Maduro supervisiona exercícios militares na Venezuela em meio à tensão com EUA
Ditador venezuelano apareceu de farda militar e falou em 'defender a soberania' do país com a proximidade da chegada de navios militares americanos à costa vene. Crédito: APVideoHub
O presidente Donald Trump fez suas próprias contas. Pelo cálculo, ele “resolveu” oito guerras, da Faixa de Gaza ao Sudeste Asiático, durante seus nove meses no cargo. Mas em um lugar muito mais próximo de casa, ele parece determinado a iniciar uma.
Com dezenas de navios de guerra e aviões, e milhares de soldados americanos recém-destacados para o Mar do Caribe, Trump declarou um “conflito armado” com grupos de tráfico de drogas que ele designou como terroristas internacionais. Ataques aéreos americanos explodiram pelo menos oito barcos que, segundo Trump, transportavam drogas para os Estados Unidos em águas internacionais da Venezuela, matando dezenas de supostos traficantes.
Ele também assinou um “finding”, ou documento de autorização, para operações secretas da CIA na Venezuela e acusou seu ditador, Nicolás Maduro, de ter sido eleito ilegalmente e de liderar um cartel de narcóticos.

Mas, afinal, os ataques de Trump aos barcos podem se transformar em guerra?
Houve uma reviravolta inesperada nos ataques crescentes do governo Trump aos supostos “narcoterroristas” da Venezuela. “Eu autorizei isso por dois motivos”, disse Trump na semana passada. A Venezuela, segundo ele, foi a “pior abusadora” das políticas de “fronteiras abertas” do governo Biden, esvaziando suas “prisões, instituições psiquiátricas e manicômios” de migrantes para os Estados Unidos. “A outra questão são as drogas. Temos muitas drogas entrando da Venezuela”.
Questionado se havia autorizado a CIA a “eliminar” Maduro, Trump disse que seria “uma pergunta ridícula” para responder. “Mas acho que a Venezuela está sentindo a pressão”.
A porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, referiu-se às declarações públicas de Trump em resposta a um pedido de esclarecimento sobre sua política na região. Ela acrescentou em um e-mail que “esses ataques decisivos têm sido contra narcotraficantes designados que trazem veneno letal para as costas dos EUA, e o presidente continuará a usar todos os elementos do poder americano para impedir que as drogas inundem nosso país e para levar os responsáveis à justiça”.

Trump deixou clara sua intenção de ir além de explodir barcos, dizendo que “vamos detê-los por terra” na Venezuela. Várias pessoas familiarizadas com as deliberações internas do governo disseram que qualquer ataque terrestre inicial provavelmente seria uma operação direcionada a supostos acampamentos de traficantes ou pistas de pouso clandestinas, em vez de uma tentativa direta de derrubar Maduro.
Alguns dizem que as mobilizações dos EUA e os ataques a barcos eram uma guerra psicológica para promover fraturas nas Forças Armadas venezuelanas ou persuadir Maduro a renunciar. Mas Trump não disse nada para dissipar as preocupações de que os Estados Unidos poderiam lançar uma operação militar em grande escala.
Tendo declarado guerra contra os narcoterroristas e designado Maduro como o chefe de pelo menos um cartel, “realmente não há volta a dar, a menos que Maduro esteja essencialmente fora do poder”, disse uma pessoa entre as entrevistadas para este artigo que, como outras, falou sob condição de anonimato sobre o assunto delicado.
“No final das contas, se você tem autoridade para eliminar os traficantes do cartel” no mar, “você pode eliminar o chefe do cartel”, disse a pessoa.

A grande maioria das drogas ilícitas que entram nos Estados Unidos — e praticamente todo o fentanil — não vem do Caribe nem passa por ele, mas da costa do Pacífico ou por terra, via México, segundo especialistas do governo dos EUA e da ONU. A Venezuela é geralmente usada como um canal para a cocaína produzida e traficada por grupos guerrilheiros colombianos — principalmente o Exército de Libertação Nacional, o ELN.
O Cartel de los Soles, grupo venezuelano designado como terrorista que, de acordo com o governo Trump, é liderado por Maduro, é composto em grande parte por altos oficiais militares e funcionários do regime venezuelano que facilitam e recebem uma parte dos lucros do tráfico de drogas e outras atividades criminosas.
“Acho que estamos longe de ter uma presença militar no terreno” na Venezuela, disse Juan Gonzalez, que atuou como diretor sênior do Conselho de Segurança Nacional para assuntos do Hemisfério Ocidental durante o governo Biden. “Isso não significa que eles não usarão recursos dos EUA para tentar entrar no território venezuelano, mas é muito mais fácil perseguir os refúgios do ELN... que fazem fronteira com a Colômbia [dentro da Venezuela] do que entrar em Caracas.”
Embora as instruções precisas de Trump à CIA sejam altamente confidenciais, duas pessoas familiarizadas com o documento que ele assinou o descreveram como autorizando uma ação agressiva da agência contra o governo venezuelano e traficantes de drogas associados ao regime.

