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É falso que leite de caixinha tenha substâncias tóxicas para se manter conservado na embalagem

Vídeo publicado no Instagram engana ao alegar que o leite UHT está entre os piores alimentos do mundo; ministério da Agricultura, Anvisa e especialistas destacam a segurança e o valor nutricional do alimento

Por Maria Eduarda Nascimento

Não é verdade que o leite UHT, ou leite de caixinha, receba substâncias tóxicas como soda cáustica, água oxigenada e formol para se manter conservado na embalagem. Vídeo publicado em um perfil no Instagram engana ao alegar que o leite está entre os piores alimentos do mundo por ser “totalmente modificado” durante o processamento térmico Ultra Alta Temperatura, na sigla em inglês, UHT. Especialistas entrevistados pelo Estadão Verifica ressaltam que o leite industrializado é seguro e não oferece risco à saúde.

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O processo térmico UHT nada mais é do que um tratamento ao qual o leite de vaca é submetido para eliminar microorganismos patogênicos — que fazem mal à saúde — e deteriorantes, que são bactérias que estragam o produto. Ao contrário do que sugere o vídeo, o processamento térmico não tem relação com a adição de substâncias tóxicas para conservar o alimento. Na verdade, o tratamento é uma esterilização que também garante que o leite se mantenha em temperatura ambiente sem a necessidade de refrigeração.

O uso do processo UHT é regulamentado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O órgão informou ao Estadão Verifica que não é permitida a adição de nenhum conservante ao leite UHT. Segundo a pasta, a validade do produto se deve “às condições de tratamento térmico a altas temperaturas, envase asséptico e embalagens estéreis e hermeticamente fechadas”. “O Regulamento Técnico de Leite UHT é uma internalização da Resolução Mercosul, sendo a mesma norma utilizada pelos quatro países do bloco”, comunicou em nota.

Especialistas ressaltam que o leite industrializado é seguro. Foto: Pixabay/@Couleur/Divulgação

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por sua vez, afirma que o processo UHT é destinado a “eliminar micro-organismos que podem trazer danos à saúde”. Segundo a agência, o procedimento é necessário para “garantia da segurança do produto”.

A engenheira de alimentos Priscila Vianna, professora do curso de engenharia de alimentos da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), explicou que o processamento térmico tem como objetivo obter um produto com esterilidade comercial. Para isso, o leite é submetido a temperaturas de 130 a 150°C por um período que varia de dois a cinco segundos. Além do alimento, a embalagem também é esterilizada. “Depois de esterilizados, a gente junta o leite e a embalagem em um equipamento chamado câmara asséptica, que faz com que tenhamos um produto completamente estéril e que pode ser armazenado em temperatura ambiente”.

De acordo com a professora, o leite não é o único produto que passa por esse processo. “O pessoal implica tanto com o leite UHT, mas nós temos outros produtos que também são esterilizados da mesma forma, como por exemplo o suco de caixinha e os molhos de tomate que vem em caixinhas cartonadas. Os dois são produtos que passam por processo de esterilização”, destacou.

Leite não contém água oxigenada

No vídeo, um homem aponta a bebida como um dos “piores alimentos do mundo” e diz que uma das substâncias tóxicas presente no leite UHT é o peróxido de hidrogênio, conhecido comercialmente como água oxigenada. A doutora em ciência dos alimentos pela Universidade de São Paulo (USP) Fabiana Poltronieri explicou que essa alegação é falsa. Ela opinou que o vídeo desestimula o consumo de um alimento que está previsto no Guia Alimentar para a População Brasileira.

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“O uso do peróxido de hidrogênio na composição do leite é considerado fraude. Existem fraudes? Existem, mas não é a regra”, disse. “A regra é ter um alimento de boa qualidade. O Brasil possui, além de uma boa legislação, boas técnicas para a detecção dessas substâncias. Existem métodos de detecção de peróxido de hidrogênio, hidróxido de sódio e outros. Além disso, existem vários laboratórios de inspeção e de tecnologia de leite e derivados no País”.

