O desespero das mães venezuelanas deportadas dos EUA e que deixaram seus filhos para trás

Cerco migratório do governo Trump pressiona migrantes a embarcarem sozinhos de volta para casa; Caracas se mobiliza para repatriar menores

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Por Julie Turkewitz (The New York Times), Luis Ferré-Sadurní (The New York Times) e Isayen Herrera (The New York Times)
Atualização:
Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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O menino de 11 anos, natural da Venezuela, estava sozinho em sua casa no Texas, esperando pela mãe, que havia sido detida pelas autoridades de imigração dos Estados Unidos. Ela nunca mais voltou.

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Emmanuel Leandro Caicedo Venecia, o menino, acabou vivendo sozinho por três meses, frequentando a escola e indo a pé à sua formatura da quinta série para receber seu diploma, disse a mãe. Um vizinho levava comida, mas Emmanuel cuidava de si mesmo.

Sua mãe decidiu que tinha que ser assim. Com medo de que seu filho fosse colocado em um orfanato, ela tomou uma decisão enquanto estava detida: mentiu para os funcionários da imigração, dizendo que Emmanuel recebia cuidados de um adulto. Ela foi deportada para a Venezuela sem ele no final de julho, e Emmanuel acabou indo morar com um conhecido.

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Mães se reúnem no aeroporto de Maiquetia, perto de Caracas, Venezuela, em 12 de setembro de 2025, aguardando voos que esperavam que trouxessem seus filhos. Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT

“Continuo na esperança de que ele se reencontre comigo”, contou.

Histórias como a de Emmanuel se multiplicam nos EUA. Um número crescente de crianças venezuelanas tem sido deixado para trás após a deportação de seus pais, sob os cuidados de parentes, vizinhos ou quem pudesse assumir a responsabilidade. O governo venezuelano contabiliza 150 menores, de recém-nascidos a adolescentes, separados de seus responsáveis durante a campanha de deportações do governo Donald Trump. A maioria nasceu na Venezuela, alguns na Colômbia e outros nos EUA, o que torna a repatriação mais complexa.

Segundo Caracas, das 150 crianças separadas, 57 já foram reenviadas ao país em voos negociados entre os dois governos. Em meados deste mês, no entanto, 93 permaneciam nos EUA, número que, segundo a ditadura de Maduro, tende a aumentar. Não há registro oficial americano sobre as separações.

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Deisy Carolina Venecia Farías, que retornou à Venezuela sem seu filho de 11 anos, em Charallave, Venezuela, em 31 de outubro de 2025. Durante meses, ela aguardou o reencontro com seu filho. Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT

A ditadura venezuelana apresentou as listas ao Departamento de Estado americano, que as encaminhou ao ICE, mas a cooperação diplomática se deteriorou após tensões envolvendo ações militares de Washington no Caribe contra embarcações suspeitas de tráfico de drogas.

O New York Times entrevistou parentes de mais de uma dezena de crianças cujos pais teriam sido deportados ou estão detidos nos EUA e comparou os relatos com documentos judiciais e registros policiais. Muitos disseram ter escolhido a deportação sem os filhos para evitar longos períodos de detenção, acreditando que isso aceleraria o reencontro.

Outros, afirmaram ter sido pressionados por agentes de imigração a embarcar sem as crianças — e algumas delas acabaram em lares adotivos. Alguns, especialmente os que entraram nos EUA durante o governo Joe Biden, disseram ter sido informados de que viajar com as crianças implicaria meses de detenção enquanto as autoridades americanas organizavam o traslado.

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Em comunicado, uma porta-voz do Departamento de Segurança Interna, órgão superior do ICE, defendeu as políticas do governo Trump, mas não abordou as alegações da Venezuela nem informou quantas crianças permaneceram nos Estados Unidos.

Desenho feito por Deisy Carolina Venecia Farías para seu filho, Emmanuel Leandro Caicedo Venecia, exposto em sua casa em Charallave, Venezuela, em 11 de novembro de 2025 Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT

“O ICE não separa famílias”, disse a porta-voz, Tricia McLaughlin. “Os pais são questionados se desejam ser removidos com seus filhos, ou o ICE colocará as crianças com uma pessoa segura designada pelos pais.”

