‘José Antonio Kast se vê como o salvador do Chile’, diz autora da biografia do candidato

O favorito para vencer as eleições presidenciais de dezembro é descrito como encantador, ‘do povo’, narcisista e com devaneios messiânicos em livro das jornalistas María José Hinojosa e Javiera González

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Foto do autor Carolina Marins
Atualização:

Chile elege novo presidente em meio a favoritismo da direita

Conservador José Antonio Kast e comunista Jeannette Jara disputam o segundo turno das eleições presidenciais neste domingo.

Foto: Cedida ao Estadão por María José Hinojosa
Entrevista comMaría José HinojosaJornalista e co-autora do livro 'Kast: el mesísas de la derecha chilena'

Foram três anos observando atentamente os trejeitos e paixões em torno de José Antonio Kast, o favorito na disputa presidencial do Chile, para produzir o livro “Kast: el mesías de la derecha chilena” (Kast: o messias da direita chilena, em tradução livre).

As jornalistas María José Hinojosa e Javiera González já viam desde antes de 2021, as últimas presidenciais, o potencial que aquele político de posições extremas tinha de chegar ao Palácio La Moneda. As pesquisas agora reforçam que ele tem vantagem sobre a comunista Jeannette Jara em 14 de dezembro.

A biografia não autorizada foi publicada em 2024 pela editora Planeta – sem edição no Brasil – e contou com entrevistas a aliados e ex-aliados do presidenciável, além de revisão de notícias e cobertura de eventos com a presença do político.

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O candidato à presidência do Chile, José Antonio Kast, do Partido Republicano Foto: Raul Bravo/AFP

Kast se recusou a conceder entrevista para o livro, algo comum de sua personalidade. Ele evita se expor para não cometer erros e cansou de ser questionado por seu passado familiar ligado ao ditador Augusto Pinochet e aos nazistas.

“Ele é encantador”, descreveu María José Hinojosa em entrevista ao Estadão. “É uma figura política muito carismática, de fato muito próxima das pessoas. Ele dedica seu tempo a conversar, ele se posiciona como se o partido e seu projeto político girassem ao redor de sua pessoa, não é um projeto coletivo, mas sim um projeto pessoal.”

O adjetivo “messias” não foi despropositado. “Messias foi um nome que surgiu entre seus detratores que antes eram personagens que o apoiavam, acusando-o de ter delírios messiânicos e isso é porque Kast é uma liderança completamente unipessoal que não pensa no coletivo como tal, mas se vê como um salvador diante da crise política existente.”

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Confira a entrevista com María José Hinojosa na íntegra:

Por que você e Javiera decidiram escrever a biografia de José Antonio Kast?

Começou como nosso trabalho de conclusão de curso e escolhemos fazer jornalismo investigativo escrito. A verdade é que ambas estávamos muito interessadas em como os movimentos de ultradireita estavam se formando ao redor do mundo, e a figura de Kast, posicionando-se como um outsider dentro da direita, realmente chamou nossa atenção. Começamos então a analisar esses comportamentos que repetiam padrões com outras figuras da direita, como [Jair] Bolsonaro no Brasil. E criamos uma hipótese, o que é muito estranho para um jornalista fazer, mas formulamos uma tese de que seria uma figura que viria a ganhar muito mais importância, mais relevância no espectro político. E nós realmente pensávamos, quando começamos a investigar, que era uma carta presidencial forte, especialmente ao analisar o descontentamento que existia na população com os partidos tradicionais em 2018 e 2019, quando ocorreu o estallido social. Após esse estallido, houve uma reconfiguração no sistema político com os processos constituintes fracassados. Então, as posturas mais extremas começaram a ganhar muito mais protagonismo do que os partidos tradicionais. A partir disso, queríamos investigar o porquê. A verdade é que a professora que nos orientou nesta investigação já havia estudado também a UDI [União Democrática Independente], que é um partido tradicional de direita, a Opus Dei, os evangélicos, então a partir dos estudos que ela já tinha, nós queríamos analisar como todo o Partido Republicano estava se formando.