O procedimento UHT é uma esterilização que também garante que o leite se mantenha em temperatura ambiente.  Foto: Monica Zarattini/Estadão

O vídeo afirma que outro malefício causado pelo leite UHT seriam as alergias. O homem que aparece nas imagens cita que o leite é o alimento “mais alergênico” do planeta Terra. No entanto, a doutora em ciência dos alimentos argumentou que é incorreto afirmar que existem alimentos alergênicos. Isso porque, segundo Fabiana, a alergia é uma doença idiossincrática, ou seja, depende de cada indivíduo.

“Um indivíduo pode ter alergia a algum alimento e o outro indivíduo não”, explicou. “Portanto, dizer que o leite é um alimento altamente alergênico é incorreto, uma informação errada. Todo alimento pode causar alergia desde que o indivíduo que o consuma apresente deficiência no sistema imunológico. Essa situação pode acontecer com diferentes alimentos: leite, carne, frutos do mar, amêndoas, sementes, cereais, entre outros”.

Testes e controle de qualidade

Para sustentar o argumento de que o leite recebe substâncias conservadoras, o autor do vídeo cita que o alimento não chegaria até as indústrias de laticínios sem estragar se não recebesse componentes tóxicos, o que não é verdade. Os professores e pesquisadores do Instituto de Laticínios Cândido Tostes (ILCT) da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG), Kely de Paula Correa e Junio Cesar, explicaram que logo após a ordenha, o leite que dá origem ao leite UHT é refrigerado a uma temperatura de 4°C ainda na propriedade rural, o que garante a qualidade do alimento até que ele seja coletado e levado para a indústria.

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Segundo Junio, que também é coordenador do Programa Estadual de Pesquisa em Leite e Derivados da EPAMIG, empresa vinculada à Secretaria de Agricultura do estado de Minas Gerais, para que a coleta aconteça, o leite precisa ser aprovado no teste de alizarol, que avalia a estabilidade das proteínas e também a acidez e/ou alcalinidade resultante de alguma possível adulteração. Ao chegar no laticínio são realizadas diversas análises de rotina, como análise de composição físico-química, microbiológicas, reconstituintes, estabilizantes, adulterantes e neutralizantes.

“Dentre as análises realizadas destacamos as que detectam formol, soda, peróxido de hidrogênio, ureias, cloretos, entre outros”, explicaram os professores, por mensagem. “Dessa forma, podemos afirmar que nenhum leite é recebido e processado na indústria de laticínios apresentando algumas dessas substâncias, garantindo a inocuidade do alimento”.

Na avaliação da engenheira de alimentos Priscila Vianna, a postagem analisada aqui tenta causar pânico na população em relação a um alimento que é reconhecido por seu valor nutricional. “O leite é reconhecido pelas proteínas que ele tem e pela fonte de cálcio de fácil absorção. Nenhum alimento tem o cálcio tão disponível quanto o leite”, opinou. “É criar pânico na população com um produto que tem comprovação científica de tudo o que está sendo feito com ele. O processamento UHT é realizado desde a década de 70, então é algo muito bem estabelecido”.

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Publicado em um perfil que compartilha vídeos sobre alimentação saudável, a postagem exibe um trecho da participação de Tiago Rocha, que é biólogo de formação, em um programa de televisão exibido em 2017. À época, Rocha foi ao programa falar sobre os piores e melhores alimentos do mundo. No entanto, o vídeo publicado no Instagram exibe apenas o recorte em que ele fala sobre o leite. Nas redes sociais, Tiago se apresenta como biólogo e cientista.

A reportagem tentou contato com o biólogo Tiago Rocha, mas não obteve resposta. O perfil que publicou o vídeo no Instagram também não respondeu às mensagens enviadas.

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