Houve muitos suspiros de alívio na América Latina depois que o presidente Donald Trump anunciou suas tarifas para o mundo inteiro, porque os países da Ásia e da Europa terão de pagar tarifas muito mais altas do que os países latino-americanos para exportar para os Estados Unidos.
Mas essas celebrações são prematuras. A menos que Trump recue nas próximas semanas, sua guerra comercial provavelmente levará os EUA a uma recessão ainda este ano, fazendo com que as exportações caiam em todo o mundo.
O anúncio de Trump em 2 de abril incluiu tarifas muito mais altas do que os economistas esperavam, o que fez as ações de Wall Street despencar. Trump impôs tarifas de 46% ao Vietnã, 34% à China, 26% à Coreia do Sul, 24% ao Japão e 20% aos países da União Europeia.

Em comparação, México e Canadá ficaram isentos dessa nova rodada de tarifas, embora ainda estejam sujeitos às tarifas de 25% que Trump impôs sobre alguns de seus produtos no mês passado. Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Peru e outros países da região terão de pagar uma tarifa comparativamente menor, de 10%.
A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, comemorou o “tratamento preferencial” que o México recebeu. Alguns analistas latino-americanos disseram que as tarifas de Trump darão à região uma vantagem competitiva porque seus produtos poderão ser exportados com impostos aduaneiros mais baixos do que os asiáticos.
Além disso, os otimistas argumentam que as tarifas de Trump podem estimular novos investimentos na região porque estamos passando de um mundo “globalizado” para um mundo “regionalizado”. Isso poderia levar muitas empresas a transferir suas fábricas da Ásia para o México ou a América do Sul, afirmam eles.
Mas Marcelo Giugale, professor de economia internacional na Universidade de Georgetown e ex-alto funcionário do Banco Mundial, colocou-me as coisas em perspectiva. “O fato de você ter se saído melhor do que outros não significa que você se saiu bem”, disse.
Giugale afirmou que a incerteza em torno das políticas erráticas de Trump congelará planos de investimento em cadeias de valor. “Ninguém vai investir sem saber se conseguirá exportar para o mercado americano.”
Uma recessão global prejudicará praticamente todos os países, acrescentou ele. A firma de investimentos JP Morgan agora projeta uma probabilidade de 60% de recessão nos EUA este ano.
Além disso, embora as tarifas de Trump sobre a maioria dos países latino-americanos sejam menores do que aquelas sobre os países asiáticos, muitos países latino-americanos estavam pagando tarifas inferiores a 10%. Se antes pagavam uma tarifa de 2%, agora pagarão 10%.
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Alberto Bernal, diretor de estratégia global da XP Investments que tem se mostrado um partidário ferrenho de Trump, disse-me que as novas tarifas “certamente causarão recessão nos EUA”.
Bernal projeta que o crescimento da economia americana diminuirá de 2,7% no ano passado para 1% ou menos este ano. Outros são ainda mais pessimistas: a Nomura Securities International PLC espera que a economia americana cresça apenas 0,6% este ano, e o Barclays PLC projeta uma contração de 0,1%.
O Brasil e, em menor grau, a Argentina poderiam compensar algumas de suas perdas aumentando as exportações de soja para os chineses. A China retaliou as tarifas de Trump reduzindo suas compras de produtos agrícolas dos EUA e poderá começar a comprar mais soja do Brasil.
Muitos amigos me perguntam por que Trump apostou tão alto em tarifas apesar de a grande maioria dos economistas tê-lo alertado de que elas eram — e são — absurdas.
A explicação mais provável é que a obsessão de Trump com tarifas não tem a ver com comércio, mas com poder. Ao impor tarifas exorbitantes sobre produtos importados, Trump deixa todos — países estrangeiros e grandes corporações — aos seus pés, implorando por isenções. E ele decide quem merece ou não algum alívio.
Enquanto isso, quem comemora as tarifas relativamente baixas para a América Latina corre o risco de não estar percebendo o quadro geral: uma possível recessão global que não poupará ninguém, a começar pelos EUA. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO






