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Vídeo de grupo de médicos volta a circular com desinformação sobre segurança das vacinas de covid-19

Em discurso antigo, médico norte-americano engana ao falar que imunizantes deveriam deixar de ser aplicados por problemas de reações adversas

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Conhecido por espalhar desinformação a respeito das vacinas contra a covid-19, especialmente contra aqueles que usam a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA), o virologista norte-americano Robert Malone voltou a aparecer em um vídeo viral que tenta desacreditar os imunizantes e desencorajar a população a se vacinar contra a covid-19. Desta vez, o vídeo que se espalhou nas redes sociais foi retirado de uma entrevista coletiva concedida em 11 de maio de 2022, em que ele chama as vacinas de “terapia genética experimental” e diz que dados comprovam que elas devem acabar. As declarações são, mais uma vez, falsas.

No vídeo, o médico, que se apresenta – falsamente – como pioneiro das vacinas mRNA, diz ter o aval de 17 mil médicos e cientistas médicos de todo o mundo para declarar que as “injeções de terapia genética experimental da covid-19″ devem acabar porque são prejudiciais à saúde de crianças e adultos. Sem apresentar qualquer evidência, o médico diz que “os dados agora mostram que essa terapia genética experimental pode causar danos em crianças”, e ainda que podem causar danos permanentes no coração, cérebro, pulmões e órgãos reprodutivos, além de “desativar” o sistema imunológico.

 Foto: Reprodução

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As alegações falsas feitas por ele estão presentes na chamada Declaração IV, elaborada pela Aliança Internacional de Médicos e Cientistas Médicos. O vídeo foi gravado durante uma coletiva de imprensa do Global COVID Summit, cúpula que defende pautas negacionistas e que adota um nome bem parecido com outra, a Global Covid-19 Summit, convocada em 21 de setembro de 2021 pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e realizada de forma virtual com a participação de mais de 100 governos.

Embora Malone diga que suas declarações são corroboradas por 17 mil especialistas, é possível conferir apenas 67 nomes no site criado para abrigar o texto da declaração, cuja versão original é de outubro de 2021.

Vacinas não são terapia genética

Não é a primeira vez que o termo “terapia genética experimental” é usado para se referir às vacinas contra a covid-19. O Projeto Comprova, do qual o Estadão Verifica faz parte, mostrou no ano passado que o termo sequer faz sentido para se referir aos imunizantes de covid, porque terapia genética experimental só é feita em animais de laboratório.

Na mesma ocasião, a doutora em Imunologia e pesquisadora titular do Instituto Gonçalo Moniz da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Fernanda Grassi explicou que as vacinas de mRNA não são terapia genética, e que a molécula de RNA presente nos imunizantes não causa qualquer dano ao corpo humano.

“As vacinas são, conceitualmente, vacinas, são substâncias que vão induzir a produção de anticorpos com o intuito de prevenir o desenvolvimento de uma doença. Elas não são terapias genéticas porque estas terapias modificam o gene”, explica. Bem diferente disso, o que a vacina de mRNA faz é ensinar o corpo a sintetizar a proteína Spike, própria do coronavírus, para que o sistema imunológico saiba combatê-lo, caso o vírus entre em contato com o corpo.

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“Você tem uma molécula de RNA que vai dar uma informação para que a célula do nosso corpo produza a proteína Spike. Essa molécula é muito instável, se degrada muito facilmente. Através de nanopartículas, conseguiram estabilizar essa molécula de RNA para que ela entre e dê as informações para que a célula produza a proteína. Depois, ela se degrada, ela não faz nada no corpo, não se incorpora, ela simplesmente se desfaz”, completa Grassi.

Além de especialistas, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já negou a tese defendida por Robert Malone. “A Anvisa informa que as vacinas que empregam em sua tecnologia o código genético do vírus Sars-CoV-2 (vírus da Covid-19) não são produtos de terapia gênica porque não se utilizam de cópias de genes humanos para tratamentos de doenças. Os requisitos regulatórios definidos pela Agência são diferentes para vacinas e para os produtos de terapia gênica”, diz a Anvisa, em nota de janeiro do ano passado.

A Agência acrescentou que outras agências reguladoras internacionais, como a Food & Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, e a European Medicines Agency (EMA), da União Europeia, também “excluem as vacinas de material genético de agentes infecciosos do grupo de produtos de terapia gênica”.

As normas da Anvisa consideram que o produto de uma terapia gênica é “um medicamento especial que contém ácido nucleico recombinante (material genético), com o objetivo de regular, reparar, substituir, adicionar ou deletar uma sequência genética e/ou modificar a expressão de um gene humano, com vistas a resultados terapêuticos”.

