O presidente dos EUA, Donald Trump, autorizou operações da CIA contra a Venezuela, visando cartéis de drogas. Nicolás Maduro repudiou as ações, chamando-as de tentativa de golpe. A tensão aumentou após eleições contestadas em 2024, onde a oposição alegou vitória. Trump, com apoio de Marco Rubio, intensificou a pressão militar, enviando navios ao Caribe. A CIA pode realizar operações letais, mas não está claro se planeja atacar Maduro. A oposição venezuelana apoia a mudança de regime com ajuda externa.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, autorizou na última quarta-feira, 15, operações da CIA contra a Venezuela e disse que estava considerando realizar ataques em terra contra cartéis do tráfico de drogas no país. Quase imediatamente, o ditador venezuelano Nicolás Maduro repudiou o que chamou de “golpes de Estado da CIA” e acusou Trump de forçar uma mudança de regime.
As operações da CIA, reveladas pelo jornal The New York Times e confirmadas pelo presidente horas depois, são uma escalada nas ações americanas no Caribe, que já contaram com ataques a embarcações e mobilização de navios e guerra dos EUA.
O republicano foi questionado sobre a reportagem do NYT, ao qual não quis comentar em detalhes. “Mas o autorizei por duas razões, realmente”, disse, antes de acusar Maduro de liderar um regime “narcoterrorista” e de libertar criminosos das prisões e mandá-los aos Estados Unidos.

Quando questionado se havia dado à CIA autoridade para “eliminar” Maduro, Trump disse: “É ridículo me fazer essa pergunta. Na verdade, não é uma pergunta ridícula, mas não seria ridículo se eu a respondesse?”
Abaixo o que se sabe até agora sobre as ações dos Estados Unidos na Venezuela:
Pressão sobre Maduro após as eleições
Maduro está em quase completo isolamento internacional desde que se negou à deixar o cargo após as eleições presidenciais de 2024. Na ocasião, o órgão eleitoral do país, que é comandado pelo governo chavista, disse que Maduro havia ganhado a disputa contra o opositor Edmundo González Urrutia, que concorria no lugar da inelegível María Corina Machado. O governo, porém, nunca apresentou as atas eleitorais que provavam o resultado.
A oposição, por sua vez, foi capaz de reunir cerca de 80% de atas coletadas diretamente dos locais de votação, com ajuda de seus fiscais de urna e de boa parte da população. Com essas atas, os resultados apontavam uma vitória de González Urrutia por mais de 60% dos votos, um percentual corroborado por órgãos internacionais e independentes de observação eleitoral.
Diversos países reconheceram a vitória de Edmundo González e rechaçaram Maduro. Foi o caso dos Estados Unidos, na época governado pelo democrata Joe Biden, que não foi muito além disso. Depois que Trump assumiu a Casa Branca novamente, se esperava um aumento das pressões contra Maduro, principalmente por causa da escolha de Marco Rubio como secretário de Estado.
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Desde a eleição, várias das lideranças da oposição se exilaram nos Estados Unidos, incluindo os cinco venezuelanos que estavam abrigados na embaixada argentina em Caracas custodiada pelo Brasil. Edmundo se exilou na Espanha. Apenas María Corina permanece na Venezuela em local desconhecido.
De Washington, a oposição foi aprofundando laços com o governo Trump. Segundo afirmou o porta-voz da oposição David Smolansky ao Estadão na semana passada, a equipe tem tido muito diálogo tanto com o gabinete de Trump quanto com membros do Congresso.
Essa oposição liderada por María Corina defende a mudança de regime na Venezuela, já tendo inclusive defendido intervenções militares para isso. Nessa questão, eles têm em Rubio um grande aliado.
Guerra contra os cartéis
Antes da escalada militar, Trump estava menos enfurecido com Maduro. Muito por causa de sua política de deportação em massa, a maior promessa da campanha do republicano. Para fazer com que Maduro aceitasse receber seus voos de repatriação de imigrantes, Trump não aplicou imediatamente a máxima pressão. Mas a paciência parece ter chegado a um limite.
O governo americano encontrou uma saída controvertida para deportar venezuelanos: enviá-los a El Salvador. Dessa forma, não precisava mais de Maduro. Com isso, Trump passou a focar em outra grande promessa de campanha: combate ao narcotráfico.
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Em entrevista à Coluna, em maio, a vencedora do Nobel da Paz falou sobre como é unir o país em meio ao regime de Nicolás Maduro.
Assim que assumiu, Trump designou que cartéis de drogas se enquadravam como “organizações terroristas”, o que na prática dá poder aos EUA de impor sanções duras contra essas organizações. A medida inicialmente servia de pressão ao México, mas logo se voltou contra Maduro.
Navios de guerra no Caribe
Em agosto, Trump autorizou o Pentágono a usar força militar contra esses cartéis, sendo o grupo venezuelano Tren de Aragua um dos principais. Dias depois, o governo enviou três navios de guerra ao Mar do Caribe. Depois chegaram caças.
O republicano ordenou o envio de 10 mil homens para o Caribe, além de oito navios de guerra, entre submarinos, contratorpedeiros e uma embarcação adaptada para ataque anfíbio.
No início de setembro, os EUA promoveram um ataque mortal contra um navio venezuelano, dizendo que a embarcação supostamente transportava drogas. Onze pessoas ficaram mortas no ataque. Desde então, já ocorreram pelo menos cinco ataques contra pequenas embarcações venezuelana, com saldo de 27 mortos.
Maduro chegou a enviar uma carta a Trump pedindo diálogo, mas a Casa Branca rejeitou a mensagem. O regime então passou a convocar a população para aprender a atirar. Na última quarta, Maduro ordenou exercícios militares nas maiores comunidades do país.
Maduro nega as acusações de Trump de liderar redes de narcotráfico e afirma que elas são uma desculpa para justificar uma incursão na Venezuela, que enfrenta a “ameaça militar mais letal e extravagante da história”.

