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Entenda como a impopularidade de Kevin McCarthy na Câmara dos EUA levou à sua queda

O parlamentar republicano, indicado pelo ex-presidente Donald Trump e que sempre esteve em atrito com seus colegas de partido mais radicais, foi o primeiro presidente da Câmara dos Estados Unidos a ser destituído

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Por Redação

Pela primeira vez em 234 anos de história, a Câmara dos Estados Unidos apoiou, na terça-feira, 3, uma resolução “para a vacância do cargo de presidente da casa”, por 216 votos a 210. O republicano Kevin McCarthy, então presidente, foi destituído por congressistas do seu próprio partido, que se irritaram com a sua ajuda aos democratas.

McCarthy é um empresário de 58 anos, representante do 20° distrito da Califórnia. Depois de ser eleito para a Assembleia do Estado da Califórnia em 2002 e servir como líder republicano da Assembleia, ele foi eleito para o Congresso em 2006. Em 2018, foi eleito líder republicano da Câmara, cargo em que atuou antes de ser eleito presidente da Câmara em janeiro de 2023.

Kevin McCarthy deixando a sede da Câmara depois de ter sido destituído do cargo de presidente na terça-feira, 3.  Foto: AP Photo/Mark Schiefelbein

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A derrocada na presidência da Câmara dos Representantes é mais uma frustração de McCarthy em relação ao cargo. Ele precisou de 14 rodadas de votação antes de ser eleito o presidente na Câmara, em 7 de janeiro. A vitória veio somente na 15ª rodada, depois que ele convenceu um número suficiente de radicais de seu próprio partido, alcançou 216 votos favoráveis, encerrando um impasse que se arrastou por quase uma semana, o mais longo desde 1859.

Embora tenha sido indicado pelo ex-presidente Donald Trump, McCarthy é considerado um republicano não radical. Alguns parceiros de partido, inclusive, o criticaram por supostamente ser “moderado demais para liderar”. Mesmo assim, ele coleciona motivos para não conseguir a simpatia dos democratas, como, por exemplo, ter lançado recentemente um inquérito de impeachment contra o presidente Biden.

Por que Kevin McCarthy foi destituído?

A gota d’água para os congressistas ocorreu no último fim de semana, quando McCarthy aprovou um projeto de lei de financiamento de 45 dias para manter as agências federais abertas — uma medida temporária bipartidária, apoiada pela Casa Branca, para evitar a paralisação dos serviços. A medida desencadeou uma onda de fúria de seus aliados, que já vinham o alertando que este passo poderia fazê-lo cair, e que exigiam cortes mais acentuados nos gastos.

O conservador da Flórida Matt Gaetz que junto com outros republicanos de extrema direita ameaçava repetidamente ir atrás do cargo de McCarthy se ele dependesse dos votos democratas para aprovar qualquer legislação de gastos, concretizou suas ameaças na noite de segunda-feira, 3, apresentando uma resolução para demitir o então presidente.

Um punhado de republicanos juntou-se aos democratas nessa decisão. McCarthy teve o apoio de 208 membros de sua conferência para permanecer como presidente da Câmara. Mas foram necessários apenas oito dissidentes no seu partido – muitos dos mesmos resistentes da extrema direita que tentaram impedi-lo de se tornar presidente da Câmara em janeiro – para o expulsar do cargo.

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O conservador Matt Gaetz ameaçava repetidamente ir atrás do cargo de McCarthy se ele dependesse dos votos democratas para aprovar qualquer legislação de gastos. Foto: AP Photo/J. Scott Applewhite

A destituição de McCarthy foi lida como uma punição alimentada por queixas crescentes, mas desencadeada pela sua decisão de trabalhar com os democratas para manter o governo federal aberto, em vez de arriscar uma paralisação.

Mas, em muitos aspectos, a destituição de McCarthy foi posta em prática quando, ao negociar com os resistentes da extrema-direita no início do ano, ele concordou com uma série de exigências - incluindo uma mudança nas regras que permitia a qualquer legislador apresentar uma moção para a vacância do cargo.

À medida que um debate acirrado se arrastou na Câmara após a votação, muitas das queixas contra o presidente giravam em torno da sua veracidade e da sua capacidade de cumprir as promessas que fez. Gaetz, que reclamou reiteradamente do fracasso de McCarthy em honrar os acordos feitos com a extrema direita, replicou: “O caos é o presidente McCarthy. Caos é alguém em cuja palavra não podemos confiar.”

McCarthy teve uma briga em maio com o presidente Joe Biden sobre o aumento do teto da dívida do país. Conseguiu um acordo de última hora para evitar o default e, embora tenha considerado esse feito como uma vitória dos conservadores, precisou enfrentar os republicanos linha-dura, que o criticaram por ter feito muitas concessões em matéria de gastos públicos.

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O presidente da Câmara dos Representantes é o segundo na linha de sucessão da Presidência americana. Assim como muitos congressistas, ele repreendeu Donald Trump após os distúrbios no Capitólio em 2021, mas logo recuou e viajou à Flórida para fazer as pazes com o magnata, garantindo um apoio crucial para suas ambições como presidente da Câmara.

Quem assume a presidência da Câmara dos EUA?

Momentos após o fim da votação, um importante aliado de McCarthy, o deputado Patrick McHenry, pegou o martelo e, de acordo com as regras da Câmara, foi nomeado como presidente. Mas ele poderá manter o cargo por horas, dias ou meses, até que os republicanos consigam indicar um candidato para presidente da Câmara.

Essa pessoa pode não ser McCarthy. Embora os aliados de McCarthy tenham dito que tentarão renomeá-lo, um estrategista republicano com conhecimento das conversas entre os republicanos da Câmara disse que a ideia é que “o tempo de McCarthy acabou” depois de ser o primeiro presidente da Câmara na história a ser deposto.

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Gaetz também não é um candidato provável. Apesar de liderar a acusação de destituição de McCarthy, a NBC News informa que Gaetz deverá concorrer ao governo da Flórida. E a maioria dos republicanos na Câmara não gosta tanto dele./Associated Press, Washington Post e AFP.

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