Embora algumas famílias tenham sido deportadas juntas, muitas mães e pais chegaram à Venezuela sem seus filhos, provocando uma corrida diplomática dentro do governo venezuelano para localizar e repatriar as crianças.

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Outros países latino-americanos — incluindo Guatemala, Honduras e México — parecem estar enfrentando separações semelhantes, às vezes envolvendo crianças nascidas nos Estados Unidos, de acordo com relatos da mídia. Mas nenhum país tem sido tão vocal sobre as separações quanto a Venezuela.

A ditadura de Nicolás Maduro transformou as separações em bandeira política contra os Estados Unidos em meio às crescentes tensões entre os dois países e um grande aumento militar americano no Caribe.

Anabel Bustamante, deportada dos Estados Unidos em julho de 2025, em sua casa em Los Teques, Venezuela, em 20 de setembro de 2025. Bustamante não vê suas filhas desde fevereiro. Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT

As próprias políticas de Maduro, incluindo repressão, má gestão econômica e violações dos direitos humanos, tiveram o maior papel na crise migratória que levou mais de sete milhões de pessoas a deixar a Venezuela, de acordo com uma ampla gama de analistas políticos e grupos de direitos humanos. Agora, ele está tentando se apresentar como um defensor dos venezuelanos que, segundo ele, foram maltratados por Trump.

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Famílias clamando pelo retorno de seus filhos depositaram quase todas as suas esperanças em Maduro. Elas participaram prontamente de comícios liderados pelo governo em Caracas, capital da Venezuela, e gravaram vídeos comoventes compartilhados nas redes sociais. Em agosto, muitas famílias assinaram uma carta à primeira-dama Melania Trump, pedindo-lhe que “ouvisse os gritos das famílias”.

“Minhas filhas me ligam perguntando quando vou buscá-las”, disse Anabel Bustamante, 26, que está separada de suas filhas de 3 e 7 anos há nove meses, em uma entrevista.

“Elas perguntaram recentemente se poderiam se esconder em uma caixa e ser enviadas para a Venezuela”, disse Anabel, cujas filhas, Diangerlin e Aranza, estão morando com a avó em Arkansas.

Anabel Bustamante não vê as meninas desde fevereiro, quando policiais apareceram em sua casa em uma rua tranquila no Arkansas, onde a família morava depois de migrar para os Estados Unidos há dois anos. Eles a acusaram de fraude de identidade não financeira, de acordo com registros policiais, o que ela supôs estar relacionado ao seu trabalho como motorista de entrega sem documentos.

Ela foi presa e transferida para um centro de detenção em Louisiana, onde disse que autoridades federais lhe pediram para assinar um documento se quisesse ser deportada com suas filhas. Ela se recusou a assinar, disse ela, por medo de que os agentes do ICE detivessem sua irmã e sua mãe se fossem buscar suas filhas.

Em julho, ela foi deportada, deixando suas filhas para trás.

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Jaimary José Cárdenas Paz, que foi deportada dos Estados Unidos em julho, reencontra seu filho, José Daniel Urdaneta Cárdenas, de 9 anos, no aeroporto de Maiquetia, perto de Caracas, Venezuela, em 12 de setembro de 2025 Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT

Uma escolha de Sofia

Muitos pais, a maioria dos quais entrou nos Estados Unidos durante o governo Biden, disseram ao The New York Times que lhes foi oferecida a opção de serem deportados com seus filhos.

Alguns deles consideraram isso uma escolha de Sofia: se quisessem ser deportados com seus filhos, os agentes do ICE disseram que teriam de passar até um ano detidos enquanto as autoridades americanas buscavam seus filhos e organizavam a viagem.

