Post desinforma sobre tecnologia utilizada na vacina da dengue

Publicação viral nas redes sociais espalha desinformação sobre proteínas recombinantes presentes na Qdenga; técnica permite que imunizante seja eficiente contra os quatro sorotipos da doença

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Por Milka Moura

O que estão compartilhando: vídeo do médico Drauzio Varella explicando a tecnologia utilizada para o desenvolvimento da vacina da dengue do laboratório Takeda. A legenda sobreposta ao vídeo diz que o imunizante é “transgênico, altera o DNA e causa câncer”. Também classifica a vacina de “organismo geneticamente modificado”.

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O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. A publicação nas redes sociais faz recortes de um vídeo em que o médico Drauzio Varella fala sobre a vacina contra a dengue, Qdenga, e insere informações falsas. Não há fundamento científico para chamar esta vacina de transgênica, uma vez que não há combinação do DNA do vírus causador da dengue com outros patógenos. A tecnologia adotada na Qdenga permite apenas que o imunizante seja eficaz contra os quatro sorotipos do vírus.

O laboratório fabricante Takeda informou ao Estadão Verifica que a alegação é “totalmente infundada, sem comprovação científica, indo contra os resultados apresentados após 15 anos de estudos, e em discordância com as recomendações de Sociedades Brasileiras de Imunizações, Pediatria, Infectologia e Medicina Tropical e da Organização Mundial de Saúde (OMS).”

Especialista esclarece que a vacina da dengue não é capaz de alterar o DNA ou causar câncer.  Foto: Reprodução/Instagram

Saiba mais: A publicação no Instagram usa um vídeo recortado do médico Drauzio Varella e faz alegações infundadas sobre o imunizante ao dizer que a vacina “é transgênica, altera o DNA e causa câncer”. No vídeo original o médico não faz, em nenhum momento, declarações semelhantes:

Em contato feito pelo Estadão Verifica, a equipe do Portal Drauzio Varella repudiou a montagem e falou que tomará as medidas judiciais cabíveis. “Drauzio considera que, além do dano à sua imagem pessoal, esses posts são um atentado à saúde pública, pois propagam desinformação e vendem substâncias que podem ser nocivas à saúde”, acrescentou. O Drauzio Varella já foi alvo anterior de conteúdos desinformativos, como o uso de declarações descontextualizadas para vender suplementos.

A vacina da dengue é transgênica?

Segundo a médica infectologista e pesquisadora da Fiocruz, Fernanda Grassi, um organismo transgênico é aquele que foi alterado e foi submetido a uma introdução, de maneira artificial, com outros DNAs que não pertencem àquela espécie. “É uma modificação para outra espécie, digamos assim, com genes que não são encontrados naquele espécie (de origem). Sobre a alegação de que a vacina é transgênica que altera o DNA e casa câncer, isso é uma coisa absolutamente falsa que não tem nenhuma base científica”, alerta a médica.

Como a vacina da dengue foi feita?

A vacina foi feita a partir do vírus atenuado. Isso significa que o vírus sofreu processos de modificações para diminuir a sua capacidade de causar doenças. “Ele (o vírus) não é capaz de causar a doença, mas ele é capaz de induzir uma resposta imunológica”, explica Grassi.

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Segundo a Takeda, laboratório desenvolvedor do imunizante, o objetivo é a proteção contra casos de dengue causados pelos quatro sorotipos, independentemente da exposição prévia ao vírus. Por isso, a vacina leva em sua composição as quatro variantes dos vírus da dengue, sendo a DENV-2 completa e enfraquecida, como a responsável por fornecer a estrutura genética para gerar os outros tipos virais.

“As vacinas atenuadas são a primeira geração de vacinas. O que diferencia a Qdenga é que além de utilizar esse processo de atenuação, ela utiliza proteínas recombinantes. Faz uma composição utilizando um vírus e proteínas combinantes de outros sorotipos”, esclarece a pesquisadora da Fiocruz. A médica ainda cita outros exemplos de vacinas com vírus atenuados, como as vacinas contra o sarampo, caxumba, rubéola, herpes zoster e febre amarela.

Quais efeitos colaterais foram registrados?

O laboratório Takeda informou que durante os estudos clínicos, as reações relatadas com maior ocorrência em participantes de 4 a 60 anos foram:

  • dor no local da injeção (50%)
  • dor de cabeça (35%)
  • dor muscular (31%)
  • vermelhidão no local de injeção (27%)
  • mal-estar (24%)
  • fraqueza (20%) e
  • febre (11%).

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Ainda segundo o laboratório, essas reações adversas que ocorreram, geralmente, dentro de dois dias após a injeção, foram de gravidade leve a moderada, apresentaram curta duração de 1 a 3 dias e foram menos frequentes após a segunda dose.

Não há registro de que o imunizante cause câncer ou cause transformações genéticas nos imunizados.

Vale ressaltar que as doses não poderão ser aplicadas se: a pessoa for alérgica aos princípios ativos ou a qualquer componente da vacina; tiver comprometimento do sistema imunológico; estiver tomando medicamentos que afetam o sistema imunológico (corticosteróides em doses altas ou quimioterapia); e se estiver grávida ou amamentando.

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Esse boato também foi checado por Boatos.Org, UOL Confere, Aos Fatos, e AFP.

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