Embaixador da Hungria não disse que recebe ‘quem quiser’ após visita de Bolsonaro

Miklós Halmai não fez declarações públicas sobre estadia do ex-presidente na embaixada húngara em Brasília; postagens usam foto antiga

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Por Luciana Marschall

O que estão compartilhando: montagem com foto do embaixador da Hungria no Brasil, Miklós Halmai, acompanhada da afirmação que ele teria colocado “a imprensa brasileira em seu lugar” ao confirmar que Jair Bolsonaro (PL) esteve na embaixada e que o prédio é território da Hungria, onde entra quem ele quiser. O post acrescenta que o embaixador disse que reclamações sobre o assunto devem ser feitas à Organização das Nações Unidas (ONU).

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. Não há registros de entrevistas ou declarações públicas do embaixador da Hungria no Brasil, Miklós Halmai, sobre a estadia do ex-presidente Jair Bolsonaro na embaixada, em fevereiro deste ano. Além disso, a imagem utilizada nos posts circula na internet desde 2020, quando Halmai era embaixador em Portugal.

Posts com alegações falsas sobre a presença do ex-presidente na embaixada circulam nas redes sociais. Foto: Reprodução/Instagram

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Leitores solicitaram a checagem deste conteúdo por WhatsApp, pelo número (11) 97683-7490.

Saiba mais sobre: As alegações aqui checadas circulam amplamente no Facebook, Instagram e no WhatsApp.

Em 8 de fevereiro, Bolsonaro teve o passaporte apreendido pela Polícia Federal, por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, em decorrência do inquérito do golpe. Quatro dias depois, ele foi para a Embaixada da Hungria no Brasil, onde permaneceu por dois dias. A visita foi divulgada pelo The New York Times por meio de imagens do sistema de circuito interno do prédio, obtidas pelo jornal. As gravações mostram o embaixador Miklós Halmai recebendo o ex-presidente.

O Estadão Verifica fez buscas por declarações públicas do embaixador sobre a presença de Bolsonaro no prédio, tanto em português, quanto em inglês e húngaro, com a ajuda do tradutor Deepl, mas não foram localizados resultados. A reportagem também procurou a embaixada e a assessoria de imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do Comércio da Hungria, que não enviaram posicionamento até esta publicação.

Conforme informado pelo Estadão, a Polícia Federal vai investigar se o ex-presidente tentou articular alguma manobra diplomática para evitar ser preso no inquérito que apura uma tentativa de golpe. Bolsonaro mantém relação próxima com Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, e na embaixada ele não poderia ser preso porque representações diplomáticas ficam legalmente fora da jurisdição de autoridades locais.

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Em entrevista sobre o assunto, Bolsonaro disse não ter crime no fato de ter ficado hospedado na embaixada. Em nota, a defesa do ex-presidente negou que a estadia se deu por busca de asilo político e alegou que a presença na embaixada se resumiu em “manter contatos com autoridades do país” e atualizar os representantes húngaros sobre o “cenário político das duas nações”.

Em 25 de março, o Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador húngaro a prestar esclarecimentos sobre a hospedagem. Halmai conversou por cerca de 20 minutos com a secretária de Europa e América do Norte, embaixadora Maria Luísa Escorel. Questionada se na ocasião o embaixador fez as declarações aqui checadas, a assessoria de imprensa do órgão afirmou que o ministério não divulga o teor de conversas mantidas com diplomatas de outros países.

Além de não haver registros das declarações, a imagem de Halmai utilizada nos posts não é atual e circula na internet pelo menos desde 2020, quando ele era embaixador em Portugal.

A alegação aqui verificada também foi desmentida por Lupa, Reuters e Aos Fatos.

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