Operações da CIA
Em um último desenvolvimento, Trump disse que considera atacar por terra cartéis de droga que operam na Venezuela.
Trump disse que autorizou a CIA a conduzir ações secretas na Venezuela porque os líderes do país “esvaziaram suas prisões nos Estados Unidos da América”, embora não haja evidências de que a Venezuela tenha direcionado intencionalmente pessoas a migrarem para a fronteira EUA-México.
A nova autoridade permitiria à CIA realizar operações letais na Venezuela e conduzir uma série de operações no Caribe. A agência poderia tomar medidas secretas contra Maduro ou seu governo, seja unilateralmente ou em conjunto com uma operação militar mais ampla.
Não se sabe se a CIA está planejando alguma operação na Venezuela ou se as autoridades são uma medida de contingência.
A CIA há muito tempo tem autoridade para trabalhar com governos da América Latina em questões de segurança e compartilhamento de inteligência. Isso permitiu que a agência trabalhasse com autoridades mexicanas para combater cartéis de drogas. Mas essas autorizações não permitem que a agência realize operações letais diretas.
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Derrubada de Maduro?
Toda essa escalada fez oficiais americanos e venezuelanos se questionarem se o objetivo de Trump é a derrubada de Maduro. Antes da confirmação da autorização de operações da CIA, especialistas especulavam uma probabilidade de 50% de ataque militar dos EUA contra a Venezuela.
No fim de setembro, o NYT publicou que a estratégia do governo Trump para a Venezuela, desenvolvida pelo linha-dura Marco Rubio, com a ajuda de John Ratcliffe, o diretor da CIA, é tirar Maduro do poder.
De acordo com o jornal, Rubio está elaborando uma estratégia mais agressiva contra o país, utilizando informações fornecidas pela CIA, disseram as autoridades.
Rubio argumenta que Maduro é um líder ilegítimo que supervisiona a exportação de drogas para os Estados Unidos, o que, segundo ele, representa uma “ameaça iminente”.
Como autoridades do governo afirmam que Maduro está no topo da rede de cartéis da Venezuela, elas podem argumentar que removê-lo do poder é, em última análise, uma operação de combate às drogas.
Rubio cita repetidamente o indiciamento de 2020 do Departamento de Justiça contra ele e outras autoridades venezuelanas por tráfico de drogas. Recentemente, ele descreveu Maduro como um “foragido da justiça americana” e chefe de “uma organização terrorista e de crime organizado que tomou conta de um país”.

Ao mesmo tempo, duas figuras importantes da oposição venezuelana dizem que seu movimento está planejando o que fazer se Maduro cair e têm conversado com o governo Trump sobre essa possibilidade.
Autoridades do governo Trump não confirmaram se houve tais trocas, e a Casa Branca não comentou o assunto.
Ao Estadão, o porta-voz da oposição defendeu as ações americanas na Venezuela, dizendo que elas visam cortar a fonte de renda do regime.
“Os venezuelanos já decidiram por uma mudança de regime. No ano passado, na eleição presidencial, demonstramos que vencemos com as atas, e isso tem que ser combinado com a pressão externa porque estamos diante de uma situação criminosa”, disse.
A própria María Corina Machada, logo após ser laureada com o prêmio Nobel da Paz deste ano, afirmou que Maduro deixará o poder com ou sem negociação.
Em entrevista à Agence France-Press, María Corina afirmou que apoia a ação militar, mas evitou falar em invasão. “A invasão que existe aqui é a dos cubanos, dos russos, dos iranianos, do Hezbollah, do Hamas, dos cartéis de drogas, da guerrilha das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Essa é a invasão que ocorre na Venezuela”, disse./Com informações de AFP e NYT








