Por que a USP recebe 8 mil alunos idosos por ano? ‘Vivo no mundo atual; não me sinto sozinha’

Eles participam do programa voltado para público com 60 anos ou mais; iniciativa contribui com saúde física e mental dos participantes, além de integrar instituição com a comunidade

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Por Roberta Jansen
Atualização:
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Ao se aposentar, após trinta anos como professora de Biologia, Neuza Guerreiro Carvalho decidiu se dedicar a tudo o que nunca tinha estudado até então. Para concretizar o plano ousado, Neuza buscou o USP60+, programa de extensão que oferece cursos e atividades para o público mais velho, além de participação em disciplinas regulares das graduações, junto com os jovens universitários.

Ao longo de uma década, participou de mais de 50 formações: História, Artes Plásticas, Sociologia, Literatura. Foram tantos que Neuza se tornou, ela mesma, professora de um dos cursos oferecidos ao público mais idoso: Resgate de Memórias Autobiográficas, que será ministrado este ano.

Neuza Carvalho, de 93 anos, que já fez mais de 50 cursos na USP voltado para idosos. Atualmente ela ministra um curso sobre resgate de memórias autobiográficas. Foto: Werther Santana

“Teve época em que fazia cursos de manhã e de tarde”, lembra Neuza, prestes a completar 94 anos - quatro a mais que a própria Universidade de São Paulo, que faz aniversário nesta semana. “É ótimo para complementar conhecimento, manter a cabeça ativa. Sempre fui viciada em estudar. A verdade é que não tenho tempo de fazer tudo o que tenho vontade.”

  • O Programa de Universidade Aberta à Terceira Idade foi criado em 1994 e recebe de 7 mil a 8 mil alunos por ano gratuitamente, o que faz com que seja a maior universidade aberta da América Latina, segundo a USP. Tudo o que o interessado precisa fazer é se inscrever e começar a frequentar as aulas ou atividades, observando o limite de vagas.

Para este ano, as inscrições estarão abertas a partir de 29 de janeiro para qualquer pessoa que tiver mais de 60 anos. São mais de duzentas atividades como excursões, palestras e aulas de ginástica, além das disciplinas regulares, sobre os mais variados temas. Os cursos ocorrem na capital e também nos câmpus do interior. Veja abaixo:

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  • Lorena;
  • Pirassununga;
  • Ribeirão Preto;
  • Piracicaba;
  • São Carlos.

“A ideia do programa USP60+ é fornecer à população acima dos 60 anos oportunidades para o aprendizado ao longo da vida. Sabemos que o aprendizado contínuo é um dos pilares do envelhecimento ativo”, afirmou o médico Egídio Dórea, coordenador do programa que.

“Outro fator importante é o encontro de gerações. Nós inovamos (em relação a programas do exterior), ao acrescentarmos a intergeracionalidade, essa troca de experiências dentro de sala de aula com alunos da graduação”, destaca ele.

A professora Maria Aparecida Nicoletti, que coordena o programa de palestras na Faculdade de Ciências Farmacêuticas, no Butantã, zona oeste paulistana, contou que os idosos passaram a fazer parte da comunidade acadêmica.

“Eles passaram a nos ver como família, referência de segurança. Ajudamos a pagar boletos, acessar a internet, tudo isso”, afirma

Professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades, a USP Leste, Beatriz Aparecida Ozello Gutierrez ministra disciplinas dadas aos idosos. “Há troca rica em sala de aula entre os idosos e os jovens”, relata. “Eles saem juntos, vão a restaurantes, bares, fazem comemorações. É um vínculo forte.”

Segundo ela, o convívio social é importante para o idoso, inclusive do ponto de vista da saúde. “Percebemos que muitos chegam com sintomas de depressão e ansiedade e, com o tempo, o convívio faz com que reduzam medicamentos”, afirma Beatriz. “A partir do momento em que ajudamos o idoso a se valorizar mais, a usar sua autonomia, eles se sentem melhor.”

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Viúva há 24 anos, Neuza mora sozinha, mas garante não sentir solidão. Além dos cursos, participa de grupos de leitura. Acaba de descobrir os livros de Walter Hugo Mãe e está extremamente curiosa com o escritor português.

“Já fui procurar por outros livros dele”, conta. “Sempre estou atrás de algo diferente, conhecer coisas novas. Vivo no mundo atual. Embora more sozinha, não me sinto nada sozinha, tenho muitos amigos e interesses.”