. “Crianças de 6 e 7 anos foram muito prejudicadas porque faltou o olho no olho. Elas precisam desse contexto social para que aquilo (noções de leitura e escrita) tenha sentido. Vemos uma situação ruim avançando ensino fundamental adentro, porque a alfabetização é a base para todos os aprendizados”, alerta a especialista da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal.

Em Ferraz de Vasconcelos, uma parceria com a Associação Bem Comum busca correr atrás dos prejuízos e mira as raízes do problema. “Aplicamos quatro avaliações ao longo do ano. Esses resultados são tabulados rapidamente e, em cima disso, são trabalhadas formações com os professores mediante cada defasagem apontada em sala de aula”, detalha a secretária de Educação, Paula Trevizolli.

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De acordo com ela, a iniciativa tem rendido frutos. “Conseguimos atuar em uma resposta rápida que tem nos ajudado demais. Nossos índices têm melhorado e vemos os avanços das crianças.”

Além de parcerias com associações sem fins lucrativos, é necessária articular prefeituras, Estados e União, ressalta Alan Porto, secretário estadual de Educação do Mato Grosso, que tem cerca de 337 mil crianças de 0 a 6 anos. “A primeira infância é quando ela (a criança) absorve a maior quantidade de conhecimento. É nessa fase que temos de investir, garantir orçamento e condições para que os municípios avancem nesse atendimento e coloquem em prática ações que vão conseguir.”

Segundo ele, Mato Grosso tem avaliado ações integradas entre secretarias e fornecido apoio técnico e pedagógico: “Estamos investindo nos municípios, principalmente aqueles com renda per capita menor, onde temos de trabalhar na Saúde e Assistência Social”.

Sobre o papel do Ministério da Educação nesse cenário, Alan afirma que a expectativa é que um pacto seja construído a partir da ampliação a nível nacional de uma política pública presente em mais de dez Estados: a que, em conjunto com a Associação Bem Comum, busca alfabetizar as crianças na idade considerada correta e dar assessoria para os municípios.

Educação infantil em foco

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Patrícia Botelho explica que, antes que um aluno possa ler e compreender, é preciso que desenvolva habilidades de decodificação — o que tem que ser pensado com cuidado pelos professores. “Ao final do segundo ano, ela precisa compreender um texto simples, curto, com palavras cotidianas. A grande questão é: será que existe essa preocupação com utilizar textos cotidianos, com estrutura sintática simples, para que a criança consiga decodificar?”, questiona.

Especialista em educação infantil, Beatriz Abuchaim considera que, ainda que a alfabetização em si ocorra no Ensino Fundamental, o tema precisa ser pensado na etapa escolar anterior se gestores e educadores pretendem reverter os atuais índices desanimadores.

“A criança nasce em um mundo letrado, desenvolve curiosidade e desenvolve as hipóteses de escrita dela de uma forma espontânea. O que a escola tem que fazer, e isso começa na escola infantil, é desenvolver essas habilidades de leitura e escrita de forma intencional”, justifica.

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Para melhorar a qualidade desses processos, ela chama atenção para a importância de uma avaliação da educação infantil que olhe para além dos aspectos de gestão e infraestrutura das unidades escolares. “Isso ajuda o gestor público a tomar decisões e a escola a direcionar suas atividades. A gente sabe que existe um subfinanciamento da educação infantil, mas a gente tem que olhar também para a qualidade da alfabetização das crianças, ter processos mais sérios e mais abrangentes com relação à educação infantil”, resume Beatriz.

No primeiro meet point da série Reconstrução da Educação, gestores públicos e pesquisadores da área destacaram que a recomposição da educação no Brasil passa pelo fortalecimento de uma cultura democrática nas escolas, pelo combate às desigualdades desde a alfabetização e pelo investimento em professores.

Já no segundo encontro, os especialistas discutiram a ampliação das vagas de tempo integral nas escolas brasileiras. Segundo o Censo Escolar de 2022, somente 14,4% dos alunos da rede pública estão matriculados no ensino integral em todo o País – o Plano Nacional de Educação (PNE) estabelece 25% dos alunos da educação básica como meta para 2024. O levantamento aponta, ainda, que metade das escolas públicas brasileiras não possui nenhum estudante em modalidade integral.

Programação

15/5 – Educação no Brasil hoje e recomposição da aprendizagem (veja como foi);

16/5 – Ensino integral e professores (veja como foi);

18/5 – 10h: Educação infantil e alfabetização;

23/5 – 10h: Ensino médio;

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25/5 – 10h: Ensino fundamental 2 e tecnologia;

29/5 – das 10h às 12h: Fórum Reconstrução da Educação;

Veja como fazer a inscrição aqui.

Reconstrução da Educação é uma realização do Estadão, em parceria com a Fundação Itaú, Fundação Lemann, Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Fundação Vivo Telefônica, Instituto Natura e Instituto Península. E tem o apoio do Consed, da Undime e do Todos Pela Educação.

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