Sempre que pode, o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, expressa desdém pelo passado pré-islâmico do país, quando os persas eram governados por reis. Ele chama o período de época de “ilusões, não uma fonte de orgulho”, que era afligida pela corrupção e pela ditadura.
Portanto, foi uma mudança radical de tom quando, em um discurso poucos dias após o ataque israelense contra o Irã no mês passado, Khamenei elogiou sem parar a “civilização antiga” do país e se gabou de que o Irã tem uma “riqueza cultural e civilizacional” muito maior do que a dos Estados Unidos.
Ao enfatizar a identidade cultural do Irã em vez da religiosa, ele procurou reunir uma população não apenas abalada pelos 12 dias de ataques israelenses, mas também desiludida com os clérigos que governam a república islâmica e com a ideologia religiosa que define como a sociedade é governada. As declarações de Khamenei — acompanhadas de perto como um sinal para os milhares de burocratas, autoridades policiais e clérigos que fazem o governo funcionar — representaram a maior demonstração possível de nacionalismo.

O esforço para explorar a civilização milenar do Irã não foi pontual. Um outdoor recém-instalado em Teerã elogia um antigo rei persa, enquanto outro na capital retrata a figura mítica de Arash, o Arqueiro, acompanhado por uma salva de mísseis. Outro outdoor na cidade de Shiraz — uma adaptação de uma gravura rupestre perto das ruínas da antiga cidade de Persépolis — retrata o primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu no papel do imperador romano Valeriano, ajoelhado diante dos persas vitoriosos, cujo império antecedeu a chegada do islamismo no século VII d.C.
A república islâmica sempre tendeu a dar muito mais ênfase à legitimidade religiosa do que ao patriotismo ou ao nacionalismo. Mas, em uma cerimônia religiosa no início deste mês, Khamenei pediu a um artista que cantasse uma versão de uma canção patriótica secular — uma escolha especialmente incomum para tal evento.
“Adotar tudo isso é admitir o fracasso da ideologia da revolução islâmica”, disse Ali Ansari, historiador da Universidade de St. Andrews, na Escócia. E embora o governo já tivesse usado temas nacionalistas antes, “nunca foi nessa escala, nunca com essa intensidade e nunca quando eles estavam em tanta dificuldade”.

Enfraquecimento
Nos últimos anos, a posição do Irã na região sofreu quando vários aliados importantes, Hezbollah e Hamas entre eles, sofreram reveses dramáticos, e grande parte da população lutando contra condições econômicas difíceis e um governo considerado por muitos iranianos como corrupto e repressivo.
Não é surpreendente que os líderes do Irã enquadrem sua luta contra Israel e os Estados Unidos em termos nacionalistas para angariar apoio popular, disse Hosein Ghazian, sociólogo e pesquisador que trabalhou no Irã e agora vive nos Estados Unidos. O governo do Irã está disposto a adaptar sua ideologia, e até diminuir a ênfase na religião, quando necessário, disse ele.
“Quando o governo oferece esse novo produto ao mercado — uma mistura de nacionalismo, estatismo e islamismo — há compradores para ele”, disse Ghazian. “Essa escolha é racional e deliberada, a fim de poder vender esse produto ao povo para manter seu próprio poder”.

Essa mensagem não se encaixa bem na ideologia dominante da república islâmica — defensora de uma ruptura com o passado monárquico do Irã e a formação de uma sociedade de acordo com uma visão islâmica específica — e reflete concessões ao sentimento popular, afastado da religião nos últimos anos. Uma pesquisa encomendada e realizada pelo governo em 2023, e obtida pela BBC Persa, mostrou que a grande maioria dos entrevistados era a favor da separação entre religião e política.
O uso de elementos extraídos da história pré-islâmica do Irã não é completamente novo para a república islâmica ou seus apoiadores. O presidente populista Mahmoud Ahmadinejad frequentemente fazia referência ao imperador persa Ciro, o Grande. E algumas das mensagens recentes têm sido cautelosas, em vez de um endosso total à identidade secular iraniana. Canções patrióticas recitadas em cerimônias religiosas de luto apresentavam letras adaptadas que faziam referência à fé muçulmana xiita do Irã.
O novo tom nacionalista surge num momento em que altos funcionários têm citado repetidas vezes o que dizem ser uma “coesão nacional” e “unidade” emergentes no Irã em resposta aos ataques israelenses e americanos no mês passado.

Durante o bombardeio, houve relatos de iranianos se unindo para ajudar uns aos outros e poucas evidências de manifestações contra o governo. Mas é difícil saber se a teocracia tem mais apoio popular agora, como afirmam as autoridades, dada a falta de pesquisas de opinião independentes no Irã.
Ghazian disse que, embora os esforços das autoridades possam ser eficazes no curto prazo, qualquer aumento do nacionalismo entre o povo iraniano é mais uma resposta a um inimigo estrangeiro do que um apoio positivo ao governo. “A solidariedade e a coesão nacional ocorrem quando o povo vê o governo, em grande medida, como seu representante contra um país estrangeiro”, disse ele.
Alguns dissidentes criticaram o governo por usar símbolos nacionais mesmo enquanto age de forma repressiva. O diretor de cinema iraniano Jafar Panahi, que criticou abertamente o governo e foi preso por isso, postou áudio e imagens em sua página do Instagram esta semana com prisioneiros políticos cantando uma canção patriótica, e condenou duramente uma onda de execuções pelo governo.
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“Esta ação não é apenas uma reação à máquina de morte da república islâmica nas prisões, mas também um golpe direto e irrestrito a um governo que quer reescrever a história e erradicar a identidade da nação através da violência”, escreveu Panahi sobre o canto dos prisioneiros.
Mohammad Javad Zarif, ex-ministro das Relações Exteriores iraniano que recentemente renunciou ao cargo de vice-presidente em meio a pressões políticas e é desprezado pelos linha-dura iranianos, disse em uma entrevista a um veículo de comunicação estatal publicada este mês que a identidade nacional iraniana estava ligada tanto às suas raízes pré-islâmicas quanto às muçulmanas xiitas. Ele pediu respeito por ambas. “É essa identidade que dá força ao Irã”, disse ele.
Ele também reconheceu a tensão entre o povo e o governo. “Nós, funcionários do governo... não prestamos muitos serviços [ao povo]”, disse Zarif. “Eles merecem muito mais do que isso”.







