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Comportamento Adolescente e Educação

'Descobri que minha filha transou pela primeira vez e não me contou'

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Por Carolina Delboni
Atualização:

Se o início da vida sexual começou antes do que você sonhava aí na sua casa, calma - respire - é natural e normal. Agora continue a leitura e veja dados e orientações que vão te ajudar a lidar com a nova fase

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Não sei se você também era assim, mas na minha adolescência, eu e minhas amigas vivíamos confabulando contra nossos pais. Era uma reclamação eterna porque eles não deixavam isso, não deixavam aquilo. A gente achava que eles eram os seres mais chatos da esfera terrestre e vivíamos nos vangloriando de que seriamos diferentes.

"Ser diferente", neste caso, significa ser permissivo. Adolescente quer escutar "sim" dos pais, ainda que continue necessitando do "não". Era isso que buscávamos, era isso que pregávamos. Mas o tempo passa, a gente cresce e algumas mulheres se tornam mães e é aí que a gente é capaz de entender um monte daqueles "nãos".

Mas entre um "não" e um "sim" existe o diálogo e é aqui também que este texto começa a se relacionar com o título. O fato da sua filha, ou filho, iniciar a vida sexual durante a adolescência e esconder de você tem muito mais relação com o diálogo entre vocês do que a sua permissão - ou o seu "sim".

Vou explicar. É na adolescência que meninos e meninas começam a descobrir a sexualidade, ou seja, despertam para os desejos e prazeres sexuais do corpo. Esse processo está intrinsecamente ligado a descoberta e afirmação da própria identidade.

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É saudável e esperado que aconteça nesta idade e para isto é preciso das experimentações. Abre parênteses: o contrário não significa que há algo errado. Fecha e volta ao contexto. É o que eles fazem: experimentam. Tanto o próprio corpo quanto o corpo do outro e isso acontece desde que o mundo é mundo. Não é um fenômeno exclusivo desta geração, é um fenômeno do ser humano.

Segundo o o Observatório Nacional da Família, de 2020, a idade média do início da vida sexual do brasileiro era de 12,7 anos para os homens e 13,8 anos para as mulheres  Foto: Estadão

Querer adiar o início da vida sexual do seu filho ou achar que é muito cedo - tem hora que é mesmo, não estou falando de pré-adolescentes de 12, 13 ou 14 anos - para ele ter uma relação sexual não vai impedi-lo de transar. Portanto, ainda que você se espante e se choque aqui existe apenas uma alternativa segura: abra o diálogo e converse. Instrua, ensine, fale, eduque.

Uma mãe integrante de um grupo do Facebook do qual faço parte e que pediu para ter o nome não identificado, postou um desabafo ao descobrir que sua filha, prestes a completar 16 anos e namorando há três meses, tinha perdido a virgindade com o parceiro.

"Ele parece ser legal, certinho, mas não sei até quando estarão juntos e me dá medo tendo acontecido tão cedo", confessou, acrescentando ainda que se sentia totalmente perdida, sem saber quais conselhos dar e como agir com a menina.

As demais participantes do grupo interagiram com sugestões que, no geral, tinham um tom bastante alarmado. Comentavam que ela é supernova e precisava focar nos estudos. Havia também muito receio dela se casar cedo, "perder a vida" e, é claro, surgiram as preocupações como uma gestação indesejada.

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Aqui vale destacar que essa história está longe de ser um caso isolado. Os números comprovam. De acordo com um levantamento feito em 2020 pelo Observatório Nacional da Família, unidade de pesquisa da Secretaria Nacional da Família, a idade média para o início da vida sexual dos jovens brasileiros é de 12,7 anos para homens e 13,8 anos para as meninas.

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É cedo? É! Doze anos em média para os meninos e 13 para as meninas é cedo sim e esses números podem refletir questões que estão relacionadas a falta de educação sexual de maneira ampla e geral, a uma iniciação precoce da vida adulta e, muitas vezes, a uma exposição e/ou violência sexual sofrida pelo próprio adolescente.

Deixando um pouco o cenário de lado e observando os que iniciam a vida sexual entre 15, 16 e 17 anos, estamos falando de uma faixa dentro da "normalidade", digamos assim. Pode ter espanto e surpresa, mas não tem nada de errado aqui.

Entendo que a situação cause certo desconforto em algumas pessoas. Mas, cá entre nós, nada mais natural. Independente da idade que tinha na época, você também passou por isso e já é esperado que as meninas e meninos queiram mesmo experimentar o corpo através das relações durante a adolescência.

A questão, em sua grande maioria das vezes, é muito mais moral do que qualquer outro conceito ou crença. Muitas vezes pais agem pelo que os outros vão falar, pelo que a igreja condena, pela vizinhança, pelo que escutam e não pelo que deveria escutar do próprio filho ou filha.

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Volto a falar da importância do diálogo. Não é sobre dizer "sim" ou "não", mas sim a importância de criar espaços de confiança para que quando sua filha ou seu filho sentir vontade de iniciar a vida sexual, possa se sentar com você e conversar, mesmo que a conversa seja tímida. É uma porta e adolescentes precisam de portas abertas.