Capa do livro 'Kast: el mesías de la derecha chilena' Foto: Cedida ao Estadão por María José Hinojosa

Por que o nome messias para o título?

Messias por vários motivos. Primeiro, claramente pelo tema religioso que é uma das principais motivações que faz de Kast um personagem. Por exemplo, ao contrário de figuras como [Javier] Milei ou o próprio Donald Trump, eles não têm a religião como parte fundamental, enquanto Kast sim. Por outro lado, “messias” foi um nome que surgiu entre seus detratores que antes eram figuras que o apoiavam, acusando-o de ter delírios messiânicos. Isso é porque Kast é uma liderança completamente unipessoal que não pensa no coletivo como tal, mas se vê como um salvador diante da crise política existente. Ele se vê como a solução, a resposta. Então, o que ele gerou com sua liderança é que aqui parece existir uma luta entre os bons e os maus e ele seria como o herói. Por isso, quisemos chamá-lo de o ‘messias da direita chilena’.

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Como foi o processo de apuração para reconstruir a sua personalidade?

Um dos obstáculos que existiu foi o tema das entrevistas, porque, como estávamos em pleno processo eleitoral, muitos detratores não queriam falar ou falavam em off. Isso ainda assim serviu para criar um relato com partes narrativas, contando a história. Mas principalmente o que fizemos foi um trabalho bem etnográfico, bem empírico de participar diretamente nas atividades, para poder não só demonstrar ou informar sobre o candidato em si, mas o que o candidato provocava em seus possíveis eleitores, a emoção que se criava dentro do processo, como o Partido Republicano funcionava e, no final, todo o processo eleitoral que estava girando em torno deste personagem. Então, isso se dividiu em entrevistas, principalmente em off, a experiência concreta na qual estivemos em primeira pessoa, e também muita bibliografia através de meios de comunicação, porque os meios de comunicação estavam analisando muito intensamente.

Kast não aceitou conceder uma entrevista para o livro?

Não, ele não aceitou. De fato desde o primeiro momento ele não aceitou. Nós conversamos com ele quando estávamos fazendo o trabalho universitário e ele recusou, disse que para ele os trabalhos universitários eram completamente tendenciosos. Depois, quando já era a construção de um livro, a verdade é que deixamos sua assessora de imprensa exausta, porque estávamos praticamente a assediando e ela adiava, dizia: ‘vamos encontrar um espaço na agenda, isso e aquilo’, e nunca se concretizava até que ela, por fim, parou de responder. E quando já estávamos próximos à data de publicação, uma semana antes, eles entraram em contato comigo e me pediram se poderiam obter uma cópia antes, ao que nós não aceitamos.

E depois, como Kast e sua equipe reagiram à publicação?

Após a publicação, eles se mantiveram completamente reclusos. Na realidade, Kast é uma pessoa que evita muitos temas. Atualmente ele recusou-se a participar dos debates. O que é algo sem precedentes que acontece aqui porque existe uma cultura muito informativa em relação às eleições, as pessoas se envolvem muito. Apesar de haver um descontentamento com a política tradicional, há uma cultura cívica muito importante e as pessoas gostam de participar dos debates e tudo mais. Mas já foram cancelados três programas de televisão porque o Kast não vai aparecer, então ele simplesmente optou recentemente por se retirar lentamente e assim o fez com o livro.

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Como a geografia ajuda a explicar a América Latina?

Apesar das distâncias, nós compartilhamos muitas coisas com os nossos vizinhos. Crédito: Texto: Rodrigo da Silva | Apresentação: Amanda Botelho | Edição: Gabriella Lodi / Estadão

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Você disse que falou com Kast antes da publicação. Como ele é no dia a dia?

