Reféns da faixa de Gaza retornam a Israel e reencontram familiares
Libertação é parte do acordo de cessar-fogo entre o governo israelense e o grupo terrorista Hamas, mediado pelos Estados Unidos. Crédito: Zangauker Family Handout/IRF/AP
O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, se referiu nesta semana ao presidente americano, Donald Trump, como o melhor amigo que seu país já teve na Casa Branca.
Na superfície, é um elogio que faz sentido. Trump acompanhou Israel nos bombardeios ao Irã em julho e, no primeiro mandato, mandou a embaixada americana para Jerusalém.
A base republicana, sobretudo os evangélicos mais conservadores, tem Israel em alta conta, e, no Congresso, o país tem aliados importantes dentro do movimento MAGA.

Mas Trump não tem amigos. Apenas interesses.
E são esses interesses que o levaram a perceber que estava sendo manobrado por Netanyahu, da mesma maneira que Netanyahu vem manobrando líderes americanos há 30 anos para impor sua agenda: o fim dos acordos de Oslo.
Trump articulou para tomar posse já com um acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas ainda em janeiro. O acordo, inclusive, era bastante parecido com o que foi assinado nesta semana.
A proposta de três fases previa um cessar-fogo inicial, seguida de uma segunda fase mais ampla com a retirada de Israel de Gaza e uma futura entrega do território a uma administração de tecnocratas palestinos, com os terroristas fora da jogada.

O plano de janeiro tinha muito do que tinha sido esboçado pelo governo Biden no ano anterior. Até porque é meio que a única solução possível para o atoleiro no qual essa guerra se transformou.
Mas em março Netanyahu optou por torpedear o cessar-fogo, com a justificativa de que isso pressionaria o Hamas a entregar os reféns.
Em julho, Trump negociava um acordo nuclear com o Irã que avançava lentamente, mas com sinais promissores. Netanyahu, citando provas de que Teerã estaria perto da bomba nuclear, optou por atacar o país unilateralmente e tentou convencer os EUA de que isso era necessário.
Trump topou, mas a partir de então começou a ficar com o pé atrás com o premiê.

O ataque israelense a membros do Hamas no Catar em agosto foi a gota d’água para Trump. Pressionado pelos seus aliados no Golfo Pérsico, o presidente americano passou a pressionar Netanyahu a aceitar o acordo atual.
O cessar-fogo negociado com o auxílio de Catar, Egito e Turquia é notável porque obriga Israel a abrir mão de três linhas mestras de suas ações em Gaza:
- A ajuda humanitária voltou ao controle da ONU e de ONGs reconhecidas internacionalmente
- Não abre margem para a limpeza étnica e anexação de Gaza, como o gabinete israelense vem ventilando desde 2023
- Deixa no horizonte a necessidade da criação de um Estado palestino e da reabilitação da Autoridade Palestina
Bibi chegou ao poder em Israel pela primeira vez em 1996, na esteira da morte de Yitzhak Rabin, o grande responsável pela assinatura dos acordos de Oslo com Yasser Arafat, quatro anos antes.

O então primeiro-ministro Shimon Peres era o favorito para aquela eleição até uma série de atentados terroristas do Hamas, que se opunha aos acordos de Oslo, deixar dezenas de mortos em Tel-Aviv e Jerusalém.
Netanyahu, que fez sua carreira política na época criticando tanto Rabin quanto o acordo de paz, acabou eleito.
Ele deixou o poder em 1999, mas retornou em 2009. Àquela altura, o cenário político israelense e palestino tinha mudado.
Em 2000, os palestinos perderam a oportunidade em Camp David de selar um acordo final de paz com o premiê trabalhista Ehud Barak.

Após a Segunda Intifada, o Likud voltou ao poder com Ariel Sharon. Em 2005, no entanto, Israel optou por desocupar a Faixa de Gaza pela primeira vez desde 1967, o que abriu caminho para eleições gerais entre os palestinos. O Hamas venceu o Fatah nas eleições, e em 2007, as duas facções palestinas romperam, deixando o Hamas no comando de Gaza e o Fatah à frente da Cisjordânia.
A rivalidade política entre seculares e islamistas nos territórios palestinos caiu como uma luva para Netanyahu. Desunidas, as facções não tinha legitimidade para negociar um acordo final de paz.
Além disso, a ameaça terrorista representada pelo Hamas fortalecia o discurso de Bibi de que a soberania palestina é um risco que Israel não pode correr.
Por fim, a manutenção do status quo facilitava tanto a expansão de assentamentos judaicos na Cisjordânia quanto mantinha indefinido o status dos milhões de palestinos vivendo sob ocupação e cerco de Israel.

Essa interdependência entre Netanyahu e o Hamas ficou ainda mais evidente nos anos que antecederam o 7 de outubro. Na ocasião, o governo de Bibi incentivou o Catar a enviar ajuda financeira à Faixa de Gaza, beneficiando o Hamas.
O cálculo era simples: um Hamas mais forte é uma Autoridade Palestina mais fraca e um Estado palestino mais distante. Deu no que deu.
Depois do 7 de outubro, no entanto, ficou inviável para Israel tolerar o status quo que vigorava desde 2007, com o Hamas em Gaza e a Autoridade Palestina enfraquecida na Cisjordânia enquanto o governo amplia os assentamentos em território ocupado.
Como dar cidadania para 7 milhões de palestinos não é opção para o Estado Judaico, muitos na coalizão de Netanyahu começaram a trabalhar pela expulsão deles de Gaza e pela radicalização das ações de colonos na Cisjordânia.

O acordo negociado por Trump e seus aliados árabes deixou claro que isso não é uma opção. Por mais que Netanyahu despreze a ideia de uma Palestina independente, ele precisa do reconhecimento de seus vizinhos regionais, por questões comerciais e estratégicas.
O reconhecimento saudita de Israel abriria portas para produtos e tecnologia israelense em todo o Oriente Médio e mundo muçulmano. Essa é a lógica por trás dos Acordos de Abraão, uma boa iniciativa de Trump ainda em seu primeiro mandato.
Mas, depois da carnificina em Gaza, as monarquias do Golfo são claras: sem Estado palestino, sem acordo. E a influência delas sobre Trump não é nada desprezível.
Outro ponto que fez com que Trump optasse por enquadrar o premiê israelense é a crescente divisão etária entre o apoio e o rechaço ao Estado judeu dentro dos EUA. Os jovens, à esquerda e à direita, estão cada vez mais com uma opinião negativa a respeito de Israel, como mostrou o repórter Daniel Gateno no Estadão.
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Mas, no fim das contas, nem Netanyahu nem o Hamas estão totalmente convencidos de que a guerra precisa acabar, e os últimos dias são prova disso.
O único líder palestino com credibilidade para unificar as distintas facções numa possível transição, Marwan Barghouti, segue preso.
O Hamas não só não abandonou as armas como está aproveitando a trégua para realizar um acerto de contas com clãs rivais e reafirmar seu controle sobre Gaza.
E Netanyahu ameaça romper a trégua diante da demora na entrega de corpos dos reféns mortos em Gaza, na espera que Trump rapidamente mude seu hiperfoco de atenção para outro assunto.
Como o próprio presidente americano disse, não é nada fácil negociar com Bibi.