Por isso, o que eu diria a uma mãe que não sabe o que fazer ao descobrir que a filha perdeu a virgindade e não contou é: mantenha a calma, seja empática e escute, tentando ao máximo deixar os julgamentos de lado.

"Não adianta reprimir. Eventualmente você pode até falar, 'filha eu gostaria de ter sabido antes', mas agora que aconteceu a postura da mãe tem que ser a de acolher", orienta a dra. Tathiana Parmigiano, ginecologista do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e da Comissão Mulher no Esporte.

Para a especialista, acolher também significa levar a filha ao médico - seja ginecologista, pediatra ou qualquer outro especialista no qual a mãe e a filha confiem e, se possível, que já tenha um histórico de convívio com a menina. E aqui faço um adendo: levem os meninos também, seja ao urologista, seja ao hebiatra ou pediatra.

Outra dica de ouro compartilhada por Tathiana é que, uma vez no consultório, a mãe se retire um pouco da sala e dê privacidade para que a filha converse abertamente com a médica e escute suas orientações. A regra cabe até nos casos em que as mães já se comunicam bem com as filhas sobre o assunto. Isso porque a postura da mãe e da médica são totalmente diferentes.

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"A maioria das meninas ficam felizes ao serem levadas para as consultas. Elas querem alguém com que quem possam conversar, e aí a mãe também divide. Conheço inúmeras mães que ficam extremamente aliviadas, porque assim elas cumprem o papel de oferecer segurança e não precisam falar algo que talvez não saibam se está certo ou não."

Para as mães ou avós que costumam levar a filha ou neta ao posto de saúde, vale a mesma dica. É um direito da menina e da mulher o acompanhamento médico com um ginecologista. A lei prevê e essa é uma das políticas públicas que integra o programa de Prevenção a Gravidez de Adolescentes.

A consulta médica em tempos de fake News e redes sociais é a maneira mais segura de garantir informação e educação de qualidade. Claro que tem perfis ótimos e super confiáveis na internet, como do Dr. Jairo Bauer que todo santo cristo deveria seguir, mas é preciso saber os canais confiáveis.

Diante disso, levá-las - e levá-los - ao médico é abastecê-las com uma fonte confiável de informações e deixar mais tranquila a decisão de dar autonomia para a jovem tomar decisões responsáveis e seguras.

Não podemos nos esquecer que, frente ao mundo cheio de possibilidades que se desdobra para as meninas e meninos, o descobrimento da sexualidade pode ir muito além das trocas heterossexuais e que, mesmo em relações homoafetivas, o acompanhamento médico é igualmente importante. Anotado?

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Agora, falando novamente sobre oferecer acolhimento materno e sobre a falta de efetividade em ser punitiva demais, a especialista Tathiana me pontuou que algumas pacientes, com medo da mãe e da família, acabam se colocando em situações de risco. Seja, por exemplo, tendo uma relação via anal para preservar a virgindade ou transando em lugares públicos por não terem um lugar seguro para isso acontecer.

VOCÊ SABIA?

Segundo o levantamento da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), de 2019, com adolescentes estudantes entre 13 e 17 anos das redes públicas e privadas, o índice de jovens que usaram preservativo na primeira relação sexual é de 63,3%.

Dessa amostragem, 66,1% eram meninas e 66% da rede privada, sendo que, na última vez que se relacionaram sexualmente, só 59,1% dos estudantes usaram preservativo novamente. Ou seja, boa parte deixou de se proteger.

Ainda segundo o estudo, a pílula anticoncepcional foi o contraceptivo mais popular, utilizado por 52,6%, seguido pela pílula do dia seguinte, usado por 17,3%. E das meninas de 13 a 17 anos que já tiveram relação, 45,5% tomaram pílula do dia seguinte pelo menos uma vez na vida.

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É por isso que, sinta-se você constrangida ou não, volto a bater na tecla da importância de conversar com os jovens sobre sexo. Não precisa entrar em grandes detalhes. E a doutora Tathi também orienta que seja dessa maneira. As dúvidas e experiências mais íntimas podem ser compartilhadas com a médica, que, de novo, vai trazer orientações com base na ciência.

Aproveitando sua experiência com as jovens da nova geração, também pedi para ela trazer mais luz às mães que não sabem como dialogar com suas filhas. Uma dica importante é não marcar data e horário, do tipo, "hoje vamos falar sobre iniciação sexual". Mas sim, deixar o papo fluir. Às vezes sua filha conta algo de uma amiga e aí você entra na conversa.

"Deixar esse ponto de diálogo aberto é sempre mais importante. Sem repressão, sempre pensando em acolhimento. Sem falar, 'ela é muito nova', 'isso não é assunto para sua idade' ou 'aí, que absurdo fulana já fazer isso'. Porque senão a porta se fecha e a gente tem um problema em abrir de novo", conclui Tathiana sabiamente.

Adolescentes precisam de portas abertas, por mais que eles tentem mantê-las fechadas. Grave este mantra.

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