É colunista do 'Estadão' e analista de assuntos internacionais. Escreve uma vez por semana.

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Acordo de paz com o Irã cria novo balanço de poder no Oriente Médio

Sob pressão de Trump, Netanyahu aceitou mais uma trégua, mas fará de tudo para torpedear esse acordo

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Foto do autor Lourival Sant'Anna

O memorando de entendimento entre EUA e Irã sela uma mudança no balanço de poder no Oriente Médio. O acordo recoloca o Irã na posição de potência regional. Inversamente, Israel vê sua aliança com os EUA abalada e a degradação do poder regional que havia conquistado a partir dos atentados do Hamas de outubro de 2023.

Já no primeiro parágrafo, EUA e Irã, “bem como seus aliados na guerra atual se comprometem a não iniciar qualquer guerra ou operação militar um contra o outro, a abster-se da ameaça ou do uso da força um contra o outro, e a garantir a integridade territorial e a soberania do Líbano”. Os aliados do Irã são o Hezbollah e os Houthis; dos EUA, Israel, que não participou das negociações e não concorda com o memorando.

Acordo prevê a criação de um fundo privado de US$ 300 bilhões para o Irã  Foto: AAMIR QURESHI/AFP

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O compromisso elimina os aspectos mais importantes da aliança entre EUA e Israel: a disposição americana de atacar o Irã e de apoiar as ações militares contra os grupos patrocinados pelo regime iraniano, em particular o Hezbollah no Líbano. Em tese, a Casa Branca poderia até vetar o uso de armas americanas por Israel, o que inclui sua defesa antiaérea.

Em contrapartida, o Irã mantém intactos seus pilares de dissuasão: o arsenal de mísseis e drones; os grupos armados que ele patrocina no Líbano, Iêmen, Faixa de Gaza e Iraque; a capacidade, agora provada, de fechar o Estreito de Ormuz; e o reconhecimento de seu direito a um programa nuclear pacífico, que pode futuramente se desviar para o uso militar.

O aumento do poder do Irã está associado também à quebra de confiança das monarquias árabes do Golfo na capacidade dos EUA de garantir sua segurança. A aventura no Irã, para a qual Donald Trump se deixou arrastar por Binyamin Netanyahu, rompeu duas décadas de segurança e prosperidade nesses países. As bases militares americanas nelas instaladas, em vez de proteção, serviram de para-raios, atraindo os mísseis e drones iranianos.

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Há semanas começaram os contatos diretos entre altos funcionários da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar e o Irã, que culminaram em reuniões presenciais. A conclusão de todos os países da região, incluindo dos Emirados, que se tornaram aliados de Israel, é a de que é preciso estabelecer um modus vivendi com o Irã para retomar o curso da segurança e da prosperidade.

Os EUA lideram a criação de um fundo privado de US$ 300 bilhões para o Irã. Ansioso por negócios lucrativos, Trump declarou que o regime iraniano “ama seu povo”. Sob pressão de Trump, Netanyahu aceitou mais uma trégua, mas fará de tudo para torpedear esse acordo. A assinatura foi adiada por causa dos ataques israelenses ao Líbano.

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