O documento não ordena explicitamente que a CIA derrube Maduro, mas autoriza medidas que podem levar a esse resultado, disseram as pessoas familiarizadas com o documento. A agência de espionagem dos EUA decidiu reforçar sua presença na região, enviando pessoal para o Caribe e áreas vizinhas para coletar informações humanas e eletrônicas, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. O Pentágono já enviou forças de operações especiais dos EUA para a região, incluindo uma unidade de helicópteros de elite.
“Os EUA estão em um momento decisivo — Washington precisa decidir o que quer”, disse Geoff Ramsey, especialista em Venezuela do Atlantic Council. “O presidente assumiu o cargo prometendo acabar com as guerras intermináveis, mas agora se vê defendendo o que pode ser a guerra mais longa dos Estados Unidos, a guerra contra as drogas.”
Medo de uma ampliação da missão
Para muitos observadores externos, incluindo legisladores e especialistas regionais, ainda não está claro se as ações de Trump até o momento fazem parte de uma estratégia política ou militar destinada a reduzir o fluxo de drogas, levar à derrubada de Maduro ou ser parte de uma mudança mais ampla em relação à América Latina.
“Certamente agravaria a situação se eles começassem a realizar ataques terrestres dentro do território venezuelano, especialmente se esses ataques tivessem um objetivo político”, disse Tom Shannon, que ocupou vários cargos importantes no Departamento de Estado, incluindo secretário adjunto para assuntos do Hemisfério Ocidental e subsecretário para assuntos políticos durante o governo Obama e nos primeiros cinco meses do primeiro mandato de Trump.
“O governo americano vai se meter em apuros exatamente aí. Eles não estão sendo claros com o povo americano sobre o que está acontecendo”, disse Shannon. “Se for apenas tráfico de drogas, ótimo. Mas eles têm uma força exagerada e há uma mensagem de intimidação aqui que só está sendo articulada por meio de atos e do anúncio de ações secretas dentro da Venezuela”.

O almirante Alvin Holsey renunciou na semana passada ao cargo de chefe do Comando Sul dos EUA, menos de um ano após uma nomeação de três anos, algo que Shannon e outros atribuíram ao seu desconforto com as operações no Caribe. Críticos argumentaram que os ataques são violações da legislação americana e internacional e o governo não forneceu evidências suficientes ou justificativas legais confiáveis.
Nem Holsey nem o secretário de Defesa Pete Hegseth deram uma razão para a saída do almirante, mas “é preciso supor que foi por isso que ele decidiu encerrar sua carreira”, disse Shannon. “‘Este será o meu legado? Crimes de guerra?’”
De maneira mais ampla, o governo disse que quer redirecionar a política externa americana das partes mais distantes do mundo para o Hemisfério Ocidental.
A próxima Estratégia de Defesa Nacional, geralmente produzida pelo Pentágono a cada quatro anos, deve tornar a defesa do território americano e dos países vizinhos as principais prioridades, de acordo com várias pessoas familiarizadas com o documento. Essas prioridades também devem se refletir na Estratégia de Segurança Nacional do governo, produzida pela Casa Branca e também prestes a ser divulgada.
A escolha irritou muitos líderes militares, a maioria dos quais ainda considera o rápido fortalecimento militar da China a ameaça mais urgente à segurança nacional.

Alguns legisladores e especialistas regionais duvidam que exista uma estratégia para o hemisfério, vendo, em vez disso, uma série de políticas voltadas para países específicos, cujo tratamento pelo governo tem mais a ver com sua lealdade às políticas trumpistas e às preferências pessoais de Trump.
“Acho que a política nas Américas é realmente uma mistura confusa no momento”, disse o senador Tim Kaine (Democrata da Virgínia), que há muito se concentra na política para a América Latina.
“Estamos envolvidos em ações militares no Caribe e vamos dar 20 bilhões de dólares à Argentina se as eleições legislativas correrem bem”, disse Kaine a um grupo de repórteres na sexta-feira. “Digam-me qual é a linha condutora?”

