Qual a lição dada por Trump com o congelamento do envio de armas para a Ucrânia?

Se a segurança do Ocidente fracassar na Ucrânia, a Rússia será encorajada a ameaçar e prejudicar outros países, incluindo os Estados bálticos

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Por The Economist
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Nos Estados Unidos, a política externa funciona numa fórmula simples: com Donald Trump na Casa Branca, dependência dá lugar a maus-tratos. Esta é a lição que o mundo deve depreender de uma semana devastadora, que culminou no anúncio, em 3 de março, de que Washington está suspendendo toda a ajuda militar à Ucrânia até que Kiev aceite os termos de paz que Trump estabeleceu com a Rússia. É como se a Ucrânia estivesse em um relacionamento abusivo.

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Por mais amargo que tenha sido para o presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, ele agiu corretamente ao responder prometendo fazer o que for necessário para garantir o máximo de ajuda possível dos EUA. Não imaginemos que o resultado será bom para a Ucrânia, a Europa ou mesmo os EUA. O desfecho será apenas menos terrível do que se o desafio de Zelenski a um presidente que calcula tão fundamentalmente mal os interesses de seu próprio país continuasse.

Trump argumenta que suas táticas são justificadas porque ele trabalha pela paz. E teme da mesma forma que o governo Biden a possibilidade de um conflito por procuração contra a Rússia, que tem armas nucleares, acabar arrastando os EUA para a “3.ª Guerra Mundial”. Ele diz que está fornecendo garantias de segurança na forma de investimentos em mineração, porque a Rússia não ousaria invadir a Ucrânia se isso significasse tomar ativos americanos ou matar mineiros americanos.

Encontro entre os presidentes Donald Trump (D), dos EUA, e Volodmir Zelenski, da Ucrânia, no final de fevereiro foi marcado por humilhações ao presidente ucraniano Foto: Mystyslav Chernov/AP

Trump descreveu seu próprio plano como “genial”. Na verdade, é incoerente. A última pesquisa nacional de minerais na Ucrânia ocorreu na década de 1960: ninguém sabe quanta mineração ocorreria nem em que momento. Mesmo que estivessem presentes, cidadãos americanos não ofereceriam à Ucrânia muita segurança extra. A Rússia poderia simplesmente ignorar as minas, garantindo sua propriedade e a segurança de seus trabalhadores. Se a segurança do Ocidente fracassar na Ucrânia, a Rússia será encorajada a ameaçar e prejudicar outros países, incluindo os Estados bálticos. A 3.ª Guerra Mundial ficaria mais próxima, em vez de mais distante.

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Trump argumenta que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, jamais o contrariaria. Mas por que não? Trump acaba de demonstrar que não acredita que lutar pela Ucrânia vale a pena — e enfatizou isso atacando Zelenski no Salão Oval. Mesmo que se contenha por respeito a Trump, Putin poderá não se sentir mais obrigado a manter a paz após 2029.

Por todos esses motivos, Zelenski tem razão para pedir garantias de segurança dos EUA. Mas é improvável que consiga. O Reino Unido e a França, que pediram apoio americano para qualquer contingente militar que instalem na Ucrânia para salvaguardar um cessar-fogo, também não deverão conseguir. A escolha de Zelenski é, portanto, entre um acordo ruim de exploração de minerais, sem garantias de segurança dos EUA mas com a possibilidade de pelo menos algum apoio americano e uma presença militar europeia; ou nenhum acordo e nenhum apoio dos EUA.

Acabou o tempo em que os aliados dos americanos podiam contar com o Tio Sam para apoiá-los em uma crise, apesar de diferenças sobre políticas. Hoje em dia, em vez disso, os aliados dos EUA têm de se preparar para o pior. Trump diz que está apenas “pausando” o fornecimento de armas, mas os aliados da Ucrânia precisam agir como se a suspensão fosse permanente. Em 5 de março, após o congelamento original no fornecimento de armas, Washington também parou de compartilhar inteligência. Isso dificultará para a Ucrânia identificar alvos russos.

Os europeus devem apoiar Zelenski e defender o direito dos ucranianos à autodeterminação mesmo que isso irrite Trump. Devem também confiscar ativos do Estado russo na Europa e usá-los para pagar pela defesa da Ucrânia. Os europeus precisam financiar fabricantes de armas na Ucrânia. Precisam aumentar a produção de armas da Europa e comprar armas americanas para a Ucrânia, supondo que Trump o permita.

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Veja na íntegra a briga entre Donald Trump e Volodmir Zelenski na Casa Branca

Em frente à imprensa, presidente americano chamou ucraniano de ingrato e desrespeitoso.

A Otan tem sido a aliança militar mais bem-sucedida da história. Mas como Trump continua a considerar a dependência de seus aliados uma vulnerabilidade a ser explorada, a Europa tem de se preparar para o abandono ou a extorsão, mesmo que isso implique em acelerar o colapso da Otan — o que a Europa mais deseja evitar. Eis a tragédia de Trump ameaçar os amigos dos EUA.

O domínio de Donald Trump sobre a Ucrânia

Num elegante edifício comercial em Kiev, um grupo de engenheiros se aglomerava em torno de um novo drone negro de carbono chamado Batyar, ou “Rogue”. Ele se parece muito com os drones Shahed iraniano-russos que têm aterrorizado cidades ucranianas nos últimos meses. Com um alcance de até 1,5 mil quilômetros, a um custo de apenas US$ 25 mil a unidade, seu sistema de reconhecimento óptico de terreno lhe permite evitar a maioria dos bloqueios eletrônicos, portanto ele deverá mais do que igualar seu rival russo. O Batyar é resultado de muitas colaborações conjuntas entre empresas ucranianas e americanas. O que acontece quando essa cooperação acaba?

