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Ao aumentar preços e congelar salários, Milei põe em dúvida apoio de argentinos ao ajuste

Estratégia de conter a inflação por meio de uma redução do consumo promete colocar a prova paciência da população frente às medidas econômicas do novo presidente

Foto do author Carolina Marins
Por Carolina Marins

ENVIADA ESPECIAL A BUENOS AIRES - Quando o presidente da Argentina, Javier Milei, alerta que os próximos meses serão “os piores da vida” dos argentinos, ele está se blindando de críticas do futuro que está por vir: uma possível inflação de 20% a 30% ao mês e o aumento da pobreza, que já passa de 40%. O problema é que os salários não vão acompanhar o aumento dos preços, uma ação deliberada para forçar a queda no consumo e circulação de moeda, um jogo que promete ser um teste de fogo para um presidente que tem uma margem de erro muito curta e uma governabilidade frágil.

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Na terça-feira, 12, o ministro da Economia, Luis Caputo, anunciou um pacote de dez medidas para conter o déficit argentino e evitar a sombra da hiperinflação. A principal delas foi a desvalorização de 55% do valor da moeda, jogando o dólar de um pouco mais de 400 pesos para 800 pesos. O reflexo imediato foi nos preços: os mercados já começaram a fazer remarcações e relataram a chegada de listas com reajustes acima de 20% nos alimentos.

Na última quarta-feira, 13, o instituto de estatísticas da Argentina publicou que a inflação saltou para 160%, indicando que o ano deve fechar próximo dos 200% depois da desvalorização. Para somar a isto, o programa de controle de preços criado pelo governo Alberto Fernández está paralisado desde o segundo turno das eleições e já é considerado acabado. Com isso, preços que foram mantidos artificialmente abaixo da tabela estão sendo corrigidos e jogarão a inflação para índices cada vez mais elevados nos próximos dias.

Mulher compra carne em um açougue em Buenos Aires, no dia do anúncio das medidas econômicas de Milei Foto: Luis Robayo/AFP

Se não bastasse, o preço dos combustíveis, que também era mantido sob controle do Estado, foi liberado pelo governo Milei e deve se ajustar em 30% nas próximas semanas. A tudo isso se soma a redução de subsídios a energia, gás e transporte que deve começar já a partir do 1º dia de janeiro, um tema que é historicamente caro aos argentinos. Tudo isso promete corroer ainda mais o poder de compra dos argentinos, que ainda por cima não terão um reajuste de salário.

De acordo com o economista da Universidade Católica Argentina, Juan Carlos Rosiello, a decisão por congelar os salários é proposital, para conter o consumo e tentar, no longo prazo, fazer regredir a inflação por meio da menor circulação de moeda. Basicamente, um plano de conter a inflação por meio da recessão.

“O plano é justamente não aumentar os salários, porque quando você gasta mais do que recebe, a sua única alternativa é diminuir gastos”, explica. “Porque se faz a desvalorização e junto você ajusta os salários, a inflação não acaba nunca, porque você terá que emitir mais. O problema vai ser o quanto as pessoas vão aguentar esse método”.

A vendedora Sandra Prado, 47, disse se preocupar com o congelamento de salários e vê seis meses muito sombrios pela frente, mas aconselha os argentinos a ter fé no novo presidente. “Ele diz que serão seis meses que vamos piorar muito, mas depois dá esperança de que vamos caminhar para frente, que é o mais importante”, afirma. “A situação nos preocupa, mas temos que fazer o esforço, cortar gastos”.

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Milei, porém, já pediu um prazo mais longo do que sugeriu Prado. Em entrevistas logo após a sua vitória em segundo turno, o libertário afirmou que poderia demorar até dois anos para que a inflação comece a retroceder.

Historicamente os salários dos argentinos não acompanham a inflação. Em outubro, quando a inflação registrou uma queda, ficando em 8,3% após a desvalorização do peso promovida por Sergio Massa em agosto, os salários apresentaram um crescimento de 11%. Embora tenha sido acima da inflação mensal, ficou abaixo da taxa interanual, que naquele mês foi de 120%, contra 116,66% de aumento dos salários.

O indicador que corrobora o baixo poder de compra dos argentinos é a taxa de desemprego. Apesar da crise, a Argentina reduziu o seu desemprego para menos de 7%, enquanto a pobreza só cresce, indicando que o problema está na renda. Mas vale a ressalva de que esta taxa é de emprego formal, que vem reduzindo ano a ano no país. Segundo dados do Indec, quase metade dos argentinos está na informalidade.

