Escreve toda semana sobre as relações internacionais e sobre as encruzilhadas da História no mundo contemporâneo

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Qual o verdadeiro objetivo de Israel em sua guerra com o Irã?

Israel vê na atual situação uma janela de oportunidade para derrubar o governo iraniano

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Foto do autor Filipe Figueiredo
Atualização:

Sistema de defesa aérea de Israel é ativado em Tel Aviv em meio ao aumento das tensões com o Irã

Israel e Irã voltam a trocar ataques aéreos no quinto dia de guerra no Oriente Médio. Crédito: StringersHub via AP Video Hub

O objetivo israelense em sua guerra com o Irã é muito maior do que destruir o programa nuclear iraniano. O governo de Binyamin Netanyahu, com apoio de parte considerável do comando militar israelense, vê na atual situação uma janela de oportunidade para derrubar o governo iraniano. Essa intenção, embora pouco debatida na mídia, especialmente a brasileira, não é nenhum segredo.

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Logo no dia 9 de outubro de 2023, dois dias após o ataque do Hamas contra Israel, Netanyahu, em suas primeiras palavras públicas sobre como seria a resposta israelense ao ataque, afirmou que o “Oriente Médio seria remodelado”. O Hamas, cuja gênese está na egípcia Irmandade Muçulmana, é sunita, mas tem, ou tinha, no xiita Irã o seu principal financiador e fornecedor de inteligência e de armamentos.

As relações entre Irã e Israel foram uma montanha russa nos últimos setenta e cinco anos. Inicialmente, o Irã votou contra a criação do Estado de Israel no âmbito da ONU. No início dos anos 1950, o Irã estava em processo de nacionalizar as suas reservas de petróleo, essenciais para britânicos e para os EUA. Isso motivou o infame e bem documentado golpe de estado de 1953, contra o premiê Mohammad Mosaddegh.

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, participa de uma coletiva de imprensa em Jerusalém, Israel Foto: Ronen Zvulun/AP

A monarquia iraniana ficou ainda mais autoritária e o país, no contexto da Guerra Fria, tornou-se um país pró-Ocidente. Nesse contexto, o Irã estabeleceu relações com Israel. Ainda mais, os dois países viam os nascentes regimes nacional-desenvolvimentistas árabes, como Síria e Iraque, como inimigos comuns. Em 1979, veio a revolução que derrubou a monarquia e resultou no governo de Ruhollah Khomeini.

Isso não significou uma ruptura imediata. A própria revolução foi multifacetada, envolvendo diferentes grupos, como os comunistas, que depois foram perseguidos pelo novo regime iraniano. Na década de 1980, Irã e Israel mantinham certa cooperação clandestina, especialmente no contexto da guerra Irã-Iraque, contra o inimigo comum Saddam Hussein. Exemplo talvez mais conhecido e infame desse período seja o escândalo Irã-Contras, uma grande rede de tráfico de armas e de entorpecentes envolvendo o governo Reagan, a Nicarágua, Israel e o Irã.

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Também nos anos 1980, entretanto, começa a se desenhar a guerra indireta entre Israel e Irã. Talvez momento seminal seja a invasão israelense do Líbano, em 1982, naquele momento em guerra civil, envolvendo atores locais e também os palestinos, com a OLP expulsa da Jordânia. A população xiita libanesa, historicamente pouco privilegiada no seu país, passa a receber apoio financeiro e militar do Irã. O grande exemplo dessa relação é a criação do grupo Hezbollah, criado para lutar contra os israelenses.

O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, participa de uma reunião em Teerã, Irã Foto: Escritório do lider supremo do Irã/AFP

O novo governo iraniano passa então a se aproximar de populações xiitas pela região, buscando estabelecer uma rede de apoios e alianças, especialmente por ainda estar travando uma guerra contra o Iraque, um país de maioria xiita, porém governado por uma ditadura militar apoiada pela elite sunita. Nos anos 1990, com as negociações de paz entre israelenses e palestinos ocorrendo em Oslo, e a normalização de relações entre Israel e Jordânia, o Irã também busca se projetar como uma espécie de “legítimo defensor” da causa palestina, em contraste aos árabes “traidores”, incluindo a OLP.