Jaimary José Cárdenas Paz disse que foi instada pelo ICE e por uma assistente social a ser deportada sem seu filho de 9 anos, José Daniel Urdaneta Cárdenas, depois que agentes a detiveram com seu parceiro do lado de fora de um tribunal de imigração em Boston, em 7 de maio.

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Em 19 de maio, enquanto Cárdenas, que havia entrado nos Estados Unidos em 2024, estava detida, um agente do ICE a entrevistou. Ela disse ao agente: “O que eu quero é sair daqui e voltar para o meu país com meu filho”, de acordo com uma transcrição.

Segundo ela, as autoridades lhe disseram mais tarde que José Daniel, que estava morando com sua tia em Massachusetts, “poderia ter um futuro melhor nos Estados Unidos” e talvez até mesmo receber a cidadania americana no futuro.

Deisy Carolina Venecia Farías com seu filho, Emmanuel Leandro Caicedo Venecia, em Charallave, Venezuela, em 11 de novembro de 2025, dias após o reencontro. Eles estiveram separados por quase sete meses após a deportação dela dos Estados Unidos. Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT

As autoridades de imigração disseram que ela permaneceria sob custódia do ICE por seis a nove meses se quisesse ser deportada com seu filho. Ela optou por partir sem José Daniel, em 11 de julho.

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McLaughlin, porta-voz do DHS, disse que Cárdenas “optou por ser removida sozinha e pediu que seu filho fosse colocado sob os cuidados de sua tia”. Seu filho foi deportado para a Venezuela dois meses depois, em setembro.

Alguns pais disseram ter escolhido um destino semelhante por temerem pela segurança de seus filhos nas mãos dos funcionários da imigração.

Alguns disseram nunca ter recebido uma escolha. Outros, que receberam orientações enganosas: uma mãe relata ter embarcado em um avião com a impressão de que seu filho estaria no voo, mas ele não estava.

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María Alejandra Rubio González disse que pediu repetidamente aos funcionários da imigração para ser deportada para a Venezuela com seu filho de 8 anos, Anyerson. Ele ficara com um amigo nos subúrbios de Atlanta depois que ela foi presa em 15 de março. Ela foi acusada de dirigir embriagada e sem carteira de motorista pelas autoridades locais, segundo registros da polícia.

“Eles me disseram: ‘Tudo bem, estamos cientes. Não se preocupe, você será deportada com seu filho’”, lembrou ela. Quando os oficiais tentaram colocá-la em um voo de deportação, ela se recusou a embarcar porque não viu seu filho no avião. “Eu chorei e chorei, e não embarquei”, disse ela. “Eles me enganaram.”

Rubio González acabou sendo deportada sem Anyerson em 23 de julho, junto com mais de 200 outros venezuelanos, incluindo quatro mães que também partiram sem seus filhos, disse ela.

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McLaughlin disse que Rubio González “optou por não entrar com um recurso” depois que foi condenada à deportação por um juiz e “cedeu a custódia de seu filho a uma amiga”. A mãe se reuniu com seu filho mais de seis meses depois, quando a amiga entregou Anyerson ao ICE e o governo venezuelano facilitou seu retorno em 17 de setembro.

O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, discursa em Caracas, Venezuela, em 25 de novembro de 2025 Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT

Rastreando crianças da Venezuela

Mais de 17 mil venezuelanos, em sua maioria homens, foram deportados para a Venezuela este ano, de acordo com autoridades venezuelanas.

Ao longo do caminho, diz o regime chavista, 150 crianças menores de 18 anos foram separadas de seus pais, depois que os adultos foram detidos ou deportados.

Cinquenta e sete dessas crianças se reuniram com suas famílias na Venezuela. Elas foram colocadas em voos de deportação após negociações entre os governos venezuelano e americano.

Autoridades venezuelanas compartilharam listas de crianças que desejam ter de volta com o Departamento de Estado dos EUA, que encaminhou essas informações ao ICE. Os canais diplomáticos parecem ter se deteriorado desde que os Estados Unidos começaram a atacar barcos suspeitos de contrabando de drogas na costa da Venezuela, mesmo com a manutenção dos voos de deportação.