Aposentados

Outro impacto na população será nos aposentados, sempre os mais afetados pelas desvalorizações. O próprio governo Milei projeta que as medidas reduzirão em 40% o poder de compra dos aposentados, que atualmente recebem um mínimo de 160.713 pesos (em torno de R$ 818 na cotação de 14/12 do dólar blue). Segundo projeções, enquanto a inflação se aproxima de 200%, os salários dos aposentados cresceria 22 pontos percentuais a menos.

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Isso porque, o governo tentará eliminar a lei de mobilidade de aposentadoria, aprovada pelo Congresso, que concede quatro ajustes anuais aos aposentados. A medida atenderia a uma exigência antiga do Fundo Monetário Internacional (FMI): ajustar o sistema previdenciário.

O porta-voz da presidência, Manuel Adorni, porém, prometeu que o governo reavaliará a situação. “Se espera que a inflação siga sua tendência de aumento e os aposentados vão perder muito mais do que vinham perdendo”, admitiu Adorni. A intenção do governo, segundo ele, “não é dar aumentos discricionais, mas terminar com um esquema previdenciário que transformou os aposentado em pessoas que passam necessidades.”

Até o momento, nenhum plano foi traçado para os aposentados. Porém, o porta-voz deu a entender que o governo pode conceder aumentos esporádicos às aposentadorias por decreto.

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Senhora observa o preço dos legumes em Buenos Aires Foto: Luis Robayo/AFP

A aposentada Griselda Binzttel, 78, desabafou que já não compra mais carnes com o valor mínimo da aposentadoria que recebe. E agora, além dos ajustes de Milei - que ela não se coloca contra -, ela também se preocupava com o fim do programa Preços Justos de controle de preços. “Eu só conseguia fazer compras por causa do Preços Justos. Agora terei de ver como vai ficar o futuro”, afirmou.

O economista da Universidade de Buenos Aires (UBA) Fabio Rodriguez explica que medidas que causam explosão inflacionária, como foi é o caso dos ajustes que propõe Milei, exigem um plano de “compensação social”, que serve para evitar os conflitos sociais que o empobrecimento tende a trazer. As dez medidas de Milei - que estão longe de ser um plano econômico, segundo economistas - não trazem uma linha de compensação.

“Tem apenas duas medidas específicas de aumento em apenas dois programas: AUH (Asignación Universal por Hijo, programa semelhante ao Bolsa Família brasileiro e cartão alimentação”, afirma. Ambos os programas são voltados a famílias pobres e com crianças. Em uma de suas medidas, Milei anunciou o aumento desses benefícios, única estratégia desenhada para mitigar o impacto da inflação nos próximos meses.

Para Rosiello, para conquistar esta paciência mais longa da população com o governo, seria preciso seguir com ajustes ao que Milei conveniou chamar “a casta”. Já no seu primeiro decreto presidencial, o libertário reduziu para metade o número de ministérios, e no dia seguinte reduziu secretarias e sub-secretarias. Mas o economista da UCA observa que isso está longe de ser uma redução do tamanho do Estado.

“Se você tem 100 funcionários públicos que são concursados e, portanto, não podem ser demitidos, distribuídos em 10 ministérios, quando você reduz o número de ministérios, esses funcionários terão de ser redistribuídos nos ministérios que sobraram. Não é um corte real de gastos”, afirma o economista.

“Para conseguir avançar com essas medidas, que vão exigir um esforço tremendo de todo a população, o governo deveria fazer coisas que eu não estou vendo fazer, pelo menos não na medida que deveria. Um sinal muito forte seria o encolhimento do Estado e da classe política. Porque se o país está falido, eu, como presidente, cortaria motoristas, carros oficiais, ou seja, todos os luxos que um funcionário pode ter num país normal.”

Logo após os anúncios de Milei, centrais sindicais acusaram o governo de “não cortar da casta, mas do povo” e foram convocados protestos para o próximo dia 20 de dezembro, dia em que se relembra o massacre da Plaza de Mayo durante a crise de 2001. Em resposta, a ministra da Segurança, Patricia Bullrich, anunciou nesta quinta que colocará as forças policiais para reprimir e punir protestos que fechem vias de acesso de Buenos Aires.

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