Ele é encantador. É uma figura política muito carismática, de fato muito próxima das pessoas. Ele se dá ao tempo de conversar, ele se posiciona como se o partido e seu projeto político girassem ao redor de sua pessoa, não é um projeto coletivo, mas sim um projeto pessoal. Ele tem muito protagonismo, então ele é muito próximo das pessoas, gosta de se mostrar e tudo mais, mas ao mesmo tempo tem uma contradição que o torna também muito distante porque ele se mostra como se não fosse igual aos demais. Ele é diferente. Essa lógica de que ele seria diferente, que ele é o escolhido se repete. Por exemplo, ao contrário de Milei, que se identifica como anti-casta, ele é um ex-casta, porque ele foi parte da política tradicional, militou em um partido político, foi deputado por três períodos, mas depois ele se posiciona como alguém que saiu dessa esfera e que agora vem entregar a estabilidade que não foi obtida dentro desses partidos políticos. Ele é diferente das pessoas e ao mesmo tempo ele é um personagem que verdadeiramente eu o definiria também como muito narcisista.

Javiera González e María José Hinojosa, autoras do livro 'Kast: el mesías de la derecha chilena' Foto: Cedida ao Estadão por María José Hinojosa

Como você definiria o Kast de hoje em comparação com o Kast candidato de 2021?

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Agora eu o considero uma pessoa muito mais séria e tende a se repetir como uma característica até chata diante da candidatura anterior. Isso porque ele soube ler muito bem o que as pessoas estão procurando. As pessoas estão muito apegadas a uma emocionalidade da nostalgia de que o tempo passado era melhor e, por isso, ele se aproximou muito mais das correntes conservadoras. Ele agora é um personagem muito sério, um político muito sério em diferença das eleições passadas em que ele aparecia dançando no TikTok e era como um personagem muito mais de redes sociais. É um personagem de terreno, de rua. De fato essa tem sido sua justificativa para se ausentar dos debates, ele está fazendo política na rua e isso agora o está diferenciando e caracterizando. É que agora, em diferença das duas eleições presidenciais anteriores, ele já fez sua marca pessoal conhecida. Então, agora o que ele está fazendo é reafirmá-la na rua, para que as pessoas sintam esse tipo de proximidade com o candidato que já é conhecido em diferença do que eram as candidaturas passadas.

Contribui para essa diferenciação o fato de ele estar competindo agora contra Jeannette Jara e não contra Gabriel Boric?

Sim. Ter uma candidata do Partido Comunista reforça o discurso de Kast de que se estão enfrentando a um inimigo. De fato, seu slogan foi o ‘sem comunismo’. Como ele foi o número cinco na cédula, então usava o ‘sem-comunismo’ (sin-comunismo, em espanhol, que se ouve ‘cinco’ rapidamente). Ele dizia sempre, porque esse foi o discurso que ele estabeleceu durante 4 anos durante o governo de Boric. O presidente Boric não é comunista, mas ele falava que era um governo comunista, então depois esse relato se materializa quando existe uma candidata comunista e isso jogou a favor de Kast, porque é um candidato que estabelece uma cultura do medo, não apenas o medo em temas de segurança, de migração, mas o medo diante de uma instabilidade de governo.

Falemos sobre o passado de Kast. Como era sua relação com a família?

Ele vem de uma família que se sente única e diferente. De fato, sua irmã, que faleceu muito jovem, Bárbara, é descrita pela sua família como praticamente uma santa, que tinha a habilidade de se comunicar com Deus, que ela servia a Deus. Então já existe na família uma visão de que eles vêm com uma missão ao Chile. De fato, isso também é relatado pela sua mãe em uma biografia. Eles escreveram uma biografia de sua mãe e relatam que vieram com uma missão e que, além disso, estão muito marcados pelo esforço. E essa noção de missão também é replicada no seu irmão Miguel, que foi uma figura ativa, marcante dentro da ditadura de Pinochet e era o modelo a seguir por José Antonio Kast. E de fato, ele vive à sombra quando entra na Universidade Católica, reconhecido como o irmão de Miguel. Ele não tinha uma liderança própria e é Jaime Guzmán [fundador da UDI] que encontra como uma faísca nele para que se torne um líder estudantil. Então, ele vem de uma família muito ligada à religião que sente esse tipo de missão pessoal que cada um de seus membros tem. Daí vem esse pensamento de que ele é um salvador.

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A candidata pelo Partido Comunista às eleições no Chile, Jeannette Jara Foto: Esteban Félix/AP

Com frequência Kast é questionado sobre o fato de que seu pai foi do Exército Nazista e seu irmão foi ministro da Economia de Pinochet. Como ele lida com isso?