Em meados de novembro, 93 crianças ainda estavam nos Estados Unidos, segundo autoridades venezuelanas, e o número deve continuar crescendo. Autoridades na Venezuela descreveram as separações em termos severos, acusando o governo Trump de “sequestrar” as crianças.

Apoiadores do ditador Nicolás Maduro se reúnem em um comício em defesa da soberania da Venezuela em Caracas, Venezuela, em 28 de outubro de 2025 Foto: Adriana Loureiro Fernandez/NYT

Casos analisados pelo Times mostram que muitos pais foram detidos pelo ICE após serem abordados por autoridades de imigração — ao saírem do tribunal de imigração ou em um posto de controle de trânsito — ou após terem problemas com a lei, de acordo com registros policiais.

Na Geórgia e no Texas, Estados nos quais as autoridades locais cooperam regularmente com o ICE, alguns pais foram parados pela polícia e presos por infrações de trânsito, como dirigir sem carteira, antes de serem transferidos para a custódia do ICE.

“Assim como os cidadãos americanos que cometem crimes podem enfrentar a separação de suas famílias, o mesmo pode acontecer com os estrangeiros ilegais”, disse McLaughlin.

‘Que seja o meu!’

Nos últimos meses, famílias ansiosas se reuniram no Aeroporto Internacional Simón Bolívar, nos arredores de Caracas, impulsionadas pela esperança de que os voos dos Estados Unidos incluíssem um grupo de crianças que haviam sido separadas de seus pais.

As mães rezam baixinho. “Que sea el mío, Dios mío, que sea el mío.”

“Que seja o meu, meu Deus, que seja o meu”.

Em uma manhã de setembro, um grupo de mães se desesperou ao saber que seus filhos não estavam no voo tão esperado. Seus gritos e súplicas ecoaram pelo terminal do aeroporto.

Mas a agonia também deu lugar a cenas de alegria.

Após quase sete meses separados, a mãe de Emmanuel, o menino de 11 anos que viveu sozinho por três meses, chegou ao aeroporto após ser informada de que seu filho voltaria para casa em 7 de novembro.

A mãe, Venecia Farías, 35, não o via desde sua detenção por agentes da Patrulha de Fronteira em 21 de abril, junto com o marido, enquanto dirigiam para sua casa perto da fronteira entre os Estados Unidos e o México, em Brownsville, Texas.

“Meu filho estava em casa, sozinho, esperando por nós”, disse ela. McLaughlin argumentou que ela foi detida pela Patrulha de Fronteira por tentar “reentrar ilegalmente no país” depois de deixar os Estados Unidos sem seu filho. Venecia Farías disse que isso era falso.

“Isso é loucura”, disse ela, insistindo nunca ter saído dos Estados Unidos, e ter sido presa após fazer uma curva errada no caminho para casa, entrando em um dos muitos postos de controle da Patrulha de Fronteira.

Ela relatou os desafios que enfrentou inicialmente para chegar aos Estados Unidos, incluindo milhares de dólares pagos a contrabandistas e um sequestro no México. “Você acha que eu iria deixar os Estados Unidos? Para o México?”

Depois que sua mãe foi detida, Emmanuel passou a maior parte do verão morando sozinho. Ele dormia em um colchão no chão e usava um nebulizador para tratar a asma crônica, disse sua mãe. Ele acabou indo morar com um conhecido no Texas, que cobrava de sua mãe US$ 400 por semana para cobrir as despesas do menino.

A quantia era tão alta que Venecia Farías teve que pedir dinheiro emprestado na Venezuela para pagar os custos. Emmanuel, chegando à adolescência, havia se tornado mais irritadiço. E as crises de asma sempre pairavam no ar.

Todas as preocupações chegariam ao fim. No início deste mês, Emmanuel desembarcou de um avião e avistou sua mãe entre uma multidão de famílias. Ele correu, passando pela multidão enquanto sua mãe abria os braços.

Ele pulou com tanta força que os dois caíram no sofá, chorando e se abraçando com força.

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