Isso inclui o fortalecimento de relações com o já citado Hamas, um grupo religioso, não secular, em contraste com a OLP de Arafat. Ao final da década de 2010, o Irã terá se estabelecido como potência regional com uma rede de parcerias e alianças apelidada de “círculo de fogo”. Hezbollah no Líbano, Bashar al-Assad na Síria, diversas milícias xiitas no Iraque, os houthis do Iêmen e o Hamas na Palestina. Um dos principais arquitetos desta estratégia foi Qasem Soleimani, general iraniano da Guarda Revolucionária, um “Estado dentro do Estado” iraniano, morto pelos EUA em janeiro de 2020, nos momentos finais do primeiro governo Donald Trump.

Ao mesmo tempo, especialmente após a invasão do Iraque em 2003 e o declínio do poder sírio, o Irã passou a ocupar cada vez mais o papel de principal inimigo e de ameaça existencial na visão política israelense. A política e a sociedade israelense, muito militarizadas, precisam de um inimigo que ocupe esse papel. Isso foi comentado desde pela judia Hannah Arendt, que dizia criticamente que Israel se tornaria uma espécie de “nova Esparta”, e também por pensadores contemporâneos, como o escritor Gideon Levy.

Bombardeio israelense atinge instalação de petróleo em Teerã, Irã Foto: Vahid Salemi/AP

Ou seja, a disputa regional entre Irã e Israel também foi conveniente para ambos em diversos momentos. A oposição à “entidade sionista” e o discurso de “varrer Israel do mapa” garantiram legitimidade do Irã perante certos setores. Ao mesmo tempo, a “ameaça existencial” iraniana forneceu justificativa para a constante modernização bélica israelense, em parceria com os EUA, incluindo o fornecimento de certos armamentos que nenhum aliado da OTAN recebe de Washington.

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O governo israelense considera que o Irã estaria em um momento de fragilidade. Enfraquecimento do Hamas e do Hezbollah após o ataque de sete de outubro de 2023, a queda de Bashar al-Assad, as crises econômicas iranianas, ligadas também às sanções econômicas e ao fim do acordo nuclear com os EUA, e protestos internos contra as violações sistemáticas de Direitos Humanos realizadas pelo Estado iraniano e por maior participação política, especialmente por mulheres, enfraqueceram o governo iraniano nessa visão.

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A janela de oportunidade também é conveniente pelo momento de crescente crítica internacional contra a destruição e mortandade em Gaza, incluindo a caracterização de ações israelenses como derivadas de um intenção genocida, algo feito também por estudiosos israelenses, como Omer Bartov. Para o réu Netanyahu, que precisa permanecer no poder e venceu um voto de desconfiança no Knesset, desferir um “golpe mortal” contra o Irã seria mais do que possível, mas também conveniente.

O próprio Netanyahu deixou essas intenções claras em junho de 2025, no contexto dos ataques aéreos realizados por Israel contra o território iraniano. Tais ataques se somam à cooperação da inteligência israelense com grupos étnicos minoritários dentro do Irã, como curdos e túrquicos-azeris, por um levante generalizado contra o governo. A derrubada do governo iraniano é o verdadeiro objetivo israelense e é o verdadeiro ponto de discussão.

Embora os países da Europa ocidental e os Estados Unidos não queiram um Irã nuclear e apoiam, direta ou indiretamente, as ações israelenses, esses atores temem também que causar uma revolta generalizada no Irã poderia abrir uma caixa de Pandora para uma crise ainda mais profunda, tal como ocorreu no Iraque pós-Saddam Hussein. Para Netanyahu, entretanto, esse é o cenário desejado.

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Opinião por Filipe Figueiredo

Filipe Figueiredo é graduado em história pela USP, comentarista de política internacional e criador dos podcasts Xadrez Verbal e Fronteiras Invisíveis do Futebol, sobre política internacional e história