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Leilane Neubarth não chamou bolsonaristas de ‘cachorros’; ela se referia a cães de Javier Milei

Vídeo retira fala de jornalista de contexto para afirmar que ela ofendeu bolsonaristas e conservadores de direita; autor da postagem enganosa pede boicote a emissora de TV

Por Clarissa Pacheco

O que estão compartilhando: que a jornalista Leilane Neubarth, da GloboNews, chamou bolsonaristas e conservadores de direita de “cachorros”.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. O vídeo retira de contexto o trecho de uma fala de Leilane Neubarth na edição de 28 de dezembro de 2023 do programa Estúdio i, da GloboNews. A jornalista não mencionou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Na realidade, se referia aos cachorros – literalmente – do presidente da Argentina, Javier Milei. Eleito em novembro de 2023, Milei declara abertamente que se comunica com Conan, seu cachorro da raça mastim inglês morto em 2017, com a ajuda de um médium, e que até pede conselhos ao pet. O presidente argentino também possui quatro clones de Conan: Murray, Milton, Robert e Lucas.

Arte/Estadão Foto: Arte/Estadão

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O Verifica procurou o autor do vídeo que foi postado originalmente no TikTok, Leonardo Liborio. Por e-mail, ele disse que fez um comentário adicional sobre o vídeo já recortado que encontrou em outros sites, mas que também foi enganado e, após o contato da reportagem, apagou a publicação.

Saiba mais: No trecho usado no vídeo viral, é possível ver o estúdio da emissora e ouvir a voz do comentarista Octávio Guedes falando sobre “acampamentos para destruir o STF”. Em seguida, ouve-se Leilane questionando: “Você acha que foram os cachorros dele que sugeriram essa medida da volta da toga?”.

Leilane, então, aparece no vídeo rindo, e Octávio Guedes também surge na tela. Na sequência, o vídeo da GloboNews se encerra e quem aparece na imagem é um homem afirmando que Leilane Neubarth chamou bolsonaristas e conservadores de direita de “cachorros”. Ele convoca uma campanha de boicote à Rede Globo: “É isso mesmo que vocês escutaram. Leilane Neubarth, da GloboNews, nos chamou de cachorro (sic). Ela disse que nós, conservadores, nós, bolsonaristas, somos cachorro do Bolsonaro. Isso foi que o ela disse bem claro como vocês escutaram”.

O trecho do programa da GloboNews usado no vídeo investigado tem um zoom aplicado à tela, de modo que não é possível ler totalmente o texto que indica o tema da conversa entre os jornalistas. Além disso, foram inseridos textos sobrepostos à imagem, o que também dificulta a leitura. No entanto, o telão do estúdio mostra uma imagem da Argentina, e não do Brasil: o prédio que aparece ao fundo é do Congresso Nacional, que fica na capital, Buenos Aires.

Prédio que aparece no telão do estúdio da GloboNews é do Congresso Nacional da Argentina. É o mesmo desta imagem, em que apoiadores de Javier Milei se reuniram para acompanhar a posse em Buenos Aires, em 10 de dezembro de 2023 Foto: Carolina Marins / Estadão

Além disso, ao final do vídeo, um dos textos sobrepostos à imagem é retirado, permitindo que se leia a palavra “pacote”, na linha superior, e “será analisado por Congresso”, na linha inferior. O Estadão Verifica, então, buscou por notícias sobre o assunto e concluiu que, a partir de 27 de dezembro do ano passado, a imprensa noticiou que o Congresso argentino avaliaria um pacote de mudanças apresentado por Milei.

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No caso específico da GloboNews, o trecho original que foi retirado de contexto aparece no programa Estúdio i de 28 de dezembro, com a presença dos jornalistas Leilane Neubarth, Octávio Guedes e Flávia Oliveira, além da participação de Valdo Cruz.

Comentário sobre mudanças

O pacote de reforma do Estado argentino proposto por Milei apareceu nos 15 minutos finais do programa, ou seja, a partir das 15h30 daquele dia. Primeiro, Leilane comentou que o projeto de lei que foi enviado ao Congresso inclui mudanças nas eleições, previdência, saúde, segurança, e que as medidas foram vistas por analistas como polêmicas – algumas até inconstitucionais.

Na sequência, a jornalista chama um comentário de Valdo Cruz, que não está no mesmo estúdio, sobre o volume de artigos do pacote – mais de 600 –, e ele diz acreditar que será difícil para o novo presidente aprovar o pacote, sobretudo sem apoio no Congresso.

Valdo Cruz menciona o interesse em privatizar 41 empresas, em mudar o sistema eleitoral e proibir manifestações e, cita a nova regra para que juízes vistam toga e usem martelo como algo desnecessário e que não deve ser aprovado. Para ele, o novo presidente mandou um megapacote de mudanças ciente de que a maioria será rejeitada, mas com a intenção de conseguir aprovar ao menos as medidas econômicas.

Figurino dos juízes

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A obrigatoriedade de que juízes e juízas vistam toga e usem martelo nas audiências, incluída no pacote de Milei, também foi comentada por Octávio Guedes, e é da fala dele que parte a declaração de Leilane, retirada de contexto nos posts virais. Guedes até menciona Bolsonaro em seu comentário ao comparar, em tom irônico, as medidas que seriam de extrema-direita no Brasil e na Argentina. Mas Leilane não cita o ex-presidente brasileiro e participa da conversa apenas para falar sobre os cachorros de Milei.

O diálogo completo é:

Leilane Neubarth: O que mais te impressionou de tudo que ele tá propondo aí? Essa coisa da toga? [risos]

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Octávio Guedes: É o projeto Clodovil de dizer como é que vai se vestir o juiz, né? Agora, assim, os argentinos estão até no lucro, porque a extrema-direita na Argentina quer se meter na roupa. Aqui no Brasil, a extrema-direita, o Bolsonaro pediu que aviões da FAB voassem pra quebrar os vidros do Supremo, estimulou passeata de gente vestido de Ku Klux Klan pra aquela Sara Winter ameaçar o STF, acampamentos pra destruir o STF, então foi um horror.

Leilane Neubarth: Você acha que foram os cachorros dele que sugeriram essa medida da volta da toga? [risos]

Octávio Guedes: Ah, pode ser! Agora, de uma maneira geral, como eu disse lá atrás com Bolsonaro, a extrema-direita é empresa de demolição: eles se apresentam, eles conseguem captar a raiva, o ódio, o ressentimento. ‘Tá tudo ruim, vambora, vamos destruir, vamos combater nossos inimigos’. Chega no governo, é muito difícil você ter um plano, se você é uma empresa de demolição. Trump não se reelegeu, Bolsonaro não se reelegeu. Então, eles precisam de inimigos, essa é a tática, e tá claramente o Milei colocar o Congresso como quem diz assim: ‘Olha, eu tentei, mas fui impedido de fazer’.

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