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Já as vacinas de mRNA, a exemplo da Pfizer, aplicada no Brasil, não provocam interação ou interferência nos genes humanos. “As vacinas elaboradas a partir de código genético do vírus da covid-19 são usadas em processos de imunização de pessoas saudáveis e não para o tratamento de alterações genéticas ou de doenças relacionadas, por isso não podem ser consideradas terapias gênicas”, diz a Anvisa.

Vacinas causam danos permanentes em órgãos?

As afirmações de Robert Malone sobre danos, inclusive permanentes, no coração, pulmões, cérebro, tecidos reprodutivos e sistema imune são enganosas. Ele não apresenta dados sobre isso e mostra um discurso que vai de encontro a estudos e dados de farmacovigilância divulgados constantemente por agências reguladoras. As agências concordam que as reações adversas graves podem ocorrer, mas são raras, e que os benefícios da vacinação superam riscos potenciais.

Recentemente, a Anvisa disse ao Estadão Verifica que “todas as vacinas autorizadas pela Anvisa para covid ou qualquer outra doença possuem dados positivos de eficácia e segurança”. A agência aprovou, no final do ano passado, a aplicação da vacina bivalente da Pfizer como dose de reforço. O voto da relatora Meiruze Freitas, que aprovou a aplicação, mencionou que existe uma preocupação com anafilaxia (reação alérgica aguda), miocardite e pericardite, que já foram identificadas anteriormente e que constam na bula da vacina da Pfizer.

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No entanto, estas não são as reações mais comuns. A mais recorrente é dor no local da aplicação. Esta também é a reação mais comum às vacinas bivalentes da Pfizer: dor no local da aplicação, fadiga, dor de cabeça, dor muscular, calafrios, dor nas articulações, vermelhidão no local da injeção, inchaço no local da injeção e febre, nesta ordem.

O CDC e a FDA, dos Estados Unidos, informaram este mês ao Verifica que continuam monitorando a segurança das vacinas contra a covid-19 e que publicam frequentemente resultados de estudos sobre o assunto. O CDC acrescentou que continua recomendando que todos com seis meses de idade ou mais se mantenham com a vacinação atualizada e disse que “a vacinação é a ferramenta mais eficaz que temos para reduzir mortes, hospitalizações e doenças graves por COVID-19, conforme demonstrado em vários estudos realizados nos EUA e em outros países”.

O CDC também informou que as reações graves após a vacinação são raras e que os benefícios da vacinação superam quaisquer riscos potenciais. Entre as possíveis reações raras estão anafilaxia, trombose com síndrome de trombocitopenia, síndrome e Guillain-Barré, miocardite, pericardite e morte. Até o momento, o CDC identificou nove mortes, todas relacionadas à vacina da Janssen, que não usa a tecnologia de mRNA.

O Estadão Verifica já mostrou que outro vídeo de Robert Malone fazia declarações infundadas sobre vacinação em crianças e sobre infertilidade supostamente provocada pelas vacinas. Na época, a FDA afirmou que infertilidade não era um evento adverso, e a posição se mantém.

Vacinados são mais suscetíveis à covid-19?

O trecho usado no vídeo contém outras afirmações falsas ou enganosas feitas por Robert Malone. Uma delas é de que pessoas vacinadas correm mais risco de contrair covid-19 do que pessoas que não se vacinaram, o que não é verdade. Em março de 2022, dois meses antes da conferência com a fala de Malone, um estudo brasileiro mostrou que os não-vacinados representavam 75% das mortes por covid-19.

Em um artigo publicado no Sistema Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) em junho de 2022 – um mês depois da fala de Malone –, o infectologista e doutor em epidemiologia Sérgio de Andrade Nishioka explicou que, sim, cada vez mais vacinados apareciam entre os mortos por covid, mas isso não significava que eles eram mais suscetíveis à doença, porque era preciso olhar os dados de vacinação, e não apenas comparar números de mortos de vacinados e de não-vacinados.

Com dados com Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC), Nishioka mostrou que o coeficiente semanal de mortalidade entre adultos acima de 12 anos era de 1,71 óbito a cada 100 mil para pessoas não-vacinadas, de 0,22 para pessoas vacinadas e de 0,01 para pessoas vacinadas e que tinham recebido doses de reforço.

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“Uma forma de comparar esses coeficientes de mortalidade é calcular a razão entre eles. No mês de março de 2022 a mortalidade por COVID-19 em pessoas de 12 anos ou mais entre não vacinados foi 17 vezes mais alta que a observada entre vacinados que receberam reforço da vacina, e 8 vezes mais alta do que os que só receberam o esquema primário de imunização, o que sugere o papel protetor conferido pelas doses de reforço”, disse.

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