No início, ele respondia com réplica, agora se vê que ele já se assumiu como uma pessoa pinochetista. Ele não o renega, não renega o passado de seu pai, de fato, por esses mesmos motivos, eu acredito que ele também se arrependeu de espaços de entrevistas, porque normalmente é uma das perguntas que se repete e ele já evita abordar. Também ocorreu um fenômeno bem interessante, bem preocupante também, a respeito de como a democracia se debilita, que é que atualmente uma das figuras que têm mais importância entre os jovens e que eles veem como um exemplo é a figura de Pinochet. Esta crise de segurança – que na realidade não é uma crise como tal, porque o Chile é um dos países que tem melhor segurança, mas é a sensação de insegurança – coloca essa necessidade de ordem quando na realidade não existe um desordem como tal, mas sim existe uma sensação de desordem que é porque o próprio discurso político dos personagens políticos reforçou isso. Nesse contexto, é muito preocupante que os jovens estejam buscando uma figura mais autoritária.

Você menciona como Kast é personalista e que o Partido Republicano orbita em torno dele, mas o que ele fala de propostas políticas concretas?

O principal é sua figura, sua personalidade. Ele oferece soluções simples para problemas complexos. É aí que a esquerda comete um erro ao debater com base em programas porque as pessoas não estão preocupadas com os programas políticos, mas sim, são muito mais movidas pela emoção neste processo e, por isso, ele oferece respostas simples. Construir um fosso [na fronteira], mobilizar os militares, atirar nos criminosos, reduzir 6 bilhões do orçamento sem explicar como vai tomar essas medidas, é porque ele está simplesmente oferecendo um discurso vazio no final.

Um exercício futurista: o que esperar de Kast caso ele se torne presidente do Chile? Como seria seu governo?

Eu considero que é perigoso para a democracia ter um presidente que se vê como um líder que só pensa em seu próprio interesse. A política e os líderes políticos têm que pensar em projetos coletivos, porque, além disso, quando se é governo, requer-se acordos, não só com o seu setor, mas com a oposição e, quase historicamente, uma pessoa que não é de acordos, que é intransigente frente a muitos temas e que quando um governo se baseia em uma única personalidade, isso gera muito mais instabilidade do que quando um governo trabalha através de um projeto coletivo, que é o que vimos, por exemplo, na Argentina.

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Os candidatos para a presidência do Chile José Antonio Kast e Jeannette Jara Foto: Raul Bravo/AFP

Kast saiu de um partido de direita tradicional e fundou o seu próprio. Por quê? Como se deu isso?

Quando Sebastián Piñera se tornou presidente, a direita começou a olhar para uma modernização também do seu discurso. Então, ela se torna muito mais liberal. De fato, grande parte da direita, por exemplo, muda os discursos valorativos ao apoiar, por exemplo, a lei de identidade de gênero, o casamento igualitário. Então, quando isso acontece, a ala mais forte da direita, a mais conservadora, se sente órfã. Sente-se sem representação e é aí que surge a figura de José Antonio Kast, que admirava o personagem de Jaime Guzmán, que é o fundador da UDI, que também é uma figura muito singular. Kast então diz que os valores da UDI, os valores da direita tradicional estavam se perdendo. E, por isso, ele renuncia ao partido, leva consigo um grande número de militantes e funda um movimento primeiro. E este movimento serve de base para o que depois se torna o Partido Republicano, inicialmente chamado Ação Republicana. Ele foi o primeiro a estabelecer este discurso e se torna muito polêmico porque ele é a figura que emana este discurso, que projeta este discurso e é aí que o partido começa, ou seja, primeiro o movimento e depois o partido, começa a assumir este papel como se fosse um partido que no final é uma catapulta para uma eleição presidencial pessoal. O problema, eu acredito aqui, e o que põe em perigo a governabilidade com um processo liderado por Kast, é que o projeto falha se o candidato – e, neste caso, eventualmente um presidente se for eleito – falhar. Esse é o problema.

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