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, em um evento em Moscou: Trump diz que o líder russo 'nunca o contraria' Foto: Mikhail Metzel/AFP

Graças à guerra, a Ucrânia é hoje líder mundial na tecnologia de drones, que são mais potentes do que muitas armas fornecidas pelo Ocidente. No entanto, em geral a Ucrânia tem contado muito com o apoio militar do Ocidente e dos EUA. A ameaça de Trump de cancelar a ajuda já circulava antes de seu fatídico encontro com Zelenski no Salão Oval, em 28 de fevereiro. E em 3 de março Trump ordenou uma pausa imediata; dois dias depois, o compartilhamento de inteligência também foi interrompido. “Ninguém quer acreditar no pior cenário”, disse uma fonte militar antes da última declaração do presidente americano. “Mas há preocupação sobre alguns itens serem simplesmente impossíveis de substituir.”

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Os principais elementos do apoio dos EUA não são apenas as armas, são também a capacidade de fazer sua manutenção e os reparos necessários; os mísseis de defesa antiaérea que mantêm as cidades funcionando; o sistema Starlink fundamental para comunicações militares; e o compartilhamento de inteligência, que pode ser o mais crítico de todos.

Os soldados ucranianos sabem o que acontece quando o fluxo de armas americanas seca. No fim de 2023, Trump ordenou que os republicanos no Congresso segurassem a aprovação do pacote seguinte de ajuda militar à Ucrânia. Como resultado, Kiev ficou sem projéteis por seis meses. O oficial militar ucraniano Nazari Kishak diz que testemunhou o resultado disso durante o cerco russo à cidade ucraniana de Bakhmut: uma vantagem de dez contra um no fornecimento de projéteis de artilharia permitiu à Rússia destruir a cidade completamente, em meio a uma perda de vidas desnecessária.

Líderes europeus se reuniram em Bruxelas nesta semana para discutir a segurança do continente e defender o direito dos ucranianos à autodeterminação Foto: Omar Havana/AP

Até certo ponto, os drones fabricados na Ucrânia podem compensar a perda de poder de fogo de sua artilharia. Mas isso requer dinheiro: a indústria de defesa local opera abaixo de sua capacidade máxima. Os drones têm sido eficazes e relativamente baratos, mas a artilharia ainda é necessária, e os projéteis escasseiam. A perda dos veículos americanos de combate Bradley também será prejudicial. O fim dos foguetes americanos guiados por GPS concederia à Rússia liberdade de manobra atrás das linhas de combate. O tenente Kishak afirma que a ordem de suspensão dessas armas ocasionará “mais Bakhmuts”.

Somente os EUA são capazes de produzir armas de ponta como os mísseis Patriot que interceptaram os mísseis hipersônicos e balísticos da Rússia que chovem sobre as cidades ucranianas. Teoricamente, o sistema franco-italiano SAMP/T seria capaz de substituí-los se fosse produzido em escala. Mas não derrubaria os mísseis mais rápidos da Rússia (embora uma versão mais avançada seja aguardada para o ano que vem). Sem os Patriots, mais cidades ucranianas próximas do front, como Kharkiv, serão alvo de ataques. Os EUA têm trabalhado com o Japão para fabricar conjuntamente os Patriots, mas os números deverão ser modestos. E Trump teria de aprovar a transferência, o que ele pode recusar.

A rede de satélites Starlink, paga pela Polônia, mas controlada pelos EUA, também é insubstituível. Os ucranianos produziram soluções alternativas, por exemplo, durante sua incursão na região de Kursk, na Rússia, onde a maioria dos sistemas Starlink foi desativada. Uma autoridade ucraniana diz que um equipamento que usa tecnologia semelhante está em desenvolvimento: “Teremos um protótipo para lançar em alguns dias; uma solução maior virá em três meses”. Mas a mudança será complicada e removerá uma vantagem importante no campo de batalha. As alternativas são inferiores em aspectos vitais, além de vulneráveis às armas de guerra eletrônica da Rússia.

O elemento mais vital tem sido as informações de inteligência dos EUA, também suspensas em 5 de março. A inteligência americana alertou os ucranianos quando aviões russos estavam prestes a atacar; os avisou a respeito de novas incursões; rastreou o fluxo de armas russas, iranianas e norte-coreanas; e permitiu que os ucranianos atingissem estoques, logística e centros operacionais. Os americanos também direcionaram foguetes e drones da Ucrânia para alvos profundos no interior da Rússia.

Cidade ucraniana de Bakhmut foi destruída pelos russos no fim de 2023, quando os EUA suspenderam a entrega de mísseis Foto: Tyler Hicks/The New York Times

Os drones ucranianos são capazes de enxergar pouco além das linhas de frente, os olhos americanos os permitiram espiar muito mais longe. Um oficial militar do Ocidente afirma que os europeus são capazes de fornecer algumas alternativas — o Reino Unido, por exemplo, aciona rotineiramente aeronaves de vigilância sobre o Mar Negro — mas não com tanta rapidez. “Com esse tipo de guerra, tudo depende de sincronia. Sem a inteligência dos EUA, a Ucrânia terá dificuldades com alvos dinâmicos”, para atingir alvos novos assim que eles surjam.

Apesar desses prenúncios, as altas autoridades ucranianas não deram espaço ao desespero. Por um lado, dizem elas a si mesmas, a decisão de Trump pode ser revertida ou diluída. E existe uma confiança silenciosa de que a frente oriental esteja bastante estável. “Haverá um declínio lento, e talvez a linha de frente possa recuar um pouco”, diz um graduado oficial ucraniano. “Mas não haverá nenhuma tragédia.” Assim ele espera./ TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO