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Foto de criança deitada sobre bandeira não foi tirada em detenção da Polícia Federal em Brasília

Imagem de julho de 2022 circula como se mostrasse menino dormindo em ginásio onde ficaram temporariamente detidos por atos de vandalismo na capital federal

Por Alessandra Monnerat
Atualização:

É de julho de 2022 a foto que mostra uma criança deitada no chão sobre uma bandeira do Brasil. A imagem circula fora de contexto no WhatsApp e no Facebook, com a alegação de que o registro teria sido feito no ginásio onde ficaram detidas temporariamente pessoas que participaram de atos de vandalismo na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Na realidade, a foto é da convenção do PL que lançou a candidatura do ex-presidente Jair Bolsonaro à reeleição.

Leitores pediram a checagem deste conteúdo por WhatsApp, (11) 97683-7490. No aplicativo de mensagens, um texto que acompanha a imagem diz que o registro seria o “símbolo da vergonha” de um “governo ditatorial de esquerda”. No Facebook, uma postagem afirma que a foto é do “campo de concentração” — termo usado por bolsonaristas para se referir ao local temporário de detenção na Academia da Polícia Federal. O uso da expressão é condenado pela Confederação Israelista do Brasil (Conib) (leia mais abaixo).

Foto de criança deitada sobre bandeira é de 2022 Foto: Reprodução

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Usando a ferramenta de busca reversa de imagens (veja como usar aqui), percebemos que a foto foi publicada várias vezes por um usuário do Twitter no dia 25 de julho de 2022, sete meses antes dos atos terroristas em Brasília. No dia anterior, o PL havia promovido uma convenção no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, para lançar a candidatura de Bolsonaro à Presidência.

Na foto do menino deitado, é possível notar o chão azul e uma estrutura para passagem de fiação elétrica. O cenário é o mesmo da convenção partidária, como podemos conferir em fotos publicadas pela imprensa. No ginásio onde ficaram detidos golpistas que participaram do vandalismo em Brasília, o chão é cinzento.

Comparações com Holocausto são repudiadas por Conib

Cerca de 1,5 mil pessoas foram levadas provisoriamente à Academia Nacional da Polícia Federal, em razão do espaço necessário para os procedimentos de polícia judiciária. Nas redes sociais, detidos reclamaram de falta de comida e das condições de tratamento no local. A Procuradoria da República do Distrito Federal vistoriou o local e disse não ter encontrado irregularidades. Da mesma forma, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) esteve no ginásio e constatou que os detidos receberam duas refeições e tinham acesso a atendimento médico e legal.

Na terça-feira, 10, a Polícia Federal informou ter liberado 599 pessoas detidas, por “questões humanitárias”. Neste grupo, estavam “idosos, pessoas com problemas de saúde, em situação de rua e mães acompanhadas de crianças”. Outros 727 investigados permaneceram presos. Na quarta-feira, 11, este grupo foi levado ao presídio da Papuda. Lá, receberam um uniforme, kit higiene, um colchão e vacinas contra covid, quando necessário.

A detenção temporária na PF tem sido chamada nas redes sociais de “campo de concentração” por bolsonaristas. Em nota, a Conib condenou o uso do termo e “comparações completamente indevidas do momento atual com os trágicos episódios do nazismo que culminaram no extermínio de 6 milhões de judeus no Holocausto”.

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“Essas comparações, muitas vezes com fins políticos, são um desrespeito à memória das vítimas do Holocausto e de seus descendentes”, comunicou a entidade, que representa a comunidade judaica brasileira. “A Conib inclusive criou uma campanha contra a banalização do Holocausto, para que possamos entender melhor as verdadeiras dimensões dos fatos e assim contribuir para um melhor entendimento do presente”.

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