Amigos íntimos e interferência estrangeira
A Argentina realizará eleições legislativas no próximo domingo, e o governo do presidente Javier Milei — um discípulo declarado do MAGA, “anarcocapitalista” e favorito de Trump — deve perder cadeiras em meio a uma recessão econômica. Se Milei vencer, Trump prometeu, quando o líder argentino visitou a Casa Branca na semana passada, que ele receberá US$ 20 bilhões para sustentar o peso argentino e talvez mais US$ 20 bilhões. Se ele perder, disse Trump, insinuando aos eleitores argentinos que o resgate da economia está em jogo, “não perderemos nosso tempo”.
O governo elogiou o presidente conservador do Paraguai, que o secretário de Estado Marco Rubio chamou de parceiro “extraordinário” no verão passado, depois de o país aceitar requerentes de asilo dos EUA. O Equador, que indicou disposição para reabrir uma base militar americana fechada por um governo anterior, recebeu a promessa de um possível acordo de livre comércio durante uma visita de Rubio no mês passado.
Ao mesmo tempo, Trump ameaçou aplicar tarifas pesadas sobre o cobre chileno, principal exportação daquele país para os EUA, apesar do acordo de livre comércio existente e do déficit comercial do Chile com os Estados Unidos. Trump atingiu o Brasil com uma tarifa de 50% após a condenação criminal do ex-presidente e aliado de Trump, Jair Bolsonaro, por conspirar um golpe contra o atual presidente do país, Luiz Inácio “Lula” da Silva. Mas, após um breve aperto de mão com Lula na ONU no mês passado, Trump proclamou que eles tinham “uma excelente química” e que uma futura reunião estava sendo planejada.

Lula, o presidente chileno Gabriel Boric e o presidente colombiano Gustavo Petro são esquerdistas que estão chegando ao fim de seus mandatos. No fim de semana passado, Petro acusou Trump de um ataque militar a um barco de pesca em águas colombianas e de matar um cidadão colombiano. Em resposta, Trump disse que estava cortando toda a ajuda dos EUA a Bogotá — cuja relação militar e de inteligência com os Estados Unidos tem sido a mais próxima da América Latina — e provavelmente imporia tarifas devastadoras.
Chamando Petro de “lunático” e “líder do tráfico ilegal de drogas”, Trump disse nas redes sociais que, se ele não acabasse com a produção ilícita de cocaína na Colômbia, os Estados Unidos fariam isso por ele “e não seria de forma amigável”.
Os cortes na assistência militar à Colômbia colocam em risco uma parceria vital de inteligência, justamente quando os EUA intensificam suas atividades militares na região, disse Gonzalez. “Isso não vai punir Petro”, disse ele, e pode até melhorar sua fraca posição interna. “Trump pode ter acabado de lhe dar uma plataforma para ser um ex-presidente popular que enfrentou os Estados Unidos, exatamente o que Petro está procurando.”
Na Venezuela, a ditadura chavista continuou a atacar oponentes políticos e manifestantes, enquanto mobilizava tropas para áreas costeiras e, segundo Maduro, alistava 8 milhões de pessoas em milícias civis.

A CIA organizou “todos os golpes de Estado na América Latina... e assassinatos de presidentes”, disse Maduro após saber da autorização de Trump à CIA. Falando na televisão estatal, o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, disse que não queria alarmar as pessoas, “mas quero alertar a população de que temos que nos preparar, porque a irracionalidade com que o imperialismo americano age não é normal”.
“Esta é a primeira vez que temos indicadores de que eles estão levando essa ameaça a sério”, disse Andrei Serbin Pont, do grupo de pesquisa latino-americano CRIES. “Eles entendem que as capacidades convencionais não têm chance” contra uma possível intervenção dos EUA.
Mesmo com compras e contribuições da Rússia, China e Irã, as forças armadas da Venezuela estão desatualizadas e não estão acostumadas ao combate. “A lógica por trás das compras militares venezuelanas era enviar mensagens ideológicas”, em vez de acessar a melhor tecnologia, disse José Gustavo Arocha, tenente-coronel aposentado do exército venezuelano que agora vive nos Estados Unidos.
“No final das contas”, disse Arocha, “o que é realmente relevante, e por que o regime é uma ameaça, são suas capacidades assimétricas em inteligência, infiltração, compra de favores e desinformação”.
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Qualquer resposta venezuelana “provavelmente não representará um impedimento significativo para as forças americanas”, escreveu Geoffrey Corn, oficial aposentado do Exército e diretor do Centro de Direito e Política Militar da Texas Tech University, no site War on the Rocks. Mas “o que começou como uma ação limitada contra um punhado de supostos traficantes de drogas pode rapidamente se expandir para uma guerra, com mudança de regime... e todas as consequências de segunda e terceira ordem que os Estados Unidos já experimentaram e muitas vezes são mais difíceis de lidar do que derrotar o inimigo em batalha”.
Por enquanto, Trump parece não se preocupar com os preparativos de defesa da Venezuela. Vídeos divulgados pelo governo de Maduro mostram civis, muitos deles idosos, sendo treinados para repelir uma invasão. Ele republicou um deles em sua conta no Truth Social, mostrando uma mulher correndo desajeitadamente com uma arma longa nas mãos.
“Ultrassecreto”, escreveu Trump. “Flagramos o treinamento militar venezuelano. Uma ameaça muito séria!”






